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17 de maio de 2021

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Marcela Leiros – Da Revista Cenarium

MANAUS – “Hoje, o almoço é peixe, mas a janta não sei. Tem dia que a gente come, tem dia que a gente não come”. As palavras de Ivone Lira Moura, de 51 anos, que vive em Manaus, capital do Amazonas, refletem a dor de cada uma das 11,8 milhões de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza na Amazônia Legal, com menos de R$ 30 por dia. Os dados são do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em pesquisa coletada em 2019 e divulgada no final de 2020, que apontam, ainda, a triste marca de 3,6 milhões de pessoas na extrema pobreza na região, sustentando-se com menos de R$ 10 por dia.

Os números são ainda mais assustadores quando se calcula que as 11,8 milhões de pessoas da Amazônia que vivem na pobreza equivalem a  43% da população estimada de 29 milhões de habitantes dos Estados de Rondônia, Acre, Amazonas, Roraima, Pará, Amapá, Tocantins, Maranhão e Mato Grosso. Os que enfrentam a extrema pobreza, 3,6 milhões, compreendem 13% da população total, segundo IBGE.

“Tem dia que a gente come, tem dia que a gente não come”, Ivone Lira Moura, dona de casa de Manaus, 51 anos.

A realidade de Ivone, sua família e das outras milhões de pessoas na pobreza e extrema pobreza na Amazônia é reflexo de um fenômeno que vem ocorrendo em todo o Brasil, os fantasmas da miséria e da fome, que voltam a assombrar as camadas menos favorecidas da sociedade. Segundo IBGE, em todo o País, são R$ 52 milhões de pessoas na pobreza e 13 milhões na extrema pobreza, o que coloca o Brasil de volta no mapa da fome mundial. A situação mais crítica é a do Maranhão, que tem mais da metade da população vivendo abaixo da linha da pobreza.

Na casa de Ivone, que vive com o marido e dois filhos, no bairro Educandos, zona Sul de Manaus, a dúvida diária é sempre a mesma: quais serão as refeições que a família conseguirá fazer? No dia em que a reportagem esteve com Ivone, a família conseguiu a doação de sete peixes da espécie jaraqui para almoçar, mas o que seria a comida nos outros dias era uma incógnita.

A família, de quatro pessoas, mora em uma quitinete no Beco Inocêncio de Araújo, e ainda tem que pagar R$ 400 de aluguel com a única renda mensal: um auxílio-doença no valor de R$ 1.100, que Ivone recebe. Pode parecer suficiente, mas esses valores colocam a família abaixo da média do rendimento domiciliar per capita entre os Estados da Amazônia Legal, que tem média de R$ 981. Esse cálculo é a divisão dos rendimentos domiciliares, em termos nominais, pelo total dos moradores. Por essa conta, excluindo o gasto com aluguel, sobram apenas R$ 175 mensais por integrante da família de Ivone para o sustento do mês. “Às vezes, eu vou ali e arrumo um ovo”, diz a mulher.

Maranhão, Amazonas e Pará, nesta ordem, são os Estados da Amazônia com maior número de pessoas com rendimento domiciliar per capita abaixo da linha da pobreza. No Maranhão, está nessa condição 52% da população. No Amazonas, são 47%, e no Pará, 44%. Juntos, estes Estados abrigam 9,4 milhões de pessoas vivendo na pobreza e, individualmente, apresentam índices que giram em torno da metade dos habitantes.

Ivone e a família vivem e retratam a realidade mais dolorida que os números não mostram. A pobreza pode ser entendida em vários sentidos, mas o principal se resume à falta de acesso a recursos econômicos. Na prática, é a falta de acesso a direitos básicos de cidadania, como ensino de boa qualidade, saúde, energia elétrica, água potável, alimentação, vestuário, moradia e outros serviços essenciais que tiram a dignidade do cotidiano dos amazônidas.

Diante de um cenário já nada animador, a pandemia de Covid-19 veio para acentuar a disparidade econômica com que mais pessoas como Ivone, o marido e os filhos terão que lidar. Lutando diariamente com a falta de oportunidades, os milhões de brasileiros e, mais especificamente, moradores da Amazônia Legal precisarão ‘encarar’ o aumento do desemprego e a maior necessidade de recorrer a benefícios concedidos pelo poder público para complementar a renda. Muitos continuarão na pobreza e na extrema pobreza. Outros, passarão a viver nesta nova realidade.

Soma-se a este cenário a instabilidade política personificada na figura do presidente do Brasil, Jair Bolsonaro (sem partido), que já decorrido um ano de pandemia, ainda não lidera o enfrentamento da crise de forma coordenada com Estados e municípios. A falta de coordenação tem gerado resultados catastróficos de alta letalidade por Covid-19, colapso no sistema de saúde e economia fragilizada. O reflexo pode ser visto no aumento do desemprego, que empurra muitos para a pobreza.

Para dar visibilidade e voz aos que vivem o drama social e econômico, a REVISTA CENARIUM buscou dados estatísticos, entrevistou especialistas que analisaram as características dos Estados da Amazônia Legal e, indo além, vem contar as histórias de amazônidas que sentem na fome os impactos da realidade que maltrata milhões de brasileiros. 

De volta ao mapa da fome

Em 2014, o Brasil saiu do Mapa da Fome, uma publicação da Organização das Nações Unidas (ONU) que leva em conta os números mais atuais dos países. Só entram no mapa países com mais de 5% da população em pobreza extrema, levando em conta anos anteriores. O País não apareceu no último mapa, pois os dados usados são anteriores aos divulgados pelo IBGE no final de 2020 e apontavam 10,3 milhões de pessoas na extrema pobreza no país, o equivalente a menos de 5% da população. Agora, com 13 milhões na extrema pobreza, o que equivale a 6% da população, o Brasil já estaria incluído no critério para voltar ao mapa.

Os dados divulgados pelo IBGE, referentes aos anos de 2017 e 2018, apontavam que 5% da população, algo acima de 10 milhões de pessoas, já vivenciavam uma situação de insegurança alimentar grave no Brasil. Agora, esses números tendem a ser ainda mais alarmantes, já que não consideram o impacto da crise econômica agravada pela pandemia
do Covid-19. A insegurança alimentar é quando o acesso e a disponibilidade de alimentos são escassos. A situação
econômica familiar está intimamente ligada à insegurança alimentar.

Com 52 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza no Brasil, isso representa 1,5% das 3,4 bilhões de pessoas do mundo nessa situação. De acordo com as estimativas do Banco Mundial, feitas ainda em 2020, a pandemia faria a pobreza extrema avançar no mundo, pela primeira vez, em mais de duas décadas.

Cenário Mundial

Até o final de 2021, a previsão é de que 150 milhões de pessoas sejam ‘empurradas’ para a extrema pobreza em todo o mundo. Isso representa cerca de 1,4% da população mundial, de 7,79 bilhões de pessoas.

Os dados são do estudo “Pobreza e Prosperidade Compartilhada” e indicam ainda que antes da pandemia, por causa de conflitos globais e das mudanças no clima, o progresso na redução da pobreza global já estava mais lento. Entre 1990 e 2015, por exemplo, a pobreza global caiu cerca de um ponto percentual por ano. Esse ritmo diminuiu para menos de meio ponto percentual por ano entre 2015 e 2017.

Com o aumento, a pobreza extrema passará a afetar o equivalente a algo entre 9,1% e 9,4% da população do mundo. Antes da pandemia, a estimativa era que a pobreza cairia para 7,9%, em 2020.