Na CPI, Saúde confirma que distribuiu mais de 100 mil comprimidos de cloroquina a indígenas

Com informações do O Globo

BRASÍLIA – O Ministério da Saúde informou à CPI da Pandemia que distribuiu mais de 6 milhões de comprimidos de cloroquina e hidroxicloroquina entre março de 2020 e abril de 2021 para combater a Covid-19. Somente as terras indígenas receberam 100,5 mil unidades em junho do ano passado especificamente para essa finalidade, de acordo com os documentos.

Os números fornecidos pela pasta contrariam declarações dadas pelo ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello. Em depoimento à CPI, ele disse que a cloroquina, que não tem eficácia contra a Covid-19, foi distribuída para indígenas em razão da malária, doença para a qual é indicada, e não para enfrentamento à pandemia.

Outro documento mostra que houve até mesmo a distribuição de 127,5 mil comprimidos de hidroxicloroquina a dois municípios do interior de São Paulo para enfrentamento à pandemia durante a gestão do atual ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, que tomou posse em 23 de março. Foram 27.500 comprimidos para Limeira (SP) em 30 de março, e 100 mil para Presidente Prudente (SP) em 27 de abril.

Em depoimento à CPI em 8 de junho, Queiroga disse que não há comprovação da eficácia desses medicamentos contra a Covid-19.

A maioria dos comprimidos foi distribuída até agosto do ano passado. No caso dos índios, foram sete entregas, todas em 29 de junho, quando Pazuello era ministro, para os distritos sanitários especiais indígenas “Leste Roraima”, que recebeu 61 mil comprimidos, e “Yanomami”, para onde foram enviados 39,5 mil. Em julho do ano passado, o Ministério da Saúde já havia informado a distribuição de 297 mil comprimidos de cloroquina e outros medicamentos sem eficácia contra a Covid-19 no contexto do enfrentamento à pandemia.

Na CPI, porém, Pazuello deu outra versão, no depoimento em 19 de maio. “A distribuição de cloroquina é normal para malária para os indígenas, não para Covid-19. Nós não fazíamos distribuição”, disse.

A política do governo para povos indígenas tem gerado críticas dentro e fora do país. Segundo um telegrama de maio de 2020 do ex-embaixador do Brasil em Israel Paulo Cesar Meira de Vasconcellos, entregue à CPI e revelado pela TV GLobo, o então primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu via “risco real” de o presidente Jair Bolsonaro ser investigado pelo Tribunal Penal Internacional por “genocídio de povos indígenas”.

O líder indígena Dário Kopenawa Yanomami, vice-presidente da Hutukara Associação Yanomami (HAY), afirmou que a missão do governo que levou cloroquina às aldeias foi realizada sem consentimento desses povos. Ele disse ainda que as lideranças Yanomami orientaram os indígenas a não tomarem o medicamento para tratar Covid-19.

“Os representantes do governo que foram lá não nos procuraram e não fomos comunicados da visita. A comitiva passou por cima da nossa hierarquia. Não tomamos a cloroquina para Covid-19, porque temos conhecimento que esse tratamento é para malária e não coronavírus. A gente orientou nosso povo, dissemos: “Estamos sabendo que o presidente está fazendo uma campanha para tomar cloroquina e dizendo que cloroquina é bom”. Informamos as lideranças sobre essas falas do Bolsonaro”, disse.

A pesquisadora Marina Vieira, da Rede Pró-Yanomami e Ye’kwana, que participou da elaboração de relatório enviado ao Ministério Público Federal (MPF) sobre a visita da comitiva do governo federal à região em 2020, explicou que enquanto o governo tocava ações como a distribuição de medicamentos com ineficácia comprovada, medidas efetivas, como a criação de barreiras sanitárias e a expulsão de garimpeiros, eram deixadas de lado. Já naquela época, segundo ela, após críticas, o governo argumentou que os comprimidos eram destinados ao uso para malária, mas a justificativa não se sustentava.

“Os números de malária têm aumentado desde 2018 quando a invasão garimpeira aumentou muito, mas mesmo assim, na época da desova da cloroquina, o estoque que existia no DSEI Yanomami, que pedimos para a Secretaria Especial de Saúde Indígena do Ministério da Saúde (Sesai) informar, já era suficiente para tratar mais de 90% dos casos. Não se justificava remessa de dezenas de milhares de comprimidos”, contou Marina.

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