20 de outubro de 2020

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Bruno Pacheco – Da Revista Cenarium

MANAUS – Mestra popular e sacerdotisa do Tambor Mina no Amazonas, Maria Emília Souza Borges ou Mãe Emília como era popularmente conhecida, morreu nesta sexta-feira, 25, por complicações cardíacas. A morte foi comunicada pela filha Lucimeiry Borges, por meio das redes sociais.

Mãe Emília foi fundadora e presidente da Federação de Umbanda e Culto Afro-brasileiros do Estado do Amazonas (Fucabeam), além de ativista dos direitos afrodescendentes, sendo de extrema importância e relevância para o Movimento Negro, ao povo umbandista e comunidades tradicionais de terreiros africanos no Estado.

Segundo a filha, a anciã foi internada em uma unidade hospitalar na manhã de segunda-feira, 21, em Manaus, com fortes dores no peito e na manhã de hoje, 25, foi vítima de infarto agudo.

“Durante sua permanência (no hospital), foi muito bem cuidada e bem tratada, de modo que agradecemos a todos os profissionais de saúde que a assistiram. O funeral ocorrerá em seu barracão, conforme a cultura e ancestralidade de nossa nação”, disse Luciemeiry, ao agradecer pelas orações, palavras de carinho e apoio.

Representatividade

Para o coordenador-geral da Articulação Amazônica dos Povos e Comunidades Tradicionais de Terreiro de Matriz Africana (Aratrama), Pai de Santo Alberto Jorge, a morte da anciã representa uma grande perda da identidade étnica da religião.

Segundo ele, Mãe Emília vai deixar uma grande lacuna na sociedade, pois participou da Tambor de Mina, a primeira manifestação de sacralidade afrodescendente e de resistência no Amazonas, iniciada em 1892.

“Mãe Emília foi uma sacerdotisa do Tambor de Mina Gegê Nagô, de uma importância muito grande para nossa cultura. Fez sua casa dentro da sua tradição, […] no mato. Construiu seu terreiro na Cidade Nova (Zona Norte de Manaus), em um momento em que ainda estava se iniciando o movimento no Estado”, lamentou Alberto Jorge.

Ele continua que a umbandista foi um exemplo de vida, pois ela manifestou sua crença e se manteve firme, criando seus filhos dentro da cultura do axé, morrendo dentro de sua sacralidade.

“É uma perda muito grande e uma tristeza muito grande. Fomos iniciados na mesma casa, na década de 1980, somos descente do terreiro do Egito, que foi fundado em 1860, em são Luís do Maranhão”, relatou.

Sobre a fundação da Federação Umbandista, o Pai de Santo destacou que foi um marco histórico para manter a tradição e a sacralidade no Amazonas. “Do ponto de vista institucional, é um marco histórico porque é um colegiado que agrega vários seguimentos da umbanda e candomblé, uma forma de resistência da afrosacralidade”, finalizou.

Nota de Pesar

O Instituto Ganga Zumba, uma Organização Sem Fins Lucrativos, que atua no combate ao racismo e promove políticas públicas voltadas para a cultura afrodescendente emitiu nota de pesar sobre a morte de Mãe Emília.

“Hoje, 25/09/2020, Olorum recebe de braços abertos a Nochê Hunjaí Emília. Nochê Emília nunca deixou seus filhos de lado e movia céus e terras para garantir o melhor deste mundo a elas/eles. Para as filhas e aos filhos, fica o legado de uma grande mulher, liderança política e sacerdotisa”, diz trecho da nota.

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