Lula nega pedido da Alemanha e veta envio de munição do Brasil para Ucrânia

Lula disse não, argumentando que não valia a pena provocar os russos. O Brasil, apesar de ter condenado, na ONU, a invasão iniciada em 24 de fevereiro de 2022, mantém uma posição de neutralidade por motivos econômicos (Gleb Garanich/21.7.22/Reuters)
Da Revista Cenarium*

SÃO PAULO – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) negou um pedido do governo da Alemanha para que o Brasil fornecesse munição de tanques que seria repassada por Berlim à Ucrânia em guerra com a Rússia.

A decisão ocorreu no último dia 20, na reunião do petista com os chefes das Forças Armadas e o ministro da Defesa, José Múcio. Foi a véspera da demissão do comandante do Exército, Júlio César de Arruda.

O general levou a proposta para discussão, mostrando que o esforço do premiê Olaf Scholz para montar um pacote de ajuda na área de blindados pesados a Kiev é mais amplo do que vem sendo divulgado.

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Após semanas de pressão dos EUA e de aliados ocidentais, Scholz decidiu, nesta semana, enviar um contingente de 14 tanques Leopard-2 e, mais importante, liberou a reexportação dos armamentos para quem quiser doá-los à Ucrânia — 12 países na Europa operam cerca de 2.300 blindados do tipo.

Tanque Leopard-1A5BR do Exército Brasileiro durante exercício no Rio Grande do Sul (Exército Brasileiro/Flickr)

De acordo com militares e políticos com conhecimento do episódio, Arruda afirmou que o Brasil embolsaria cerca de R$ 25 milhões por um lote de munição estocada para seus tanques Leopard-1, o modelo que antecedeu o tanque desejado pelo governo de Volodimir Zelenski. Ele levantou a hipótese de exigir de Berlim que não enviasse o produto para Kiev, o que não faria sentido.

Lula disse não, argumentando que não valia a pena provocar os russos. O Brasil, apesar de ter condenado, na ONU, a invasão iniciada em 24 de fevereiro de 2022, mantém uma posição de neutralidade por motivos econômicos, recusando participar de sanções, contra a Rússia, do presidente Vladimir Putin.

O pedido por munição de Leopard-1 sugere que Berlim está disposta a ofertar o antigo modelo, do qual a fabricante Rheinmetall dispõe de 88 unidades em estoque. Elas precisariam ser preparadas para uso, o que o presidente da empresa diz que pode levar o ano todo, mas o problema principal, hoje, é a munição.

O Leopard-1 só é operado por Brasil (261 unidades, segundo o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, de Londres), Chile (30), Grécia (500) e Turquia (397) — os dois últimos, membros da Otan, aliança militar ocidental, assim como a Alemanha. O tanque tem um canhão com calibre de padrão antigo, de 105 milímetros, enquanto o Leopard-2 usa munição de 120 milímetros.

Não foi a primeira tratativa do gênero. No ano passado, a Alemanha sondou, extraoficialmente, o governo para comprar munição do blindado com canhões antiaéreos Gepard, que tirou da aposentadoria para enviar à Ucrânia, sem sucesso. O Brasil ainda opera o modelo.

A Folha procurou o Itamaraty, o Ministério da Defesa e o Exército, operador das munições, para comentar e especificar a natureza do pedido: se foi oficial ou uma sondagem. A defesa disse não ter recebido pedido de autorização de exportação, o que passa primeiro pelas Relações Exteriores — que, como o Exército, ainda não respondeu. O detalhamento apresentado por Arruda, na reunião, sugere que o assunto teve andamento.

O Brasil não está sozinho na sua negativa. Os EUA pediram ao novo governo colombiano de Gustavo Petro para que o País cedesse antigos helicópteros soviéticos Mi-8 e Mi-17 para Kiev, que opera esses modelos.

Levaram um não, relatou Petro nesta semana, assim como o aliado americano Israel negou a liberação de um lote de mísseis antiaéreos Hawk. Tel Aviv deu a desculpa de que o material é velho e inconfiável, mas pesou o fato de o governo ter relação próxima, embora nem sempre amigável, com Moscou.

(*) Com informações da Folhapress
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