Participe do nosso grupo no Whatsapp Participe do nosso grupo no Telegram
23 de janeiro de 2022
Ainda não é assinante
Cenarium? Assine já!
ASSINE

Bruno Pacheco – Da Revista Cenarium

MANAUS – Há exatos 137 anos, em 24 de maio de 1884, Manaus abolia completamente a escravatura e tornava livre negros que viviam sob cativo. A data, que antecede em quatro anos ao decreto da Lei Áurea, assinada pela princesa Isabel, de 13 de maio de 1888, tornou-se uma das mais importantes para a história do Amazonas. Historiadores afirmam que escravizar não era mais lucrativo, por isso o movimento ganhou força.

Para a historiadora e especialista no ensino de História e Cultura Africana, Lídia Helena de Oliveira, abolição é resultado de muita luta e resistência do movimento negro, mas o dia 24 de maio precisa ser resgatado e valorizado para que a população entenda a magnitude de sua importância.

“Falar sobre 24 de maio é algo que me emociona muito, porque é falar de um contexto dentro da história que ficou bem conhecido com a Lei Áurea, mas ao mesmo tempo é falar de um produto de luta e resistência. É uma demonstração de resiliência dessa população”, destacou Lída.

Abolição

A capital amazonense foi a segunda a decretar a abolição no Brasil. A então vila de Redenção, atual município Acarape, no Ceará, foi o primeiro a libertar os escravos, em 1º de janeiro de 1883. Entre os Estados, os cearenses também foram os primeiros, com decreto assinado em 25 de março de 1884. Dois meses depois de Manaus, em 10 de julho de 1884, o governador Theodoreto Sout declarava a abolição da escravatura no Amazonas.

Homem sem identificação: foto tirada em Manaus, em 1865

Nesta segunda-feira, 24, uma roda de conversa em Manaus discutiu a abolição da escravatura na capital. O encontro reuniu o gerente de promoção e defesa das populações negras e tradicionais de Manaus, Francicleudo Gabriel, a assistente social e atriz, Regina de Bengueta, o pedagogo Nilton Teixeira e a historiadora Lídia Helena.

De acordo com Lídia, a data não é bem conhecida e que há uma certa invisibilidade com o acontecimento histórico. “Muitos nem sabem que nós temos uma rua no nosso Centro Histórico, que é a rua 24 de maio, que é alusivo a essa data, ao processo emancipatório do nosso município”, salientou.

Segundo Lídia, em meio ao contexto da segunda revolução industrial no século XX, não era mais lucrativo para os escravizadores manter o comércio de escravo. No entanto, para a historiadora, a abolição não foi resultado de uma ação benevolente do homem, mas de um contexto de igualdade.

“Theodoreto Sout era presidente da província e, por coincidência ou não, ele era cearense. No dia 24 de maio, ao meio-dia, num sol devastador, ele foi para a praça de São Sebastião, onde ele simplesmente declarou abolida a escravidão. Alguns estudiosos nos levam a seguinte reflexão: ‘por que na praça de São Sebastião e por diante de um sol causticante?’; e a resposta é a seguinte: de baixo desse sol, devemos pensar que não somos iguais, somos diferentes, mas todos, independente de raça, cor ou etnia, merecemos ser tratados com igualdade”, destaca.

Lídia lembra do estudo da pesquisadora Patrícia Melo Sampaio, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), que diz que o Amazonas era a província com o menor número de homens e mulheres escravizados do Império, com cerca de 979 escravos negros, segundo o segundo o Censo em 1872. A pesquisa faz um comparativo com Mato Grosso, que havia 6,6 mil pessoas escravizadas no mesmo período.

“Ela nos mostrou que a influência, a contribuição e o legado dessa população não pode ser invisibilizado e não pode ter negado. Em termos da influência de status, a presença negra foi muito grande”, frisou.

Para a Regina de Bengueta, apesar do fim da escravização, a luta contra a desigualdade social e contra o preconceito continua. “Os negros ainda vivem isolados à margem, nas comunidades bem carentes, sem nenhum tipo de saneamento básico. Não têm escolaridade, porque não tem políticas públicas voltadas exatamente para esse grupo”, desabafou.