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21 de novembro de 2021
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Rômulo D’Castro – Da Cenarium

PARÁ – Érlison Vieira, Ana Maria e Josélia Evangelista morreram juntos ao serem atingidos por uma descarga elétrica. O raio caiu e matou os três moradores de Oriximiná, no Oeste do Pará, enquanto eles participavam de um projeto de soltura de quelônios no rio Trombetas. Uma criança ficou ferida, mas sobreviveu. Esse não foi o único caso no município paraense. Em agosto, dois primos jogavam futebol, quando um raio caiu no campo. Um morreu na hora e o outro foi levado para o hospital em estado grave.

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Érlison Vieira, Ana Maria e Josélia Evangelista morreram na hora ao serem atingidos por raio em Oriximiná. (Foto: Reprodução)

Em Altamira e em Uruará, no Sudoeste do Estado, as vítimas foram Cirlete da Silva Menezes e Deusdete Gil da Silva. Os casos recentes refletem estudos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). De acordo com levantamento do órgão federal, o Pará é a terceira unidade da federação em números de Mortes causadas por esse tipo de descarga elétrica. Entre 2000 e 2019, 162 paraenses morreram ao serem atingidos por raios. A CENARIUM pesquisou que neste ano, até o mês de setembro, mortes foram registradas em Oriximiná, Óbidos, Uruará, Cametá e Altamira.

Além das mortes entre humanos, as descargas mataram mais de 50 animais em pelo menos três municípios paraenses e incendiaram plantações e até residências, como aconteceu em Monte Alegre, onde uma casa foi totalmente destruída. A família tinha acabado de sair e ninguém se feriu.

Casa fica destruída após ser atingida por raio na comunidade Munguba, em Monte  Alegre | Santarém e Região | G1
Casa destruída por raio em Monte Alegre, Oeste do Pará. Família tinha acabado de sair. (Foto: Reprodução)

Até o fim do ano, o Brasil deve ser atingido por mais de 78 milhões de raios. O estudo apresentado pelo Núcleo de Hidrometeorologia da Secretaria de Meio Ambiente do Pará aponta o Estado como o terceiro com mais ocorrências. Altamira, no Sudoeste, é o município mais afetado. O meteorologista da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), Alex Santos da Silva, atribui os registros às peculiaridades do clima na região. “Esse conjunto de componentes [mudanças climáticas] favorece essas nuvens de grandes movimentos”, explica o professor da Ufopa.

Ainda de acordo com o pesquisador, o monitoramento do clima é importante para que as autoridades entendam como o fenômeno pode estar sofrendo alterações. “Nós estamos vivendo o período La Niña, então nós temos as condições meteorológicas [para fenômenos como raios]”.

O físico Fábio Bertolo alerta para os perigos que os raios podem oferecer ao ser humano. “Se ficar em local descampado a nuvem vai usar [a pessoa] como para-raios. Por exemplo, em um campo de futebol se estiverem jogando bola, passou uma nuvem corre todo mundo”. O alerta também vale para quem dentro de casa não se atenta para detalhes como “o uso de celular na hora dessas tempestades que pode passar descarga elétrica para o aparelho e a pessoa morrer”.

No universo dos números, a probabilidade de uma pessoa ser atingida por descarga elétrica no Brasil é considerada pequena: uma em um milhão, mas é alta a incidência de mortes no País. A cada 50 óbitos por raios no mundo, um é registrada no País, de acordo com o Núcleo de Hidrometeorologia da Secretaria de Meio Ambiente do Pará. O Estado paraense ocupa a terceira colocação no ranking de mortes do tipo.

Granizo grande atinge Argentina e Uruguai - MetSul Meteorologia
Chuvas de granizo ocorrem por ‘choque térmico’ entre nuvens muito frias e temperaturas altas. (Foto: Reprodução)

Além de raios, o Pará passou a registrar com frequência outro fenômeno, esse infinitamente menos perigoso. Sobre as chuvas de granizo, o professor da Ufopa, Alex Santos da Silva explica. “Ocorrência de granizo não é comum na nossa região, agora a formação das nuvens específicas de granizo é comum”. E completa. “É um fenômeno que depende de componentes agindo entre si”.

O que explicaria então os registros mais recentes em um intervalo considerado pequeno? Nos últimos dois meses, choveu gelo na capital Belém e em municípios do interior como Óbidos, Juruti, Medicilândia e Altamira. O biólogo Rodolfo Salm tem uma teoria. “À medida em que a gente tem o aprofundamento da crise climática que causa uma instabilidade atmosférica, em que o planeta esquenta aumenta a energia da atmosfera e isso faz com que haja elevação das camadas úmidas”.

As consequências da ação humana sobre o meio ambiente podem ser sentidas a cada nova onda de calor ou a cada novo temporal, como o que atingiu parte da região Xingu, no Sudoeste do Pará, na segunda-feira, 18. Os ventos que acompanharam a chuva chegaram a 50 quilômetros por hora.