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22 de outubro de 2021
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Bruno Pacheco – Da Revista Cenarium

MANAUS – Em meio ao crescimento acelerado da pandemia da Covid-19, o despejo inadequado de lixo em igarapés pode sofrer redução, aliado a baixa no número de pessoas nas ruas da capital. A informação é do ambientalista José Antônio Coutinho à REVISTA CENARIUM.

“Da mesma forma como as emissões de poluentes atmosféricos produzidos pelos veículos diminuíram devido ao baixo fluxo na cidade, a quantidade de lixo poderá ocorrer da mesma maneira; menos fluxo de pessoas transitando e baixo consumo, portanto, até o serviço público poderá ter uma diminuição na coleta diária dos resíduos”, destacou.

Para o especialista, existem fatores que podem ser considerados para o descarte inadequado do lixo em igarapés de Manaus. Tais contribuições, segundo Coutinho, podem vir de ações incorretas de pessoas que não são responsabilizadas por infringir leis ambientais e que insistem em jogar o lixo inadequadamente.

O ambientalista menciona também a ausência da prática de coleta seletiva municipal para evitar que o lixo seja misturado com os materiais que vão para aterro sanitário, além da ausência de aplicação de logística reversa que, para ele, é uma obrigação, principalmente dos fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes de determinados tipos de produtos”, diz.

Os produtos, conforme Coutinho, acabam indo parar nos igarapés, causando impactos significativos como: alteração na qualidade da água, poluição com metais pesados, contaminação da vegetação, impossibilita as espécies aquáticas de viveram, prejuízos à saúde da população que utiliza a água para consumo e até a própria área para lazer.

“Mara & Feachem (1999) propõem uma classificação ambiental unitária das infecções relacionadas com a água e com os escretos, agrupadas em sete categorias: i. Doenças do tipo feco-oral (transmissão hídrica ou relacionada com a higiene); ii. Doenças do tipo não feco-oral (relacionadas com a higiene, doenças infecciosas da pele e dos olhos); iii. Helmintíase do solo; iv. Teníase; v. Doenças baseadas na água; vi. Doenças transmitidas por inseto vetor (infecções transmitidas por baratas e moscas relacionadas com excretas); vii. Doenças relacionadas com vetores roedores”, detalha Coutinho.

Prejuízos

A comerciante Paula Carvalho, que foi moradora por 16 anos do bairro São Jorge, zona Oeste, conta que é frequente o desrespeito praticado aos igarapés do local. Para ela, a população precisa compreender os prejuízos causados ao meio ambiente quando o lixo é descartado incorretamente nas ruas.

“Por mais que existam alertas de especialistas sobre os prejuízos causados pelo descarte de lixo, e servidores da prefeitura atuando na coleta de resíduos, se a população não entender o que ela causa quando joga o lixo na rua, não haverá mudança. É preciso ter mais consciência e respeito”, disse.

Ao longo do período em que morou no bairro, Paula descreve que, entre o lixo encontrado nos igarapés do local, estão sofás, pneus e até eletrodomésticos. “Um descaso total e preocupante. Um sofá não iria parar lá sozinho, alguém o jogou no igarapé. Ou seja, uma falta de consciência com o meio ambiente e com a vida das pessoas”, elencou.

Assim como os resíduos despejados no bairro São Jorge, como explica Coutinho, outros igarapés (Mindú, Educandos, Quarenta, São Raimundo, Passarinho) têm sofrido em decorrência da expansão da cidade.

Igarapé da Bacia do Quarenta (Foto: José Coutinho/Ambientalista)
Igarapé da Bacia do Quarenta (Foto: José Coutinho/Ambientalista)

“Sem planejamento adequado, ocupação irregular nas margens dos igarapés. Sem infraestrutura de saneamento adequado, o lançamento contínuo de esgoto e lixo nos igarapés, têm causado sérios impactos nos recursos hídricos, com o aumento dos problemas de saúde pública relacionados às doenças de transmissão hídrica”, comenta o especialista.

Assoreamento

Em virtude dos impactos causados pela população, em Manaus, muitos igarapés têm sofrido drásticas consequências. De acordo com o ambientalista, que visitou igarapés da cidade no último dia 29 de abril, para estudo sobre a qualidade do meio, é possível perceber que eles estão bastante assoreados (acúmulo de sedimentos: areia, entulho e lixo, por exemplo).

“Mesmo com as ações de limpeza do órgão municipal, em coletar os lixos e manter a vegetação, ainda é perceptível a aparência de que (eles) têm sobrevivido aos impactos causados pela população. No igarapé da bacia do 40, podemos perceber que estava limpo na superfície, mas com bastante assoreamento e lançamento de dejetos dos esgotos. No igarapé da Mindú, só muda a estrutura física, mas os problemas não são diferentes. Estava limpo na superfície, mas com bastante assoreamento e lançamento de dejetos dos esgotos”, explicou.

Apesar da aparência dos igarapés serem boas, detalha o especialista, as consequências dos problemas do lixo transparecem com o forte odor. O contato ou consumo pode acarretar em prejuízos à saúde.

“Esses dejetos entram no processo de decomposição e dependendo das condições ambientais, como o sol forte, o odor pode piorar”, finaliza.

A REVISTA CENARIUM entrou em contato com a Secretaria Municipal de Limpeza e Serviços Públicos (Semulsp), da Prefeitura de Manaus, mas não obteve retorno até a publicação desta matéria.