26 de outubro de 2020

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Por Angelo Madson Tupinambá*

PARÁ – Desde 1º de setembro, um incêndio florestal consome as matas da Terra Indígena Alto Rio Guamá (Tiarg), na altura da Aldeia Cajueiro, região localizada no sudeste do Pará. A origem ainda é investigada pela Polícia Federal (PF), mas provavelmente teria sido provocado por invasores, em busca da madeira de alto valor comercial ou da extração ilegal de Açaí dentro da terra indígena. A Tiarg foi criada pelo decreto n.º 307 de 21 de março de 1945, como reserva indígena.

De dia ou a noite, os incêndios na terra indígena Alto Rio Guamá, consomem a vida no maior bioma florestal do mundo (Reprodução/João Paulo Guimarães)

No entanto, os indígenas foram alvos de muitas perseguições, abusos e explorações, da segunda metade do séc. XIX até meados do séc. XX, consequência da política indigenista civilizatória e de ações do Governo que visava a “Integração Nacional da Amazônia” (Kahwage; Marinho 2011).

Mesmo sendo criada em 1945, a demarcação da Tiarg começou apenas em 1972 até 1976, em decorrência de inúmeros conflitos e invasões de território. Quando a Demarcação foi concluída, muitos colonos estavam morando na área, assim como haviam fazendas instaladas e até estradas como a que liga a Fazenda Irmãos Coragem de Mejer Kabacznick ao município Nova Esperança do Piriá, que tem 70% de seu território dividindo a terra indígena. Além da estrada que liga a rodovia BR-316 ao município de Garrafão do Norte.

Invasão

Em 1970, com aval da Funai, a Companhia Agropecuária do Pará invadiu 11 mil hectares da reserva e facilitou a ação de novos invasores na terra indígena. Essas invasões, ao norte e ao leste, formaram ao longo do tempo vilas e povoados, restando apenas os limites ao sul, onde passa o Rio Gurupi. Ao Norte, foi invadida por posseiros e a Leste por fazendeiros como Mejer Kabacznick, que roubou mais de 9 mil hectares da reserva.

Inimiga declarada da floresta, a motosserra é o instrumento mais usado para derrubar uma paisagem milenar (Reprodução/João Paulo Guimarães)

A formação de povoados, pastos e abertura de estradas facilitou a entrada de madeireiros, garimpeiros e até traficantes de drogas, com plantações de maconha dentro na área. Todas essas atividades colaboram para o desmatamento da terra indígena. Isso foi determinante para divisão dos Tembé em dois grupos: de aldeias do norte e do sul, Aldeias do Gurupi e Aldeias do Guamá.

A presença de invasores impactou as relações socioeconômicas e culturais, a territorialidade foi violada e a própria circulação de indígenas tornou-se difícil e perigosa. Essa divisão prejudica a unidade cultural entre os povos. A proximidade com município de Capitão Poço influenciou a cultura nas Aldeias do Rio Guamá. Enquanto no Gurupi a cultura é preservada, no Guamá as festas tradicionais e a prática de rituais se perderam, bem como a pintura corporal e o domínio da língua, praticamente nulo entre eles. Mas isso vem mudando graças à luta pela retomada de identidade!

Nesse momento, a terra indígena é alvo de invasões, de posseiros, fazendeiros e pequenos agricultores, que desmatam a floresta para estabelecer pastagens, culminando com a perda da cobertura florestal. Por isso, devemos apoiar e incentivar o trabalho dos Guardiões da Floresta, que são indígenas organizados para vigiar e proteger essa área historicamente cobiçada.

Informes Atualizados do Incêndio Florestal na Tiarg

Na manhã de ontem, quarta-feira 23, o Exército teve que se retirar da área de operações, mas o Prevfogo (Sistema Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais do Ibama) está no local, juntamente com 1º Grupamento de Proteção Ambiental de Paragominas (1° GPA- | Cbmpa), que com a força e organização dos Guardiões da Floresta do Povo Tembé Tenetehara dão o combate ao incêndio.

Impiedoso com a fauna e a flora, o fogo consome mais que vida, ele destrói a esperança dos verdadeiros guardiões da floresta: os índios e caboclos (Reprodução/João Paulo Guimarães)

Ontem, também, surgiu um novo foco de incêndio dentro da mata, mas, segundo informações do Cacique Reginaldo da Aldeia Cajueiro, a situação está se estabilizando e o fogo está prestes a ser controlado finalmente.

(*) Correspondente do Coletivo Idade Mídia para a REVISTA CENARIUM

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