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22 de novembro de 2021
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Com informações de O Globo

JAPÃO – O momento mais marcante da cerimônia de encerramento da Olimpíada de 2016 pouco teve a ver com o Rio. Ao olhar para o relógio e perceber que não chegaria a tempo no Brasil, o então premier japonês, Shinzo Abe, “transformou-se” em Mario. Como o mascote da Nintendo, cruzou o mundo em um cano até aparecer, de quepe e macacão, no gramado do Maracanã.

Se o Japão é o oitavo país no ranking de “poder brando” Soft Power 30 de 2019, feito pela consultoria britânica Portland, especialistas ouvidos pelo GLOBO afirmam que a cultura pop japonesa é peça-chave da exploração desse prestígio. Não é à toa que as principais febres infantojuvenis dos últimos 40 anos vieram de lá.

Os mais jovens, ao menos no Ocidente, não associam o Japão ao passado imperialista, mas a Pokémon, Sailor Moon e, mais recentemente, Demon Slayer. Lançada em 2020, a adaptação cinematográfica desses mangás derrubou o hoje clássico “A viagem de Chihiro” como o filme japonês de maior bilheteria da História.

Segundo David Leheny, professor da Universidade Waseda, em Tóquio, o sucesso do desenho de Hayao Miyazaki, que levou o Urso de Ouro em 2002 e o Oscar de melhor animação em 2003, foi um dos elementos que ajudou o governo a notar o potencial da cultura pop. Até ali, ele diz, havia certo ceticismo de que o Japão pudesse em algum momento ser percebido como uma potência do soft power.

Outro catalisador, disse o professor em uma entrevista por e-mail, foi a publicação de uma reportagem do jornalista Douglas McGray na revista Foreign Policy, em 2002. Seu título fazia um trocadilho com Produto Interno Produto: o “Cool Nacional Bruto do Japão”. Falava, basicamente, da transformação do país em uma superpotência cultural.

Desde então, o conceito de Cool Japan é adotado pela diplomacia japonesa. Trata-se de uma referência à Cool Britannia da segunda metade dos anos, movimento impulsionado pela pungente cena cultural da época no Reino Unido, que trouxe consigo um certo orgulho nacionalista. Basta se lembrar da Union Jack no vestidinho da Spice Girl Geri Halliwell ou na guitarra de Noel Gallagher, do Oasis.

Oportunidade comercial

Ao contrário do Partido Trabalhista britânico, que surfou na onda do pop para pôr Tony Blair no poder em 1997, o governo japonês mira no público externo. O Cool Japan se sedimentou como política em 2010, com a criação do Escritório de Promoção das Indústrias Criativas pelo Ministério da Economia, Comércio e Indústria.

O objetivo era essencialmente comercial: os produtos culturais japoneses eram populares no exterior, apesar de atingirem nichos, e não traziam tanto lucro ou visitantes quanto poderiam para o país. Assim, apresentavam uma oportunidade após uma década de problemas econômicos.

O timing também coincidiu com a Hallyu, como a explosão global da cultura coreana é conhecida, fenômeno que para muitos ameaça o soft power japonês.

O orçamento do escritório passou de 19 bilhões de ienes em 2011 para 55 bilhões de ienes no ano passado (algo em torno de R$ 2,6 bilhões), usados para promover o Japão e sua cultura, seja ela contemporânea ou tradicional.

Há ainda o Fundo Cool Japan, uma parceria público-privada lançada em 2013 para investir em negócios que promovam e desenvolvam produtos e serviços japoneses. Desde então, mais de 100 bilhões de ienes (R$ 4,8 bilhões) já foram investidos em aproximadamente 50 projetos.

Até 2018, contudo, o fundo acumulava 10 bilhões de ienes (R$ 478 milhões) em perdas. Se o projeto tem sucesso para impulsionar animes e a culinária, por exemplo, o êxito é menor na música e no cinema, especialmente quando comparado ao da Coreia. Mesmo onde o resultado é positivo, críticos apontam que se deve mais a um interesse orgânico do que à intervenção do governo. Há também quem discorde do foco no soft power em si:

“Os poucos estudos empíricos que tentam medi-lo geralmente mostram impactos muito, muito limitados. E mesmo eles parecem ter efeitos de curto prazo que não são necessariamente ligados à cultura”, disse Leheny.

Soft power em xeque

Para Alexandre Uehara, coordenador do Grupo de Estudos sobre Ásia da Universidade de São Paulo, a percepção internacional da imagem do Japão começou a mudar diante da rápida recuperação econômica no pós-guerra:

— O país conseguiu projetar toda uma imagem já nos anos 1960 a partir da sua tecnologia — afirmou. — A admiração e o consumo das produções culturais também são consequência disso.

Não é à toa que o primeiro grande fenômeno do anime no Brasil vem na década de 1980, com os Cavaleiros do Zodíaco, aponta Mayara Araujo, doutoranda da Universidade Federal Fluminense (UFF). Leia a matéria completa em O Globo.