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17 de maio de 2021

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Bruno Pacheco – Da Revista Cenarium

MANAUS – No País que produz cerca de 80 toneladas de lixo por ano, segundo a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), empreender com reciclagem se tornou uma renda lucrativa para um grupo de mulheres da Amazônia. Em meio ao amontoado de papelões em um galpão de reciclagem localizado próximo à Reserva Floresta Adolpho Ducke, no bairro Cidade de Deus, zona Norte de Manaus, estão as catadoras Suelen Ramos, a sua filha Yasmin Ramos, e a amiga Rosangela Ferreira de Castro que, por meio da coleta de materiais reutilizáveis, garantem o sustento diário e ajudam na contribuição para salvar o meio ambiente.

Desde 2008, Suelen Ramos, de 39 anos, é catadora de materiais recicláveis e faz parte do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR) desde 2009, onde atualmente é uma das coordenadoras. Em 2014, quando decidiu fundar a Associação de Catadores de Materiais Recicláveis – Nova Recicla, para garantir o direito e organização dos trabalhadores que atuam com a atividade na capital e no interior do Estado, a reciclagem se tornou o principal negócio da família e da amiga. Nem o desânimo com os julgamentos alheios foram capazes de impedi-la de trabalhar.

Associação existe desde 2014, em Manaus (Ricardo Oliveira/Revista Cenarium)

“A princípio, comecei a reciclar por necessidade. Começamos em uma área que tem aqui no Fuxico [uma região comercial na zona Leste de Manaus], com meu pai e minha mãe. O meu marido Halysson Martins largou o trabalho para me ajudar. Antes trabalhávamos com padaria, mas passou a ficar difícil. Quando eu engravidei do meu segundo filho, fazer pão de madrugada e cuidar de menino se tornou complicado, foi quando me falaram que catar papelão estava dando dinheiro”, relatou Suelen.

Hoje, Suelen é graduada em Gestão Ambiental pela Faculdade Salesiana Dom Bosco. Ela conta que, no início, amigos e vizinhos estranhavam o fato dela estar catando materiais e começaram a ajudá-la com doações de alimentos e dinheiro. À época, por volta de 2008, segundo ela, a catação de materiais ainda não era uma atividades popularmente conhecida na sociedade. Apesar da profissão de catador de materiais recicláveis ser reconhecida pelo Ministério do Trabalho desde 2002, só em 2011 foi regulamentada pelo Projeto de Lei 6822/10 do Senado Federal, que define o catador como o profissional autônomo ou associado de cooperativas.

O quilo do papelão era vendido por ela pelo preço de sete centavos, um trabalho dificultado pelos ‘atravessadores’, que são conhecidos como exploradores e que revendiam o material por um valor quase três vezes maior para as indústrias de reciclagem. Suelen explica que a falta de experiência com o ramo a fez perder em renda, mas que por meio de cursos e palestras sobre a área, ela pôde conhecer o real valor dos materiais e garantir os direitos dos profissionais. Hoje, em Manaus, o quilo papelão gira em torno de R$ 0,90 a R$ 1,00.

“A partir do momento que tivemos contatos de empresas de papelão, como a Placibrás da Amazônia (PCE), eles nos deram todo o suporte tanto de equipamentos como de logística para melhorarmos nosso trabalho, inclusive, passando a pagar o preço real do produto. Passamos a receber o preço final, sem precisar de atravessador”, pontuou.

A Nova Recicla, segundo Suelen, surgiu para garantir os direitos dos profissionais e as associações que também atuam no meio. Atualmente, a entidade atua por conta própria em dois galpões com o apoio de 35 trabalhadores associados que coletam cerca de 200 toneladas de material reciclável todos os meses, atendendo quase 4 mil casas de 10 bairros de Manaus.

Crise

Como uma das coordenadoras do MNCR, que é composto por 27 associações e cooperativas de catadores no Amazonas, e representa cerca de mil pessoas que atuam no ramo, Suelen salienta que precisou enfrentar barreiras e tabus para mostrar que é capaz de estar à frente de um empreendimento.

“Acham que a gente não é capaz, mas a gente prova que é”, afirma. “Quero cada vez melhorar mais, provar mais que isso aqui dá, dá para você se organizar e ir além”, declara.

Em 2020, quando a pandemia da Covid-19 se instalou, o trabalho dos catadores precisou ser interrompido pelo período de quatro meses em Manaus, lembra Suelen. Na época, os profissionais viviam de ajuda com a doação de cestas básicas. As coletas só retornaram após solicitação da associação à prefeitura.

Coleta é feita duas vezes por semana (Ricardo Oliveira/Revista Cenarium)

“Fazemos a coleta duas vezes na semana. Por conta do Covid-19, a gente não pôde manter o contato com os comunitários. Mas nós recolhemos os materiais que são deixados pelas pessoas em um certo horário. Quando tem muito material, os moradores ligam e vamos lá”, destaca Yasmin Ramos, de 20 anos.

A vice-presidente da Nova Recicla, a artesã Rosângela Ferreira de Castro, de 45 anos, conta que o processo de coleta de materiais recicláveis ajuda tanto os moradores que desejam descartar produtos, quanto os profissionais que fazem o recolhimento e, ainda, o meio ambiente.

“O meio ambiente agradece, pois nós olhamos muitas pessoas que não têm consciência. Elas pegam o material reciclável e jogam na rua mesmo. A gente passa pelas ruas e, ao mesmo tempo em que coletamos, nós mobilizamos as pessoas. Para mim, é muito gratificante fazer parte desse movimento”, diz Rosângela.
Benefícios

Segundo dados do Panorama dos Resíduos Sólidos, da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe) de 2019, o Brasil gera quase 80 milhões de toneladas de lixo por ano. Um estudo feito pelo Fundo Mundial para a Natureza (WWF, sigla em inglês), no relatório “Solucionar a Poluição Plástica – Transparência e Responsabilização”, mostra o País é 4º maior produtor de lixo plástico no mundo, com 11,3 milhões de toneladas, ficando atrás apenas dos Estados Unidos, China e Índia.

A pesquisadora do Grupo de Estudos e Pesquisa em Produção, Logística e Administração (Geppla), do Instituto Federal do Amazonas, Elizany Monteiro, que é mestre em Ciências Ambientais e Sustentabilidade na Amazônia, salienta que um dos instrumentos criados para auxiliar no enfrentamento dessa questão foi a Agenda 2030, um plano de ação que envolve toda a sociedade. O seu 12º objetivo sugere proposta de mudança nos padrões de consumo e produção com destaque para a redução substancial da geração de resíduos por meio da prevenção, redução, reciclagem e reuso.

Elizany Monteiro é mestre em Ciências Ambientais e Sustentabilidade na Amazônia (Arquivo Pessoal/Reprodução)

“Nesse contexto, as usinas de reciclagem tomam grande importância, uma vez que nasceram para suprir uma demanda gerada por fatores como a urbanização desordenada e a má gestão de resíduos gerados. Vários estudos apontam que empreendimentos como o da Associação Nova Recicla, além de promoverem o retorno de matérias primas ao setor produtivo, contribuem, sobremaneira, para a gestão ambiental, por meio da mitigação de impactos negativos gerados pelo descarte irregular de resíduos, como o plástico e o papelão que causam enchentes e alagamentos, causando doenças e mortes aos seres vivos”, destaca.

Elizany Monteiro avalia que a sociedade está presenciando uma das consequências da má gestão ambiental com a pandemia da Covid-19 que, para ela, irá obrigar a população a repensar nas formas de produção, consumo e descarte dos resíduos. Nesse processo de mudanças, salienta ela, as usinas de recicláveis farão parte para um desenvolvimento sustentável.

“Entretanto, iniciativas como estas apresentam dificuldades para se estabelecerem no mercado e serem reconhecidas pelos órgãos públicos. Importante mencionar que com a pandemia houve a perda de postos de trabalho e o consequente aumento do número de empreendimentos como este, mas é importante salientarmos que esta é uma expressão da precarização do trabalho, e nem sempre ocorre o atendimento de condições dignas de trabalho”, frisou.

A especialista finaliza que para a mitigação dos problemas decorrentes do descarte irregular de resíduos é preciso de investimento em Educação Ambiental e o fortalecimento de organizações produtivas de catadores em cooperativas e associações. “O que requer esforços de toda sociedade”, conclui Elizany.