Líder da banda Pussy Riot foge da Rússia disfarçada de entregador por medo de repressão

Com informações da Folha de S.Paulo

RÚSSIA – Maria ​Aliokhina chamou a atenção das autoridades russas —e do mundo— pela primeira vez quando sua banda punk e grupo de arte performática Pussy Riot organizou um protesto contra o presidente Vladimir Putin na catedral Cristo Salvador, em Moscou, em 2012.

Por esse ato de rebeldia, foi condenada a dois anos de prisão por “vandalismo”. Ela continuou determinada a lutar contra o sistema repressivo de Putin, mesmo depois de ser presa mais seis vezes, cada uma por 15 dias, sempre sob acusações forjadas com o objetivo de sufocar seu ativismo político.

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Mas em abril, quando Putin reprimiu com mais força qualquer crítica à Guerra da Ucrânia, as autoridades anunciaram que sua prisão domiciliar efetiva seria convertida em 21 dias numa colônia penal. Ela decidiu que era hora de deixar a Rússia —pelo menos temporariamente— e se disfarçou de entregador de comida para fugir dos policiais que vigiavam o apartamento de um amigo onde estava hospedada, em Moscou. Ela deixou seu celular para trás como isca e para evitar ser rastreada.

Maria Aliokhina, ao centro, da banda Pussy Riot, ao lado da namorada, Lucy Shtein, e do artista islandês Ragnar Kjartansson no estúdio deste último – Misha Friedman – 5.mai.22/The New York Times

Um amigo a levou de carro até a fronteira com a Belarus, e ela demorou uma semana para chegar à Lituânia. Em um estúdio em Vilnius, Aliokhina concordou em dar uma entrevista para descrever a fuga angustiante de uma dissidente da Rússia de Putin.

“Fiquei feliz por ter conseguido, porque foi uma despedida imprevisível e forte” para as autoridades de Moscou, diz ela, usando um termo menos educado. Vestida de preto, exceto por uma pochete com um cinto de arco-íris, completa: “Ainda não entendo completamente o que fiz”.

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Aliokhina, 33, passou toda a vida adulta lutando para que a Rússia respeitasse a própria Constituição e os direitos humanos mais básicos, como a liberdade de expressão. Depois de ser libertada mais cedo da prisão em dezembro de 2013, ela e outro membro da Pussy Riot fundaram a Mediazona, agência de notícias independente focada em crime e punição no país.

Ela também escreveu um livro de memórias, “Riot Days” (dias de rebelião), e viajou internacionalmente com um show baseado no livro. Embora seu sonho fosse fazer uma turnê pela Rússia, apenas três locais concordaram em apresentar o show —e todos enfrentaram represálias.

Aliokhina estava decidida a permanecer no país, apesar da vigilância e da pressão constantes das autoridades. Mas agora ela se juntou às dezenas de milhares de russos que fugiram desde a invasão da Ucrânia.

A ativista, chamada pelos amigos de Masha, tinha roído as unhas inteiras e dava baforadas quase sem parar em um cigarro eletrônico do tipo “vape” ou em Marlboro Lights. Ela fez a viagem com botas pretas de plataforma de 7 centímetros, sem cadarços —referência a suas muitas passagens pela prisão, onde o item é confiscado. Os presos enfiam lenços umedecidos nos ilhós dos sapatos para mantê-los no lugar. Como manifesto, ela e outros membros da Pussy Riot vão usá-los nas apresentações durante uma turnê que começa nesta quinta-feira, 12, em Berlim, para arrecadar dinheiro para a Ucrânia.

Quando começou, há mais de uma década, a Pussy Riot parecia tanto um golpe publicitário quanto ativismo político. Mas se o protesto na catedral de Moscou —onde elas cantaram a “Oração Punk” ridicularizando a simbiose que se desenvolveu entre a Igreja Ortodoxa Russa e o Kremlin— pareceu exagerado na época, hoje soa premonitório.

O líder da igreja, patriarca Cirilo, recentemente abençoou as tropas russas que vão para a Ucrânia, e a União Europeia colocou seu nome em uma lista de pessoas que devem receber sanções.

Exatamente dez anos depois do protesto na catedral, Putin fez um discurso exaltado no qual chamou a Ucrânia de país “criado pela Rússia”, lançando as bases para sua invasão. Aliokhina ouviu a fala no rádio de uma cela na prisão. A invasão, afirma, mudou tudo, não apenas para ela, mas para seu país. “Acho que a Rússia não tem mais o direito de existir”, diz. “Mesmo antes, havia dúvidas sobre como ela é unida, por quais valores está unida e para onde está indo. Mas agora eu não acho mais que isso seja uma pergunta.”

Durante a entrevista, ela é cercada por outros membros do grupo, hoje um coletivo com cerca de uma dúzia de integrantes. A maioria também havia fugido recentemente da Rússia —incluindo sua namorada, Lucy Shtein, que deixara o país um mês antes, também fugindo das restrições a seus movimentos e também disfarçada com uniforme de entregador. Sua decisão veio depois que alguém colocou uma placa na porta do apartamento onde ela morava com Aliokhina acusando-as de traidoras.

Fotos sem data cedidas por Maria Aliokhina ao New York Times mostram a cantora (à esq.) e a namorada, Lucy Shtein, provando roupas de entregadores para preparar fuga da Rússia – The New York Times

As duas já foram presas por postagens no Instagram pedindo a libertação de presos políticos na Rússia. Em fevereiro, Aliokhina foi condenada a 15 dias de prisão por “propaganda de simbolismo nazista” por outro post, este de 2015, que criticava o ditador belarusso Aleksandr Lukachenko, aliado de Putin. Shtein foi detida ao mesmo tempo por acusações semelhantes.

“Eles estão com medo porque não podem nos controlar”, diz Aliokhina. Quando chegou à fronteira da Belarus com a Lituânia, ela possuía um visto lituano que tentou usar com a identidade russa, pois Moscou havia confiscado seu passaporte. A essa altura, já tinha sido colocada na lista de procurados.

Na primeira tentativa de travessia, ela foi detida por guardas de fronteira belarussos por seis horas antes de ser enviada de volta. Na segunda, o oficial de plantão, incrédulo, simplesmente a mandou embora. Mas na terceira ela conseguiu.

Aliokhina tinha aliados fora do país trabalhando para encontrar um caminho para a liberdade. Um deles foi o artista performático islandês Ragnar Kjartansson, que persuadiu um país europeu a emitir um documento de viagem para a russa que essencialmente lhe dava o mesmo status que uma cidadã da UE —as autoridades do país pediram que ele não fosse nomeado.

O documento foi contrabandeado para a Belarus. Enquanto estava lá, ela evitou hotéis ou qualquer lugar onde precisasse mostrar um documento de identidade. Depois finalmente embarcou num ônibus para a Lituânia. Ela ri quando contou que foi mais bem tratada pelos guardas de fronteira quando eles pensaram nela como uma “europeia”, em vez de russa.

“Muita mágica aconteceu na semana passada”, diz. “Parece uma novela de espionagem.” O fato de ter conseguido sair da Rússia e da Belarus foi um reflexo, segundo ela, da caótica aplicação da lei russa. “Daqui parece um grande demônio, mas é muito desorganizado se você olhar por dentro. A mão direita não sabe o que a esquerda está fazendo.”

Aliokhina conta que espera retornar à Rússia. Mas ninguém tem ideia de como isso pode acontecer, já que até os ativistas mais dedicados são presos ou forçados ao exílio.

Em Vilnius, seu telefone tocou com mensagens de apoio e alívio por ela estar em segurança depois de uma semana de viagem. Ela se irrita com essas expressões bem-intencionadas que, segundo ela, são enganosas. “Se seu coração é livre, não importa onde você está.”

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