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26 de janeiro de 2022
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Victória Sales – Da Revista Cenarium

MANAUS – Um tumulto envolvendo deputados apoiadores do Governo Bolsonaro e indígenas, na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal, na última quarta-feira, 24, ficou marcado por falas polêmicas e disseminação de fake news. A audiência pública estava prevista para tratar sobre a situação da maior Terra Indígena (TI) do Brasil, conhecida como Yanomami, localizada em Roraima.

De acordo com a líder indígena Alice Pataxó, durante a audiência, o ministro confrontou os representantes indígenas com informações falsas. “Na audiência pública para falar sobre a situação do Território Yanomami o, então, ministro da Justiça confrontou os representantes indígenas, mentindo e despejando falsas informações, o que resultou em muita gritaria dentro da plenária”, relatou.

Um vídeo, compartilhado pela indígena Ariene Susui, mostra a revolta de outras lideranças, durante a audiência, frente às informações erradas divulgadas pelo ministro e por deputados que estavam presentes. Em um determinado momento, uma liderança responde dizendo que não sairia do local, e determinando que, quem precisava sair seria alguém que estava lhe afrontando. “Vai você para lá. Vai você para a rua. Respeita! Nós vamos ficar aqui”, destaca. Gritos de “assassinos” também foram direcionados à mesa da Comissão.

Alice narrou também que o ministro que culpou as crianças pelo ‘acidente’ com a draga que as levou à morte, em 12 de outubro, defende com sua fala o nosso genocídio e a exploração das nossas terras. “Não vamos admitir culparem nossas crianças por suas mortes, o lugar de nossos filhos é brincando no rio, aquele não é um lugar para exploração, para essas máquinas”, declarou.

O conflito iniciou após a fala do deputado federal Coronel Chrisóstomo (PSL-RO), ao afirmar que as crianças de 5 e 7 anos, que morreram próximas à balsa de garimpo instalada na TI, não foram vítimas do trabalho ilegal, e que segundo ele, o Governo Bolsonaro vem investindo para melhorar a vida dos povos indígenas. “Os Yanomamis em situação de vulnerabilidade não são deixados para trás. Esse é o governo Bolsonaro”, afirmou.

Em outro momento, Chrisóstomo provoca afirmando que “Índio ativista, aqui, não dá”. O deputado complementou dizendo que: “Índio que anda de Iphone 13 não dá para escutar”. O presidente da Comissão precisou intervir e encerrar a audiência. O encontro contou também com a participação do ministro da Justiça, Anderson Torres.

(Reprodução/Internet)

Investigações

Na reunião, o delegado da Polícia Federal (PF), Gilberto Kirsch Júnior, afirmou que a investigação sobre o caso envolvendo as duas crianças ainda está em andamento. Contudo, o titular destacou que pode ter sido uma atrocidade, pois segundo ele, a mãe das crianças não conseguiu relacionar o ocorrido com a presença das balsas de garimpo instaladas no rio onde as crianças morreram.

“Essas crianças estavam usando carotes (recipiente usado para transportar líquidos) de combustível cortados ao meio como embarcação. E esses carotes viraram e essas crianças vieram a morrer afogadas”, relatou o delegado. Os deputados de oposição presentes na audiência cobraram informações sobre o acontecido, para o ministro, e, principalmente, sobre o garimpo ilegal.

“O problema dos nossos irmãos venezuelanos que estão entrando no Brasil, e a grande maioria entra legalmente, mas muitos entram ilegalmente, desesperados, e isso tem trazido um problema gravíssimo para Roraima e para os Yanomamis”, disse o ministro, relacionando o problema do aumento de garimpos ilegais, em Roraima, com a crise na Venezuela.

Devastação

Uma pesquisa divulgada em agosto deste ano, do MapBiomas, apontou que a área ocupada pelo garimpo, dentro de Terras Indígenas, cresceu 495% nos últimos 10 anos. Os dados informados fazem parte de uma análise de imagens de satélite, o qual mostra o salto de 31 mil hectares em 1985 e mais de 200 mil hectares para o ano de 2020. Nas Unidades de Conservação (UCs), o crescimento do garimpo foi de 301%. As maiores TIs com garimpo são: Kayapó (7602 ha) e Munduruku (1592 ha), no Pará, e Yanomami (414 ha), no Amazonas e Roraima. Entre as 10 unidades de conservação com maior atividade garimpeira, oito ficam no Pará.

Aumento do garimpo em TI. (Reprodução/ Fantástico)