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24 de julho de 2021
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Priscilla Peixoto – Da Revista Cenarium

MANAUS – “Lembro que por causa da nossa situação econômica, por vezes, eu cheguei a usar paninhos recortados de camisas velhas e também outras coisas que eu conseguisse me forrar no período menstrual. É estranho ouvir alguém dizer que chegou ao ponto de não ter dinheiro para comprar um simples absorvente, eu sei, mas é real e mais comum do que se imagina para meninas de famílias de baixa renda e/ou bem carentes mesmo, principalmente, as do interior”, conta a universitária Paola Xavier.

A jovem parintinense de 26 anos, que foi criada em uma casa simples no bairro Itaúna, em Parintins (distante 369 quilômetros de Manaus), dividia o cotidiano com mais quatro irmãos e a mãe provedora do sustento da família. Hoje, ela já não precisa mais de velhos retalhos para se proteger do sangramento, mas certamente a realidade de Paola reflete mais uma dentre tantas meninas adolescentes que contribuíram para a soma das estatísticas apontando que uma a cada quatro meninas já  deixou de ir à escola por conta do ciclo menstrual e a falta do produto de proteção íntima (absorvente).

O levantamento encomendado pela fabricante de absorventes Always, em parceria com a  plataforma de pesquisa de mercado Toluna, no início de 2020, aponta ainda que, em média, 48% das jovens já tentaram esconder o motivo da sua ausência e 45% acreditam que o fato impactou negativamente o rendimento escolar.

“A pesquisa pode ser recente, mas o problema é antigo. Eu nunca cheguei a faltar a escola por conta disso, mas era de fato desconfortável e me sentia insegura e, apesar de eu não faltar, via muitas colegas que faltavam e diziam que estavam doentes. Para você ver, algo natural da mulher ser encarado como doença por falta de estrutura de vida, educação e questões sociais que implicam em algo tão íntimo, mas que não deve ser tabu. Ela existe e eu passei por isso”, ressalta Paola.

Outros dados

Segundo um relatório realizado pela Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), intitulado “Pobreza Menstrual no Brasil: Desigualdade e Violações de Direitos”, divulgado em maio deste ano, afirma que essa questão é consequência de fatores sociais e econômicos, o documento mostra que um a cada quatro brasileiros estão vivendo com menos de R$ 436,00 ao mês, consequentemente, interferindo de forma direta na escolha de produtos para consumo e o absorvente, além de outros itens necessários para manutenção da higiene íntima feminina.

O contraste entre a precariedade menstrual e a escassez de dados se mostra ainda mais preocupante se associado ao alarmante cenário brasileiro, que aponta para o fato de que cerca de 13,6 milhões de habitantes (cerca de 6,5% da população) vivem em condições de extrema pobreza, ou seja, sobrevivendo com menos de U$ 1,90 por dia (o equivalente a R$ 151,00 por mês segundo cotação vigente em 2019) e cerca de 51,5 milhões de pessoas estão abaixo da linha de pobreza (1 a cada 4 brasileiros vivendo com menos de R$ 436,00 ao mês).

A necessidade de enfrentamento da pobreza e redução das desigualdades incorpora urgência ao tratamento do problema da pobreza menstrual e seu impacto nas futuras gerações. Além dos efeitos intergeracionais de não garantir o direito à dignidade menstrual das meninas, há um impacto econômico imediato gerado pela falta de políticas públicas adequadas, que respondam à pobreza menstrual agora, enquanto as meninas, meninos trans e pessoas não binárias vivenciam sua adolescência, um momento decisivo para o seu desenvolvimento“, diz o relatório.

Absorvente externo, interno e coletor menstrual disponível no mercado (Reprodução/ Internet)

Outros dados a serem ressaltados são os publicados em novembro de 2020 no site Modefica, mostrando que, no Brasil, um dos principais motivos que impedem o acesso à proteção íntima é o preço, de acordo com Modifica, o imposto sobre o absorvente, corresponde, em média, a mais de 25% do valor do produto. (Deve ser levado em consideração a diferença de alteração de preço em cada região e os impostos calculados em cima do produto).

Em março deste ano, uma matéria publicada pela CENARIUM a respeito da pobreza menstrual no Brasil trouxe informações relevantes sobre o assunto. Entre os pontos ressaltados, consta a Pesquisa Nacional da Saúde Escolar (Pense) revelando (até o período em que matéria foi publicada) que 213 mil garotas são afetadas pelo não acesso aos produtos de higiene básica no período menstrual.

O material também abordava a exclusão social provocada pelo fenômeno resultando na evasão escolar, atrapalhando o desempenho e a carreira de jovens estudantes, dificultando até mesmo os afazeres do cotidiano, de acordo com o levantamento publicado em novembro de 2020, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Na ocasião, outra realidade apresentada pelo Pense ressaltou que 65% das jovens estudantes mais afetadas seriam negras. Os números seriam da última amostragem divulgada no dia 8 de março deste ano, pela ONG Girl UP, onde comprova que 30 milhões de mulheres menstruam no Brasil.

Perigos para a saúde

Além do conhecido paninho velho usado para substituir o clássico absorvente ou coletores menstruais (uma nova opção no mercado já aderido por muitas mulheres por ser uma alternativa que agride menos o meio ambiente dentre outros fatores), há também outros recursos improvisados como toalhas de papel, papel higiênico, meias e, em alguns casos, já foram relatados até mesmo o uso do “miolo do pão” ou pedaços de esponja introduzidos na parte íntima como a única forma disponível para substituir o produto básico de higiene.

“Acho que o famoso paninho, se limpinho, nem é tão agressivo, se olharmos para aquelas que já recorrem a itens mais agressivos para uma região tão delicada e propicia a pegar infecções se não cuidada corretamente”, comenta Paola.

E é justamente para a questão das possíveis infecções que o ginecologista e obstetra Thiago Gester alerta quanto ao uso indevido dos produtos não formulados para estes fins.

O uso indevido de objetos não íntimos podem desencadear infecções (Reprodução/Internet)

“Sabemos que fluxo sanguíneo é meio de cultura para fungos e bactérias, agora pense uma jovem introduzindo esses tipos de materiais na vagina, se expondo a possíveis infecções desencadeadas pela busca de uma alternativa que não é a correta”, frisa o médico ginecologista.

O relatório da Unicef, inclusive, alerta para os perigos dessa prática que ele denomina “negligentes”.

A negligência de necessidades menstruais resulta em problemas que poderiam ser evitáveis, desde alergias/irritações até aqueles que podem resultar em óbitos, como a síndrome do choque tóxico. O investimento adequado na saúde menstrual pode prevenir tais problemas“, informa o documento.

Políticas públicas e fatores sociais

No Amazonas, no último dia 22 de junho, o Governo do Estado anunciou o programa intitulado “Dignidade Menstrual”, no qual visa, minimizar os efeitos da “pobreza menstrual”. O programa pretende inicialmente atender 50 mil estudantes, em Manaus, e nos interiores do Amazonas.

O programa é especialmente voltado para meninas em idade menstrual, em situação de vulnerabilidade social, pobreza e extrema pobreza. A data prevista para o inicio da distribuição é em Agosto.  O “Dignidade Menstrual” vai trabalhar também na educação menstrual no âmbito escolar, “tanto para as estudantes em processo de desenvolvimento quanto para os profissionais da educação“, informou o texto divulgado nas mídias sobre a iniciativa.

Procurada pela equipe CENARIUM para saber se há algum levantamento sobre a temática, a assessoria de comunicação do Estado informou que ainda não há dados específicos sobre o assunto e nem sobre a falta de alunas nas escolas públicas.

De acordo com a assistente social Alessandra Sales, de 48 anos, políticas como estas trazem à tona uma pauta pouco difundida nas escolas. Ela alega uma atenção voltada somente para questões biológicas, porém não há a discussão de questões práticas. Para a assistente social, a iniciativa promove uma interação das escolas com alunas nesse período menstrual, diminuindo o índice de falta por problemáticas ligadas à menstruação.

“Imagine uma família que depende do Bolsa Família, por exemplo, tendo que prover pacotes de absorventes para duas, três, quatro meninas todo mês. Se ela recebe R$ 150,00 de auxílio, ela tem que tirar pelo menos R$ 50,00 reais para custear isso”, exemplifica a profissional.

Um dos principais motivos que impedem o acesso à proteção íntima é o preço, de acordo com o site Modifica ( Reprodução/ Internet)

Ela completa lembrando que a precariedade menstrual não se prende ao tão falado absorvente ou coletores, mas envolve um tema muito mais abrangente, como acesso à água encanada, banheiro disponível, produtos de higiene pessoal e até mesmo calcinhas em qualidades de uso para acomodar o item de proteção aliado à quebra de tabu ainda existente em torno do assunto.

“Acredito que seja uma oportunidade de contribuir para que as meninas deixem de faltar aulas por todos esse fatores e porque infelizmente a menstruação ainda é tratada como um tabu. Temos medo e vergonha de discutir e conversar. Às vezes, elas até têm o item, mas não o suficiente para se manter um determinado tempo na escola, não se sentindo confiante e podendo se sujar e aí são pequenas questões que acumulam e causam vergonha e constrangimento. Programas assim permitem mais segurança e acolhimento às meninas durante este ciclo”, completa a assistente social.

Ação social

Em Manaus, é possível encontrar algumas ações sociais para pessoas em vulnerabilidade social. No caso da universitária Camila Carmo Fernades, de 22, a pauta da precariedade menstrual foi o que motivou seu engajamento em prol de mulheres carentes.

Com a última ação realizada no Dia das Mulheres, a universitária de engenharia de produção está sempre atenta ao assunto e considera urgente programas destinados à saúde da mulher e adolescentes com ênfase no público de baixa renda e do interior.

Ação de entrega de absorventes para mulheres no Centro da cidade (Reprodução/ arquivo pessoal)

“Ainda estamos em passos lentos, mas acredito que seja um avanço as mídias abordarem assuntos assim mais abertamente. As pessoas e os nossos representantes precisam entender que isso é uma realidade. Chega de tabu, queremos dignidade para toda as mulheres e, principalmente, para as mulheres amazônidas. Acredito que a pandemia fez esse tema ressaltar e mais pessoas se atentarem que precisamos muito mais do que comida, precisamos de empatia, cuidados mínimos, mas que fazem toda diferença para um todo”, finaliza.