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19 de novembro de 2021
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Com informações do UOL

“Olha isso aqui, que coisa fina. Ainda tenho que usar dois pacotes por mês, porque minha menstruação é muito forte e esse aqui não segura. Aí você coloca R$ 5,50 cada um — e do mais barato. Quanto dá?”, pede para calcular a vendedora Fernanda de Oliveira Silva, 35 anos, segurando um pacote de absorvente. “Melhor comprar algodão, que custa R$ 3 o pacote, segura mais e gasto um só”.

Essa não é a única conta que a moradora da Favela do Muquiço, em Guadalupe, zona norte do Rio de Janeiro, faz no mês. Mãe de uma menina de 4 anos, ela e o companheiro vendem doces pelos sinais de trânsito para levar até R$ 300 por mês para a casa de cozinha, banheiro e um quarto, onde mal cabem três adultos.

Para ter o que comer com esse valor, ela precisa escolher entre um quilo de feijão e um pacote de absorvente, que chegam a custar o mesmo valor. Quando não recebe doação de cesta básica da Cufa (Central Única das Favelas), o jeito é conter a menstruação com um pedaço de lençol, algodão enrolado ou papel higiênico.

“Mas esse improviso é o normal entre as mulheres de comunidade, tá? E nem rola de uma emprestar para a outra o absorvente porque não tem mesmo. Imagine se ele viesse na cesta básica”, sonha ela.

Por enquanto, ficará na imaginação mesmo, já que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) vetou, no último dia 7, trecho do projeto de lei que prevê a distribuição de absorventes íntimos na rede de ensino, em presídios e a grupos de pessoas que menstruam no Brasil em situação de vulnerabilidade social.

Na avaliação do mandatário, a proposta, da deputada federal Marília Arraes (PT-PE), “contraria o interesse público, uma vez que não há compatibilidade com a autonomia das redes e estabelecimentos de ensino”. Além disso, Bolsonaro afirma que o projeto “não indica a fonte de custeio ou medida compensatória”. Também fica de fora a medida que incluía absorventes femininos nas cestas básicas distribuídas pelo Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional.

A decisão provocou críticas de toda parte e, com popularidade em baixa, o governo federal anunciou que “trabalhará para viabilizar a aplicação da medida”.

Enquanto isso, no Rio de Janeiro, onde Fernanda mora, o prefeito Eduardo Paes (PSD) lançou o Livres para Estudar, programa que vai distribuir 8 milhões de absorventes por ano para estudantes da rede municipal a partir do próximo dia 18. Em julho do ano passado, o então governador Wilson Witzel (PSC) sancionou o projeto de lei que inclui absorventes, fraldas infantis e geriátricas como itens da cesta básica no estado.

O Rio de Janeiro tem a quarta cesta básica mais cara em 17 capitais, segundo pesquisa do DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos): custa, em média, R$ 612,56.

“Tive infecção e sentia muitas dores ao usar pano” Além de afastar as pessoas de seus empregos e escolas, a pobreza menstrual afeta diretamente a saúde delas, uma vez que esses improvisos — como usar pano e até miolo de pão — podem infeccionar a vagina.

Presa por tráfico em 2019, Fernanda passou um mês e meio no presídio feminino de Benfica, na zona norte, e, sem receber absorvente o suficiente, improvisou com o único cobertor dado para as presas, daqueles comumente distribuídos a pessoas em situação de rua.

“Ganhamos um kit de higiene na chegada ao presídio, mas era pouco absorvente para o mês. Então eu cortava pedaço do cobertor para segurar, lavava com o mesmo sabonete que usava no banho e também para lavar a roupa. Vestia no dia seguinte, ainda úmido. Tive infecção e sentia muitas dores fazendo isso” relembra Fernanda.

“É desesperador passar por uma situação como essa. Você se sente excluída”.

Coordenadora do Programa Estadual de Saúde do Adolescente e chefe do Ambulatório de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital das Clínicas de São Paulo, Albertina Duarte Takiuti lembra que um absorvente íntimo ficar dentro da vagina por mais de 4 horas pode dar a síndrome do choque tóxico e usar um material em que saia fragmentos como algodão e papel higiênico pode provocar alteração da temperatura vaginal e uma possível infecção.

“Se essas infecções atingirem o colo do útero e as trompas, elas podem causar infertilidade”, explica Albertina.

Conhecendo a realidade de milhares de pessoas em acessar o absorvente, a especialista aponta que o método mais seguro é aquele usado por nossas avós: as toalhinhas higiênicas. Mas essas, orienta a especialista, não devem ser introduzidas na vagina, precisam ser muito bem lavadas e, de preferência, passadas para que não haja nenhuma bactéria.

“Tem sorte quem fica menstruada primeiro”.

Mãe de quatro mulheres, com idades entre 5 e 20 anos, a diarista Andreia dos Santos Patrocínio, 46 anos, chega a achar graça da espécie de competição que tem na casa dela junto às três mais velhas. A moradora de Magé, na Baixada Fluminense, consegue comprar dois pacotes de absorvente para durar o mês inteiro:

“Quem ficar menstruada primeiro, vai usar. Quem ficar por último, vai ter que improvisar com pano. E aí elas nem vão para a escola assim”, conta Andreia.

Segundo a ONU, no mundo, uma em cada dez meninas falta às aulas durante o período menstrual. No Brasil, uma entre quatro estudantes já deixou de ir à escola por falta de absorventes. Mãe de três crianças, de 7, 6 e 2 anos, a carioca Luciene Paz, 29, conversou com Universa deitada. É assim que ela passa a maior parte do tempo quando está menstruada. Desempregada, ela não está conseguindo nem comprar fralda para o filho mais novo.

“Estou ficando mais deitada para descer menos. Os panos estou usando no menino. Em mim, vai papel mesmo”, ela descreve. “Dá aquela raiva, e fico perguntando o porquê dessa situação”.

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