Instituto aponta destruição na Amazônia de 1.197 km² apenas em abril; uma área do tamanho da capital do RJ

Iury Lima – Da Revista Cenarium

VILHENA (RO) – A ferida aberta pelo desmatamento na floresta amazônica se alastra de forma nunca antes vista; é o que aponta, por mais um mês seguido, o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon): São 1.197 quilômetros quadrados de destruição apenas em Abril, 185 quilômetros quadrados a mais do que a estimativa dos alertas de desmatamento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), divulgada na última semana. Em toda essa área, segundo o estudo, seria possível construir uma cidade do tamanho da capital do Rio de Janeiro

“O fato do desmatamento ter atingido valores mais altos que mil quilômetros quadrados em um dos meses integrantes do ‘inverno amazônico’, é bastante preocupante e aponta uma tendência de índices ainda mais elevados, que podem ser atingidos na época mais seca”, avaliou, à CENARIUM, a pesquisadora do Imazon, Larissa Amorim.

E as coisas, ou melhor, as matas, podem, literalmente, esquentar ainda mais. A falta de fiscalização do Governo Bolsonaro, que coibiu apenas 2% da devastação desde que o mandato teve início; os crescentes estragos causados aos biomas, estimados e corroborados a cada período de trinta dias em dados oficiais; o desmonte que assola órgãos responsáveis por ações de comando e controle e, o negacionismo climático, colocam o País em um ritmo cada vez mais galopante rumo à realidade de um assustador alerta da PrevisIA, Inteligência Artificial (IA) do Imazon – a perda de um total de 15 mil quilômetros quadrados de florestas até julho, a menos de dois meses a contar de agora. 

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Mês a mês, o maior bioma brasileiro perde cada vez mais áreas nativas com recordes de desmatamento (Bruno Kelly/Amazonia Real/ Reprodução)

Pior abril em 15 anos

O desmatamento da Amazônia já havia fechado o ano de 2021 como o pior da última década, com mais de 10 mil quilômetros quadrados, ou, sete vezes a cidade de São Paulo. Desta vez, em abril, atingiu a pior marca para o período em 15 anos, desde que o Imazon iniciou o monitoramento com imagens de satélite, em 2008. Assim como foi, também, em fevereiro, com a pior marca dos últimos 15 anos e destruição do tamanho de Fortaleza, bem como o fechamento do primeiro trimestre de 2022, o mais desastroso em quase duas décadas.

Pare se ter uma ideia do quão expressivo é o aumento, em abril de 2008, foram devastados 156 quilômetros quadrados, ou seja, 1.041 quilômetros quadrados a menos. Quando a comparação considera o mês de abril de 2021, a elevação mais que dobrou: 54%.

São dados que, para o Imazon, servem como “um sinal de urgência e ações sejam implementadas antes que a estimativa [da PrevisIA] de 15 mil km² derrubados se concretize”.

“Esperamos que a PrevisIA erre, pois queremos que seus dados possam ajudar a orientar ações efetivas para evitar desmatamentos. Porém, infelizmente, estamos vendo a previsão se tornar realidade”, lamentou o Pesquisador do Imazon, Carlos Souza Jr.

Para o pesquisador Carlos Souza Jr., a inteligência artificial do Imazon deve ser usada como aliada para impedir o avanço do desmatamento e da degradação florestal (Reprodução/TV Cultura)

Mato Grosso, de novo

A liderança que, em boa parte do ano passado foi ocupada pelo Pará, pelo quarto mês consecutivo deste ano é do Estado de Mato Grosso. Sozinha, a Unidade Federativa destruiu 372 quilômetros quadrados: 31% de toda a devastação ocorrida em abril. 

O Amazonas ocupou o segundo lugar do ranking, com 348 quilômetros quadrados e, o Pará, com 243 quilômetros quadrados, ficou em terceiro.

Dados do Imazon mostram que MT, AM e PA lideraram a destruição da Amazônia em abril de 2022 (Fonte: Imazon)

“Juntos, esses três estados concentram cerca de 80% de todo o desmatamento detectado na Amazônia Legal, no mês de abril”, destacou Larissa Amorim. “Além disso, a destruição também avançou nas áreas protegidas do Estado do Pará e, também, na região conhecida como ‘Amacro’, que é um polo do agronegócio localizado ao sul do Estado do Amazonas e em partes de Rondônia e Acre”, acrescentou a pesquisadora.

Larissa Amorim lamenta que as primeiras populações afetadas pela destruição do bioma sejam aquelas que dependem exclusivamente da floresta para sobreviver (Reprodução/Imazon)

Quem paga a conta

O que ocorre na Amazônia impacta diretamente no modo de vida das sociedades e no clima de todo o planeta. No entanto, quem paga a primeira fatura sempre são os povos tradicionais. De acordo com os dados do Imazon, a Terra Indígena (TI) Yanomami, que tanto vem sofrendo com o abandono, a invasão, o desmatamento, garimpo ilegal e o risco de um novo genocídio, está no topo da lista de risco calculado pela PrevisIA.

No mês de abril, o território localizado entre Amazonas e Roraima, foi o segundo que mais sofreu com o avanço de destruição das florestas nativas. Com 100 campos de futebol arrancados de dentro da reserva, a TI só perdeu para o lar dos indígenas Karipuna, povo originário habitante de Rondônia.

“O desmatamento, além de comprometer a manutenção dos recursos naturais, também coloca em risco a segurança de povos tradicionais que dependem da floresta, como, por exemplo, os quilombolas e os indígenas”, defende a especialista e pesquisadora do Imazon. 

Leia também: Terras Indígenas mais ameaçadas pelo desmatamento na Amazônia estão no Pará e em Rondônia, revela Imazon

Urgência

Mudar o cenário é uma necessidade, na visão dos especialistas do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia os cálculos da IA, desenvolvida pela organização em parceria com a Microsoft, tem muito a contribuir. A plataforma conta com 75% de assertividade em suas previsões, sendo que todos os alertas emitidos por ela se concretizaram em um raio de até 4 quilômetros. 

“Estamos entrando em um período que é considerado o mais seco, onde as chuvas costumam ser menos intensas e o desmatamento tende a atingir patamares mais altos. Para evitar o avanço da destruição na Amazônia Legal, nesses meses que estão por vir, é necessário investir em ações de fiscalização, priorizando, principalmente, aquelas áreas que estão sob maior pressão em relação ao desmatamento”, alertou, por fim, Larissa Amorim.  

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