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17 de novembro de 2021
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Iury Lima – Da Cenarium

VILHENA (RO) – Em entrevista à CENARIUM, nessa quarta-feira, 6, o líder indígena do povo Yanomami, Dário Kopenawa, denunciou que afluentes da Terra Indígena (TI) em que habitam, entre os Estados de Roraima e Amazonas, já estão contaminados pelo mercúrio utilizado por garimpeiros na mineração de ouro. Kopenawa também afirmou que o rejeito tóxico tem causado deformidades e doenças em mulheres e crianças. 

“As crianças estão saindo com malformações. Mulheres e crianças já estão com sintomas de coceira e também apresentam dor de barriga, diarreia e infecção urinária, porque a gente tá tomando água suja. Não é só a água, todo o território Yanomami está poluído”, advertiu a liderança, que também é vice-presidente da Hutukara Associação Yanomami.

O líder indígena Dário Kopenawa, do povo Yanomami, em entrevista à CENARIUM (Iury Lima/CENARIUM)

Cobrança antiga

Foi por meio de uma rede social que, mais uma vez, os Yanomami recorreram ao governo federal para cobrar providências e a retirada de garimpeiros do território. O mais recente apelo foi feito por Dário Kopenawa, na terça-feira, 5. Ele publicou uma foto de crianças tomando banho em um rio com água contaminada por mercúrio, numa região da TI conhecida como Xitei.

Na publicação, a liderança marca o presidente da República, Jair Bolsonaro (Sem partido), o vice, general Hamilton Mourão, e a Câmara dos Deputados.

“Crianças tomam banho, realmente, na água suja, porque o rio é cheio de mercúrio e tem muitos garimpeiros, mais de 20 mil garimpeiros na Terra Indígena Yanomami. Elas não sabem o que é mercúrio, elas tomam banho na ‘bobeira’ e estão correndo muito risco”, alertou Kopenawa, que quis promover uma reflexão sobre o problema enfrentado nas aldeias com a invasão e o desrespeito à natureza.

“A gente já denunciou há muitos anos: 2018, 2019, 2020, 2021 (…) E as autoridades competentes já têm conhecimento, como o Ministério Público Federal, Polícia Federal, o Exército Brasileiro, Funai, os parlamentares de Brasília, além do próprio Ministério da Justiça, a Procuradoria Geral da República e até a Presidência da República já têm conhecimento”, contou, indignado com a falta de atuação efetiva.

Contaminação

O líder indígena ainda elencou todos os afluentes que estão em situação crítica, afetando o consumo e a vida cotidiana nas comunidades: Rio Uraricoera; Rio Mucajaí; Rio Apiaú; e Rio Catrimani. “São esses principais rios que nós utilizamos para beber água e que estão cheios de poluição por mercúrio e uso de garimpo ilegal na terra Yanomami”, lamentou. 

“Isso já está acontecendo porque, na década de 1980, em 1986, eles [os garimpeiros] usaram essa química de mercúrio. Fizemos exames de laboratórios, pesquisas das águas e já entregamos esse documento para as autoridades brasileiras, com resultados. No ano passado, entregamos na relatoria da ONU, para a Presidência do Brasil e para a Procuradoria da República (…) Então, tá crescendo muito isso”, afirmou o vice-presidente da Hutukara. 

Perigo à espreita de índios isolados

De acordo com o líder e ativista pelos direitos de populações tradicionais, o garimpo ilegal já avançou por cerca de 10 quilômetros adentro do perímetro ocupado por índios isolados na Terra Yanomami, o povo Moxihatetea.

“Os índios isolados na terra Yanomami estão correndo sério problema. Isso no contexto jurídico da Funai é uma prioridade. Com índios isolados ninguém mexe, porque para isso tem lei”, alertou Dário Kopenawa.

O povo Moxihatetea (Gnipper/FPEYY/Funai/ Reprodução)

Segundo ele, nos últimos meses, os garimpeiros invadiram também as roças de produção de alimentos dos indígenas Moxihatetea. “Os garimpeiros não querem saber quem são os isolados e quem são Yanomami, eles querem invadir tudo, levar doenças como coronavírus, malária (…) as crianças estão morrendo de malária porque os garimpeiros estão levando isso para o Terra Yanomami”, disse. 

“Se os garimpeiros matarem nossos isolados ou se eles tomarem água com mercúrio, quem vai se responsabilizar? Será que o governo federal vai salvar a vida dos Moxihatetea?”, indagou com preocupação.

Vista grossa das autoridades

Dário Kopenawa ainda não recebeu nenhuma resposta à altura da última cobrança realizada na internet, mesmo relacionando a postagem às autoridades federais, o que, para ele, não passa de mais um ato omisso. “Você sabe, né, as autoridades não vão responder imediatamente para resolver amanhã (…) eu estou cutucando eles, porque, para o presidente da República, é obrigação e dever retirar imediatamente os garimpeiros”, afirmou a liderança.

Kopenawa também aproveitou para criticar as ações já realizadas por meio da Polícia Federal e Exército Brasileiro dentro do território que, de fato, deveria ser protegido. Para o representante indígena, nenhuma das operações, até o momento, surtiu efeito. 

“Aquelas ações regionais, locais, são só para espantar e isso não vai resolver. Queremos que o governo federal elimine o garimpo ilegal imediatamente, porque tem o recurso, tem o dinheiro, tem a obrigação que é do Estado brasileiro. Não é um favor, é um dever, porque é um território da União”, cobrou.  

“Ouçam essa minha mensagem porque os isolados estão correndo risco. O papel da Funai é de prioridade em proteger os indígenas isolados. As crianças estão vulneráveis, as mulheres estão vulneráveis, nós estamos vulneráveis, o território está vulnerável”, concluiu Dário Kopenawa.

Resposta da Funai

Procurada pela reportagem da CENARIUM, a Fundação Nacional do Índio (Funai) disse, por meio de nota, que monitora os índios isolados da Terra Indígena Yanomami.

“A Funai esclarece que, por meio da Frente de Proteção Etnoambiental Yanomami Yekuana, tem realizado o monitoramento ininterrupto do grupo isolado da Serra da Estrutura (Moxihäteteä Thepe). As medidas de monitoramento vêm sendo acompanhadas pela ação civil pública impetrada pelo Ministério Público Federal (MPF-RR) no âmbito da reativação das Bases de Proteção Etnoambiental (Bapes) da Funai”, diz o texto.

A Fundação disse, ainda, que as informações relativas a denúncias de ilícitos, tais como a contaminação de mercúrio decorrente da atividade de garimpo em áreas indígenas, são de atribuição da Polícia Federal e, portanto, somente poderão ser prestadas pelo órgão policial.