Livro sobre Paul Le Cointe destaca integração da Amazônia ao capitalismo mundial

Composição mostra Paul Le Cointe ao lado de livro lançado em Belém (Composição de Weslley Santos/CENARIUM)
Raisa de Araújo – Da Cenarium

BELÉM (PA) – Um livro que promete enriquecer os estudos sobre a Amazônia, “Viagem Circular de Paul Le Cointe” foi lançado nesta semana em Belém, no Pará. O naturalista francês ficou conhecido pela extensa produção sobre a Amazônia e o pioneirismo em estudos fitoquímicos, além de testemunhar e escrever sobre o processo colonial que integrou a Amazônia ao capitalismo mundial por meio da exploração da borracha. 

A obra apresenta o diário da viagem de Le Cointe ao rio Madidi, na Bolívia, oferecendo um panorama detalhado da produção de borracha na região dos rios Madidi, Beni, Madre de Dios, Mamoré e Madeira. Além do diário, a obra inclui um estudo biográfico do autor, uma análise histórica do diário e um ensaio sobre sua obra. A publicação é fruto de uma cooperação franco-brasileira envolvendo os historiadores Nelson Sanjad e Patrick Petitjean, além da antropóloga Emilie Stoll.

Nelson Sanjad, historiador e pesquisador do museu Emílio Goeldi, comentou sobre o olhar colonial de Le Cointe, sua implicância com os trabalhadores, seu mau humor e seu machismo, destacando que esse comportamento é algo típico de um europeu imperialista no início do século.

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O naturalista francês Paul Le Cointe (Divulgação)

“Ele personifica um olhar colonial sobre a Amazônia, bastante comum na época, mas que é raro ser registrado em diários. […] Mas mesmo com esse olhar conseguimos conhecer muito da vida em todos os lugares por onde ele passou, pois descrevia minuciosamente as estradas, os barcos, as cidades e seus habitantes”, explicou o pesquisador. 

Paul Le Cointe chegou à Amazônia em 1891 para explorar a Guiana e o Amapá, mas o projeto que ele fazia parte foi cancelado pelo governo francês. Ele se fixou em Óbidos, no Pará, trabalhou como agrimensor e cônsul, e foi contratado para gerenciar um seringal na Bolívia, no rio Madidi. 

Nelson Sanjad explica que Le Cointe descreve essa viagem no diário fazendo uma radiografia impressionante da produção da borracha no eixo formado pelos rios Madidi-Beni-Madre de Dios-Madeira, descrevendo a infraestrutura, contingente humano, produção econômica, transporte, urbanização e saúde, além de ser uma crônica social sarcástica e, às vezes, racista. Sanjad ressalta a importância de contextualizar o diário, por isso foi reeditado. 

Página do diário da viagem de Paul Le Cointe (Divulgação)

“Ele chega a contabilizar todos os barcos que vê, assim como descreve em detalhes as cachoeiras, comenta sobre cada seringal e faz relatos surpreendentes sobre o esforço da população local em transportar as bolas de borracha para Manaus e Belém. Conta, por exemplo, que em alguns trechos do rio os seringueiros amarravam as bolas umas nas outras, jogavam na água e puxavam a corda enquanto nadavam – usando os dentes!”, comenta. 

Apesar de já ter obras conhecidas, como sobre o cultivo de cacau e borracha, o diário pessoal ainda é inédito. Le Cointe foi pioneiro nos estudos fitoquímicos de espécies amazônicas e influenciou químicos brasileiros, elaborando o primeiro projeto da SPVEA.

A parceria começou após a entrega dos originais do diário ao Museu Paraense Emílio Goeldi pelo jornalista Lúcio Flávio Pinto, herdeiro do documento da química Clara Pandolfo, ex-chefe da Sudam, uma amiga de muitos anos e amiga de longa data do jornalista, que foi quem prefaciou o livro. 

O livro 

“A viagem circular de Paul Le Cointe” é um livro de capa dura com 484 páginas  e o mapa encartado ilustrando o trajeto da viagem. Está disponível gratuitamente no formato de e-book no portal do Museu Goeldi, e a verão imprensa do livro, estará disponível a partir de agosto na Biblioteca Domingos Soares Ferreira Penna, no Campus de Pesquisa do Museu Goeldi, e na Travessia Livraria, na Alcindo Cacela, por R$190,00.

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Editado por Adrisa De Góes
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