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17 de abril de 2021

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Alessandra Leite – Da Revista Cenarium

MANAUS – O Conselho Municipal de Cultura de Manaus (Concultura) participou, na manhã desta quarta-feira, 7, da III Mesa Temática – Brasil 1922: a Semana de Arte Moderna e seus desdobramentos com o tema “O rei da Vela de Oswald de Andrade como gênese da dramaturgia brasileira contemporânea”, com o professor doutor Maurício Silva, da Universidade Nove de Julho (Uninove), com mediação do presidente do Concultura e doutorando da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), Tenório Telles.

Segundo Tenório, a Semana de Arte Moderna continua repercutindo e inseminando a cultura brasileira, trazendo debates como o qual ele foi hoje o mediador, protagonizados pelos professores Maurício Silva e Flo Menezes, cujas falas deixaram evidente o caráter incontornável desse evento para a compreensão do processo histórico nacional.  “As ideias, as propostas e as obras produzidas pelos artistas modernistas foram fundamentais para a constituição espiritual do nosso País. Estudá-los e compreendê-los pode nos ajudar a encontrar novos caminhos, mais ricos e criativos, para a construção de uma sociedade mais justa e tolerante. O espírito de mudança do movimento modernista é uma referência para o nosso tempo”, destacou o presidente do Concultura.

Com o enfoque na obra do modernista Oswald de Andrade para a dramaturgia, a palestra do professor Maurício Silva chamou a atenção para a importância do escritor neste segmento, embora tenha se notabilizado por suas poesias. “Oswald de Andrade foi um excelente dramaturgo, autor de uma das mais importantes dramaturgias, O Rei da Vela, peça de teatro que funcionou como uma espécie de gênese da dramaturgia brasileira contemporânea, servindo como modelo na década de 30, sendo seminal para que nossa dramaturgia pudesse chegar ao nível de maturidade que tem hoje, inclusive no cenário internacional”, destacou. Silva trouxe apontamentos que passaram pelo percurso histórico do teatro brasileiro, passando pelo teatro colonial.

Escrita em 1933, a peça só foi publicada em 1937, vindo a ser encenada 30 anos depois, em 1967. “Trata-se de uma das mais célebres encenações da dramaturgia brasileira contemporânea, num País periférico e colonizado por Portugal, sendo censurada em 1968 e com as cenas, que resultaram no filme com cenas gravadas da peça, liberadas apenas no ano de 1982”, ressaltou.

O palestrante trouxe à tona, ainda, a luta de classes impregnada na peça de Oswald de Andrade, cujos pilares foram discutidos pela primeira vez em uma dramaturgia mais consistente, madura e consciente. “Passou pela censura do presidente Getúlio Vargas, tratando dessas relações de poder ao fazer uma crítica mordaz e acintosa à sociedade brasileira, desconstruindo a ideia de um Brasil cordial, com a irreverência estética traduzida por personagens críticos e cômicos”, rememorou.

A tensão entre o comunismo e o capitalismo, conforme o professor, mostrando de um lado os burgueses em ascensão e de outro um teatro encenando a greve operária, como foi no caso de “Eles não usam black-tie”, de Gianfrancesco Guarneri, deixava clara a ideologia da luta de classes, a questão social, presentes no grotesco e na irreverência de Oswald de Andrade.

Maurício Silva citou, também, o livro Gota D’água, de autoria de Chico Buarque e Paulo Pontes, cuja obra foi originalmente escrita para os palcos teatrais dos anos 70, e narra a história de Joana, uma lavadeira que mora em um cortiço no Rio de Janeiro, em condições de miséria, mostrando a crítica às condições socioeconômicas e ao sistema capitalista no Brasil, ao tratar do empobrecimento da população e do que se chamava de “capitalismo caboclo”. “Os argumentos da peça escrita por Chico Buarque e Paulo Pontes demonstram o quanto ela foi influenciada pelo Rei da Vela”, pontua o professor.

Em outubro de 2017, após 50 anos, oficina voltou com as encenações de O Rei da Vela, marco do teatro brasileiro (Daniel Teixeira/Estadão)

Na sequência, o também professor Tenório Telles mediou a segunda mesa da programação desta manhã das comemorações do centenário da Semana de Arte Moderna, com palestra do professor Flo Menezes (Unesp) tratando do tema “O pós-modernismo de 22 na música brasileira”.

Crítico do que ele chamou de “nacionalismo na música”, o professor Menezes pontuou um aspecto da Semana de 22 que trouxe, segundo ele, “contradições insuperáveis”. “Nesse aspecto, a minha visão da questão musical que se deu na primeira metade do século XX no Brasil é extremamente crítica. Embora o movimento de 22 tenha agregado um corpus artístico extraordinário, tendo por isso uma força impressionante, ao mesmo tempo, como todo evento com esse potencial de ebulição, trouxe algumas contradições”, enfatizou.

Entre as “incoerências” apontadas por Menezes, há o anseio da modernidade, que deve ser vista como uma ruptura com o passado, com o academicismo e ao mesmo tempo temáticas nacionalistas com um direcionamento contraditório e mais conservador. “Havia um anseio de trazer a vanguarda da Europa, com um diálogo mais universalista e, em contraponto, um conservadorismo que eu vejo claramente na música de Villa Lobos, com toda corrente nacionalista que vai se desprender a partir daí”, pontuou.

Assista aos debates da manhã de hoje:

Manaus foi destaque no evento das comemorações da Semana de Arte Moderna no Brasil.