Negligenciado pelo Poder Público, CBA é ‘peça-chave’ no combate ao novo Coronavírus

Nícolas Marreco – da Cenarium

MANAUS – O Centro de Biotecnologia do Amazonas (CBA) tem potencial para se tornar referência nacional na pesquisa em vacinas e no tratamento comprovado contra a Covid-19, inclusive sobre a cloroquina e suas variantes. Quem sustenta a afirmação é o deputado federal Alberto Neto (Republicanos). Dessa forma, para ele, os trabalhos poderiam ser centralizados e passariam a oferecer maior segurança à sociedade.

“A gente carece de centros de pesquisa e o CBA está há decadas sem dar o devido retorno […] só temos possibilidade de pesquisa no Inpa, Fiocruz, UEA e Ufam”, defendeu.

Segundo o deputado, a cloroquina ou hidroxicloroquina (sua variante) poderia ser estudada a fundo usando a estrutura da entidade, e diz que “a falta de estudos contundentes sobre a eficácia da droga provoca divisão entre os especialistas”.

Neto pretende enviar ofícios ao presidente da República, ao superintendente da Zona Franca de Manaus (Suframa) e ao governador do Amazonas para indicar aportes de recursos no CBA. Sobre medidas efetivas dentro do Congresso, ele não disse nada. Também não contou se outros parlamentares da bancada amazonense apoiam a ideia.

“Nesse momento de pandemia, é importante ter boas equipes fazendo ciência de ponta. As respostas saem dos laboratórios. [O CBA] poderia ser um grande centro para acelerar pesquisas, ajudar no diagnóstico desenvolvendo métodos de testagem rápida, validando testes da Covid-19. Especialmente na região amazônica. Temos matéria-prima para extrair a cura de várias doenças, inclusive as vindas do coronavírus”, afirmou.

Presidente da comissão de Ciência, Tecnologia, Comunicação e Inovação da Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam), o deputado Serafim Corrêa (PSB) frisou que neste momento todo esforço é válido, embora seja preciso considerar o tempo e os protocolos que testificam os resultados científicos.

“Quanto mais cedo iniciar, melhor. Agora, até o momento não conseguiram resolver o CNPJ. É complicado. Temos uma massa crítica boa para a pesquisa; não sei se para o avanço é preciso conectar Ufam, UEA, por exemplo, com a Fiocruz”, avaliou.

Sobre o anúncio recente do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) de reduzir o isolamento social pela confiança na cloroquina como droga eficaz contra a pandemia, ele criticou que é preciso “deixar isso pra quem é da área”. “É temerário ele estar fazendo propaganda sem comprovação científica”, observou.

Embargos de mais de uma década

Vinculado como braço de pesquisa e inovação da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), o CBA é construído em 12 mil metros quadrados e munido principalmente de 26 laboratórios, um núcleo de produção de extratos e uma planta piloto industrial, além de alojamentos para pesquisadores. Também possui uma incubadora de startups, atualmente ociosa pela falta de personalidade jurídica.

O principal gargalo é a escassez de mão de obra qualificada, explica o presidente Fábio Calderaro à Revista Cenarium, o que também compromete a usabilidade e manutenção dos equipamentos caros. “Um problema que se perdura por 20 anos e virou lenda. O CBA não tem CNPJ, por isso não pode contratar gente. Um projeto como ele precisa de dinheiro para escalonar e não conseguimos somente com os do orçamento ordinário”, indicou.

No cenário de recursos cada vez mais escassos ou contingenciados, a queixa maior é os recursos advindos da Lei de Informática serem retidos pela Suframa. Uma Medida Provisória em tramitação desde o ano passado no governo federal muda a entidade para uma fundação pública de direito privado. A expectativa no momento, conforme Calderaro, é pela caneta do presidente.

“Não adianta investir porque passa pela Suframa, que filtra. Queremos complementar a matriz econômica da região e usar a biodiversidade, [transformando] a vantagem comparativa para vantagem competitiva. Nesses anos todos, o CBA nunca recebeu um real de PeD. É absurdo”, admitiu.

Testes rápidos para a pandemia

Um dos projetos do centro é a recuperação de áreas ambientais degradas pela replicação de espécies nativas de interesse socioeconômico, como o açaí (indústria alimentícia e farmacêutica) ou bromeliáceas (indústria têxtil). Um caso prático foi o treinamento para empreendedores de comunidades tradicionais sobre o manejo produtivo ecológico de itens da biodiversidade. A principal atividade, todavia, é a produção de antígenos e anticorpos para a fabricação de testes rápidos do Covid-19.

A produção que envolve todo a força de trabalho vai desde a fabricação de álcool líquido e em gel para a doação, inclusive. Uma estratégia eficiente para a atual crise, seria um lockdown para isolar grupos de risco e quem não está infectado para um diagnóstico em massa, como nos casos bem-sucedidos de prevenção de Israel, Alemanha e Japão.

“Os kits sofrem dois problemas básicos no Brasil: o insumo para produzir esses anticorpos e antígenos são 100% importados da China, que aumentou o preço para a venda de outros países também. O segundo é que o vírus que chegou no nosso país já sofreu mutação, então não adianta comprar insumos da China porque o vírus não é o mesmo que o originário de lá”, explicou o presidente do CBA.

O ideal seria uma produção autossuficiente. E o CBA tem pesquisadores que trabalham há sete anos com produção de antígenos em escala. O momento é de adaptação da planta de produção para o SARS-CoV-2. Ao final da troca, a entidade será capaz de fornecer a nível nacional todo o estoque necessário para a fabricação dos testes rápidos, conforme apontou Calderaro.

“Hoje, temos 17 instituições autorizadas pela Anvisa a fazer os kits de teste rápido. A ideia é fazermos o sequenciamento do antígeno específico do vírus mutado, pegar o peptídeo e injetar em galinhas para a produção de anticorpos. Em cinco meses, teremos estoque o bastante para todo o país, tão logo recebamos aval da agência para produzir os kits aqui também”, concluiu.

Sobre a cloroquina

Ações recentes de instituições internacionais puseram em dúvida, além da falta de estudos comprovados, que a cloroquina e seus variantes são eficazes contra o coronavírus e a Covid-19. Nos Estados Unidos, o Centro de Controle de Doenças (CDC) retirou do seu site a recomendação para médicos ministrarem a substância para pacientes infectados.

Inicialmente, a instituição havia publicado sob pressão do presidente Donald Trump, após ele apontar a droga como saída para o isolamento no sentido de evitar o agravamento da recessão econômica. No Amazonas, foi divulgado no último 6 de abril uma pesquisa pioneira aprovada pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa.

Aplicado em 81 pacientes internados, o objetivo foi avaliar a segurança e eficácia da droga em doses diferentes. Segundo o médico infectologista Marcus Lacerda, da Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), o uso da dose mais alta, por dez dias, apresentou risco maior de complicações adversas, podendo resultar em arritmias graves.

“Então a gente está desaconselhando que essas doses altas sejam usadas. Pela primeira vez no mundo, na verdade, alguém teve o cuidado de fazer o monitoramento cardíaco dessas pessoas e ver que a dose era mais tóxica”, afirmou o pesquisador.

Com isso, o medicamento passa a ser considerado seguro, mesmo para os pacientes graves, se administrado em sua dose mais baixa, que equivale àquela que vem sendo recomendada pelo Ministério da Saúde.

A partir de agora, o estudo local entra em uma nova fase, em que os pesquisadores avaliarão com mais detalhes a eficácia da cloroquina na melhora do quadro clínico dos pacientes acometidos pela Covid-19.

“Nós pegamos outros países que tinham feito exatamente a internação como nós estamos fazendo no Delphina, e a letalidade, ou seja, o risco de morrer era de 18% nesses países. Nos nossos pacientes que usaram a cloroquina, em todos eles esse risco ficou em 13%, um pouco mais baixo do que aquilo que é relatado na literatura internacional”, esclareceu.

Com informações da Assessoria de Imprensa

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