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28 de janeiro de 2022
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Com informações do G1

SÃO PAULO – A gestação traz muitas dúvidas para mulheres que se preparam para ser mãe. Em geral, pesquisas na internet ou desabafos em grupos nas redes sociais ajudam a solucionar algumas delas. Para mulheres que não sabem ler, o apoio fica mais restrito. Neste Dia das Mães, o G1 publica o minidocumentário “Letra M, de Mãe” sobre mulheres que tiveram dificuldades na criação dos filhos, por não terem estudos.

Simone de Souza, 48 anos, é uma dessas mulheres. Ela parou de estudar ainda criança para ajudar a cuidar dos irmãos em Belford Roxo, no Rio de Janeiro. Quando teve filhos, sentiu o impacto da falta de estudos para poder criar as crianças. Maria de Lourdes Ferreira, 62 anos, migrou do Rio Grande do Norte para o Rio de Janeiro quando ainda tinha 9 anos, para trabalhar em “casa de família”. Pouco depois, também abandonou a escola. Sem instrução, pouco pode participar da vida escolar dos filhos.

Além de Simone e Lourdes, há ainda as histórias de Maria Cristina da Silva, 37 anos, e Maria José Penha, 62 anos, também mães que não completaram os estudos. Elas ilustram os desafios que o Brasil ainda enfrenta na educação: o abandono escolar e a evasão.

As gravações ocorreram em 2019, antes da pandemia, e retratam o retorno destas mulheres aos bancos escolares em turmas de alfabetização de adultos de um projeto voluntário de uma igreja na Zona Sul do Rio de Janeiro, para atender quem teve o ensino interrompido. Em março de 2020, as aulas foram interrompidas. Essas mulheres falam sobre os prejuízos que o fechamento das escolas trouxe na aprendizagem, um desafio a mais que deverão enfrentar na vida.

Simone de Souza e Maria Cristina da Silva durante as aulas presenciais de educação de jovens e adultos, antes da pandemia. — Foto: Gustavo Wanderley/TV Globo
Simone de Souza e Maria Cristina da Silva durante as aulas presenciais de educação de jovens e adultos, antes da pandemia. (Gustavo Wanderley/TV Globo)

Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) apontam que, em 2019, mais da metade dos adultos acima de 25 anos (51,2%) não havia completado os estudos. Os motivos principais para evasão entre jovens de 14 a 29 eram:

  • necessidade de trabalhar (39,1%)
  • pouca atratividade da escola (29,2%)
  • gravidez (23,8%)
  • afazeres domésticos (11,5%)

Até março de 2020, o Brasil tinha 3 milhões de estudantes matriculados na EJA. A situação é pior para aqueles que não se alfabetizaram. Há 11 milhões de analfabetos no país, acima de 15 anos, que não sabem ler nem escrever.

Moradora de Belford Roxo, no Rio de Janeiro, Simone de Souza conta os desafios de voltar a estudar na maturidade. Ela frequentava turmas de Educação de Jovens e Adultos (EJA) antes da pandemia, e teve que interromper os estudos. — Foto: Gustavo Wanderley/TV Globo
Moradora de Belford Roxo, no Rio de Janeiro, Simone de Souza conta os desafios de voltar a estudar na maturidade. Ela frequentava turmas de Educação de Jovens e Adultos (EJA) antes da pandemia, e teve que interromper os estudos (Gustavo Wanderley/TV Globo)

Entre os analfabetos, 50,13% são mulheres. O percentual aumenta conforme a idade vai avançando: acima de 40 anos, 52% dos analfabetos são mulheres; acima de 60, 56%.

Jovens e adultos

Na Educação de Jovens e Adultos (EJA), as mulheres somavam 49,3% das matrículas antes da pandemia – os dados indicam que, para elas, voltar a estudar ainda é um pouco mais difícil do que para os homens, o que pode impactar em gerações futuras.

“Os estudos mostram que aumentar os níveis de educação das pessoas jovens e adultas têm enorme benefício para as novas gerações. Famílias mais educadas são mais capazes de dar valor à educação escolar e de acompanhá-las em seu desempenho”, afirma a doutora em educação e professora da USP Maria Clara Di Pierro, doutora em educação e professora da USP, especialista em educação de jovens e adultos.

Especialistas em educação afirmam que pessoas sem estudos têm uma leitura menos crítica do que ocorre ao seu redor, e maior dificuldade de fazer análises globais das situações.

Os dados indicam que muitas delas são navegadoras frequentes da internet, usam redes sociais e aplicativos de mensagens, mas são facilmente enganadas com notícias falsas, não compreendem ironias, metáforas e frases em sentido figurado. Entre alunos de 15 anos, matriculados regularmente, 67% não sabem diferenciar fatos de opiniões, segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O índice pode ser maior entre aqueles que não estudam.

“A mãe com menos repertório vai oferecer menos a essas crianças, os cuidados de higiene, de alimentação, nutrição. Quando entra na escola, é outro desafio: o desafio não só da mãe acompanhar o conteúdo para ver se a criança está aprendendo, mas de também de poder dialogar com a escola. Muitas vezes, a mãe não conhece aquele ambiente, porque ela não frequentou. É um espaço estranho”, afirma Ana Lúcia Lima, que coordenou o estudo Indicador de Analfabetismo Funcional (Inaf) Brasil.

Mas, mesmo com todas as dificuldades, mães sem estudo podem contribuir para o desenvolvimento dos filhos de diversas maneiras.

“A narração de histórias que não precisam ser lidas no livro, a memória do seu lugar de origem, contar a história da família, cantar com o filho, brincar com o filho, tudo isso é extremamente importante também. A mãe pode sempre, se ela tiver essa intencionalidade explícita, contribuir com o letramento do seu filho”, afirma Ana Lúcia Lima.