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27 de outubro de 2021
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Da Redação Cenarium

Em entrevista exclusiva à revista Veja, o ex-ministro da Justiça, Sergio Moro, revelou que apresentará à Justiça, no processo aberto pelo Supremo Tribunal Federal (STF), as provas que mostram que o presidente tentou, sim, interferir indevidamente na Polícia Federal. Acusado publicamente por Jair Bolsonaro (sem partido) de mentiroso, Moro ainda afirmou que nunca pretendeu “ser algoz do presidente”.

“Sinais de que o combate à corrupção não é prioridade do governo foram surgindo no decorrer da gestão. Começou com a transferência do Coaf para o Ministério da Economia. O governo não se movimentou para impedir a mudança. Depois, veio o projeto anticrime. O Ministério da Justiça trabalhou muito para que essa lei fosse aprovada, mas ela sofreu algumas modificações no Congresso que impactavam a capacidade das instituições de enfrentar a corrupção”, disse.

“Recordo que praticamente implorei ao presidente que vetasse a figura do juiz de garantias, mas não fui atendido. É bom ressaltar que o Executivo nunca negociou cargos em troca de apoio, porém mais recentemente observei uma aproximação do governo com alguns políticos com histórico não tão positivo. E, por último, teve esse episódio da demissão do diretor da Polícia Federal sem o meu conhecimento. Foi a gota d’água”, completou.

Moro defende que as prerrogativas de presidente da República que Bolsonaro possui não podem ser exercidas arbitrariamente. Na entrevista, ele afirma que não houve causa concreta, insuficiência de desempenho, ou erro grave que justificasse a troca no comando da PF.

“Como não me foi apresentada nenhuma causa justificada, entendi que não poderia aceitar essa substituição e saí do governo. É uma questão de respeito à regra, respeito à lei, respeito à autonomia da instituição. […] Reitero tudo o que disse no meu pronunciamento. Esclarecimentos adicionais farei apenas quando for instado pela Justiça. As provas serão apresentadas no momento oportuno, quando a Justiça solicitar”, continuou.

Crimes contra a honra

A abertura de inquérito no STF contou com o parecer do procurador-geral da República, Augusto Aras, que incluiu uma linha para investigar os crimes de denunciação caluniosa e contra honra, servindo de possível acusação à Moro.

“Entendi que a requisição de abertura desse inquérito que me aponta como possível responsável por calúnia e denunciação caluniosa foi intimidatória. Dito isso, quero afirmar que estou à disposição das autoridades. Os ataques mais virulentos vieram principalmente por redes virtuais. Não tenho medo de ofensa na internet, não. Me desagrada e tal, mas se alguém acha que vai me intimidar contando inverdades a meu respeito no WhatsApp ou na internet está muito enganado sobre minha natureza”, disse.

“O presidente havia dito uma inverdade de que meu objetivo era trocar a substituição do diretor da PF por uma vaga no Supremo. Eu jamais faria isso. Infelizmente, tive de revelar aquela mensagem para provar que estava dizendo a verdade, que não era eu que estava mentindo”, continuou, citando ataques contra a esposa e dossiês montados com informações falsas.

“Ela nunca fez nada de errado. Nem eu nem ela fizemos nada de errado. Esses mesmos métodos de intimidação foram usados lá trás, durante a Lava-­Jato, quando o investigado e processado era o ex-presidente Lula. […]É importante deixar muito claro: nunca foi minha intenção ser algoz do presidente ou prejudicar o governo. Na verdade, lamentei extremamente o fato de ter de adotar essa posição. O que eu fiz e entendi que era minha obrigação foi sair do governo e explicar por que estava saindo. Essa é a verdade”, afirmou.

Questionado sobre a atual opinião dele sobre o presidente, Moro diz que, pessoalmente, ainda gosta dele. “O fato de eu ter saído do governo não implica qualquer demérito em relação a eles. Fico até triste porque considero vários deles pessoas competentes e qualificadas, em especial o ministro da Economia. Espero que o governo seja bem-sucedido. É o que o país espera, no fundo. Quem sabe a minha saída possa fomentar um compromisso maior do governo com o combate à corrupção”, finalizou.