Jornalista e indigenista que mapeavam crimes na Amazônia foram esquartejados e incendiados, confirmam investigações

Priscilla Peixoto e Bruno Pacheco – Da Revista Cenarium

MANAUS — Investigações confirmam que nesta quarta-feira, 15, um dos suspeitos do desaparecimento do jornalista britânico Dom Phillips e o indigenista Bruno Pereira, Oseney da Costa de Oliveira, de 41 anos, confessou o crime para a Polícia Federal (PF). Segundo fontes sigilosas ouvidas pela CENARIUM, o ativista e o jornalista foram esquartejados e incendiados.

A Polícia Federal do Amazonas levou, no início da tarde desta quarta-feira, 15, Oseney ao local do crime. De acordo com as fontes, a confissão veio ainda na noite dessa terça-feira, 14, quando o homem estava sendo interrogado pelas autoridades policiais. A expectativa é que os corpos sejam encontrados ainda na tarde desta quarta-feira, 15.

Oseney de Oliveira sendo levado pela Polícia Federal ao local onde estão sendo realizado as buscas pelos desaparecidos (Divulgação)

Os relatos dão conta de que Dom Phillips e Bruno Pereira estavam navegando pelo Rio Itaquaí, próximo ao município de Atalaia do Norte, quando flagraram os suspeitos pescando pirarucu em uma região de pesca ilegal. O jornalista e o indigenista, que estavam fotografando na localidade, foram rendidos e mortos em uma vala, uma espécie de buraco.

Caso

O indigenista Bruno Araújo Pereira, 41, da Fundação Nacional do Índio (Funai), e o jornalista inglês Dom Phillips, 57, colaborador do jornal The Guardian, desapareceram no Vale do Javari, na Amazônia, ao realizarem um percurso entre a comunidade ribeirinha São Rafael à cidade de Atalaia do Norte, no interior do Amazonas.

Segundo a União do Povos Indígenas Vale do Javari (Univaja), Bruno e Dom viajavam em uma embarcação nova, com motor de 40 HP e 70 litros de gasolina, rumo a uma localidade próxima à Base de Vigilância da Funai, no Rio Ituí, Lago Jaburu, para que o jornalista britânico realizasse entrevistas com indígenas para um livro com temática ambiental.

Após a missão, a dupla retornou ainda pela manhã para a cidade de Atalaia do Norte. Conforme a Univaja, no caminho, fizeram uma parada na Comunidade São Rafael, para que Bruno Pereira se reunisse com um integrante da comunidade, conhecido como “Churrasco”, para tratar de questões sobre vigilância da região por meio de trabalho conjunto entre moradores e indígenas.

Ao deixarem a comunidade sem falar com “Churrasco”, que não foi à reunião marcada, testemunhas relataram que o pescador Amarildo Oliveira, de 41 anos, popularmente conhecido como “Pelado”, se deslocou logo atrás da dupla, em alta velocidade, em uma lancha, pouco antes do desaparecimento.

Bruno e Dom desapareceram no dia 5 de junho (Reprodução)

Buscas

No dia 6 de junho, a Polícia Federal no Amazonas começou uma apuração sobre o caso de Bruno Araújo Pereira e Dom Phillips. No mesmo dia, o Comando do 9° Distrito Naval da Marinha do Brasil e o Governo do Amazonas determinaram o envio de equipes de busca e salvamento e de reforço policial especializado ao município de Atalaia do Norte para dar apoio nas buscas.

Equipes de mergulho e de aéreas foram enviadas pelo governo federal e Governo do Estado do Amazonas para reforçar a procura. À ocasião, sete militares com auxílio de uma lancha atuaram nos Rios Javari, Itaquaí e Ituí, no interior do Amazonas.

Um helicóptero do 1° Esquadrão de Emprego Geral do Noroeste, duas embarcações e uma moto aquática também foram enviados ao local, além da atuação do Exército, demais Forças de Segurança, órgãos ambientais, e o apoio da comunidade.

(Divulgação/CMA)

Na noite de domingo, 12, o Comitê de Crise, coordenado pela Polícia Federal do Amazonas (PF-AM), confirmou, por meio de nota, que os pertences encontrados na região do Vale do Javari eram do indigenista e do jornalista inglês.

Na região onde se concentraram as buscas foram encontrados objetos pessoais pertencentes aos desaparecidos, sendo 1 (um) cartão de saúde em nome do Sr. Bruno Pereira, 1 (um) calça preta pertencente ao Sr. Bruno Pereira, 1 (um) chinelo preto pertencente ao Sr. Bruno Pereira, 1 (um) par de botas pertencente ao Sr. Bruno Pereira, 1 (um) par de botas pertencente ao Sr. Dom Phillips e 1 (uma) mochila pertencente ao Sr. Dom contendo roupas pessoais”, informava um trecho da nota obtida pela REVISTA CENARIUM.

Suspeitos

A Polícia Federal interrogou mais de dez pessoas e prendeu um suspeito, identificado como Amarildo da Costa de Oliveira, o “Pelado”. No dia 8 de junho, o barco de Amarildo, foi rastreado pela polícia, que o encontrou na mesma região onde a dupla foi vista pela última vez.

Com o pescador, foram encontrados um cartucho calibre 16, rifle 762, munições. O suspeito foi preso em flagrante e encaminhado a 50ª Diretoria de Inteligência Policial, para prestar depoimento. No dia 9 de junho, após a perícia da Polícia Civil do Amazonas (PC-AM) encontrar vestígios de sangue na embarcação de Amarildo, o Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM) decretou a prisão temporária do homem por suspeita de envolvimento no desaparecimento da dupla.

Na noite do dia 14 de junho, a Comitê de crise, coordenado pela Polícia Federal do Amazonas, informou por meio de nota, a prisão temporária de Oseney da Costa de Oliveira, popularmente conhecido como “Dos Santos”, 41 anos, por suspeita de participação no caso do desaparecimento do indigenista Bruno Pereira e do jornalista inglês Dominic Phillips

Oseney é irmão de Amarildo da Costa, o “Pelado”, que inclusive já estava em prisão temporária. A suspeita seria de que os irmãos atuaram juntos no sumiço da dupla. “Oseney da Costa de Oliveira está sendo interrogado e será encaminhado para audiência de custódia na Justiça de Atalaia do Norte/AM”, informou o texto.

Prisão foi decretada durante audiência de custódia de Amarildo da Costa de Oliveira, o Pelado, e tem prazo de cinco dias (Reprodução)

Mobilização

A União dos Povos Indígenas Vale do Javari (Univaja) foi a primeira organização a relatar sobre o desaparecimento. Ainda no domingo, 5, comunitários e indígenas iniciaram as buscas pelo rio e solicitaram apoio da Polícia Militar e Federal. A associação teve atuação necessária para a atualização das informações sobre o caso disseminados pela imprensa.

Durante esse período, o Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luís Roberto Barroso também se pronunciou sobre o assunto e determinou que a União fosse mais célere nas buscas e que adotasse imediatamente “todas as providências necessárias” para localizar os desaparecidos. A determinação atendeu um pedido da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), que também se mobilizou diante do fato.

Na manhã do domingo, 12, amigos e familiares de Bruno e Dom realizaram atos em defesa dos povos indígenas e pediram mais apoio nas buscas pelo indigenista e o jornalista. As reuniões foram registradas no Pará, Rio de Janeiro e Brasília. Nas redes sociais, o assunto chegou a ser uma dos mais comentados.

Ato por Bruno e Dom, no Rio de Janeiro. (Divulgação)

Outro ato de mobilização foi realizado por indígenas do Vale do Javari na manhã do dia 13 de junho. A iniciativa também contou com a presença de ativistas e amigos de Dom e Bruno, que estavam no município de Atalaia do Norte, localizado no extremo Oeste do Amazonas, para dar apoio às buscas.

Os manifestantes carregavam cartazes com pedidos de justiça e mais segurança. “Vocês não estão só!”, dizia um deles. Enquanto outros carregavam a pergunta que há mais de uma semana está nos assuntos mais comentados nas redes sociais: “Onde estão Bruno e Dom?

Em Londres, manifestantes fizeram vigília pela dupla desaparecida no Amazonas. Com rosa, terços, orações e cartazes, manifestantes se reuniram em frente a Embaixada do Brasil em Londres pedindo que o governo brasileiro reforçasse a procura pelos dois.

Manifestação em Atalaia do Norte (Reprodução)

Denúncias

Enquanto eram realizadas as buscas, a Univaja divulgou documentos que mostram a organização denunciando, em abril deste ano, o aumento intenso de invasões na Terra Indígena Vale do Javari, no interior do Amazonas, região onde ocorreu o episódio. O documento foi endereçado à Frente de Proteção Etnoambiental e à Coordenação Regional do Vale do Javari, da Fundação Nacional do Índio (Funai), e à Força Nacional de Segurança Pública em Tabatinga.

Além dos ofícios datados do mês de abril, outros cinco textos também foram formulados pela União dos Povos Indígenas Vale do Javari (Univaja) e destinados a órgãos como Polícia Federal, Fundação Nacional do Índio (Funai), Força Nacional de Segurança Pública (FNSP) e ao Ministério Público Federal do Amazonas (MPF-AM).

Documento divulgado pela Univaja (Reprodução/ Univaja)

Nos textos, foram relatadas as invasões, o clima de insegurança e ameaça no Vale do Javari, além de solicitarem proteção contra os infratores. No documento com data do dia 6 de maio de 2022, por exemplo, a União dos Povos Indígenas aborda a localização dos infratores dentro e fora das Terras Indígenas Vale do Javari.

Trazemos neste ofício informações atualizadas da equipe de vigilância da Univaja sobre invasores de nosso território”, informa o ofício detalhando nomes, apelidos, embarcações e ponto de atuação dos invasores.

Bruno e Dom

Bruno Araújo Pereira era conhecido por ser engajado em pautas das causas indígenas. Como servidor da Fundação Nacional do Índio (Funai) o especialista foi coordenador regional da Funai de Atalaia do Norte e coordenador-geral de Índios Isolados e de recém-contatados da (Funai), período em que esteve à frente de uma das maiores expedições de contato com índios isolados dos últimos 20 anos.

O trabalho de Bruno em defesa dos povos indígenas rendeu também momentos de conflitos. Em 2016, por exemplo, o profissional deixou o cargo de coordenador da Funai por conta de ataque na qual chegou a ser levado para fora da sede do órgão por manifestantes armados. A vítima também sofria pressão e ameaças de garimpeiros, madeireiros e até mesmo integrantes do setor rural.

Nascido em Merseyside próximo da cidade de Liverpool, o jornalista inglês Dominic Phillips mudou para o Brasil em 2007. Dedicado às causas ambientais e admirador da Amazônia, Dom cobria pautas sobre o tema para jornais conhecidos mundialmente, como The Guardian e The New York Times. Atualmente, estava se dedicando ao livro sobre a Floresta Amazônica e as invasões de terras indígenas. Amazônia, sua linda foi a última frase que o jornalista inglês escreveu em suas redes sociais.

Esta era a segunda vez que a dupla viajava pela região isolada da Amazônia. Em 2018, Phillips e Bruno fizeram o mesmo percurso. A área onde ocorreu o fato, no Vale do Javari, e de densa complexidade onde vivem 26 povos indígenas, alguns isolados. A área fica próximo à fronteira com o Peru e as associações relatam a possibilidade de ligação entre agentes criminosos que atuam no tráfico internacional de drogas.

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