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23 de janeiro de 2022
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Com informações do O Globo

BRASÍLIA – O ex-ministro da Saúde Nelson Teich já faz sua explanação à CPI da Covid sobre sua curta gestão à frente da pasta, onde ficou por apenas 29 dias. A sessão teve início às 10h20 com questões de ordem para pedir uma homenagem ao ator e humorista Paulo Gustavo, que morreu ontem em razão de complicações da Covid-19. O presidente da comissão, Omar Aziz (PSD-AM), pediu um minuto de silêncio. 

Em sua fala inicial na CPI, o ex-ministro Nelson Teich disse que optou por deixar o cargo por perceber que não teria autonomia e liberdade para atuar no combate à pandemia. Ele citou divergências sobre o uso da cloroquina no tratamento da Covid-19 por considerar que não havia base científica para isso. O medicamento, que foi reiteradamente defendido pelo presidente Jair Bolsonaro, é comprovadamente ineficaz.

“Essa falta de autonomia ficou mais evidente em razão das divergências com o governo quanto à eficácia e extensão da cloroquina no tratamento de Covid-19. Enquanto minha convicção pessoal, baseada em estudos, era de que naquele momento não existe eficácia para liberar, existia um entendimento diferente do presidente, que era amparado por outros profissionais, até pelo Conselho Federal de Medicina. Isso foi o que motivou minha saída. Sem liberdade de conduzir o ministério conforme minhas convicções, decidi deixar o cargo”, disse Teich.

‘Conduta inadequada’

Durante a oitiva, Teich disse em resposta ao relator Renan Calheiros (MDB-AL) que não participou de decisões, nem foi consultado sobre a produção de cloroquina pelo Exército na sua gestão.

“Eu não participei disso, se aconteceu alguma coisa foi fora do meu conhecimento”, declarou.

Renan, que inicia os questionamentos, perguntou então se a adoção da cloroquina macula a imagem do Ministério da Saúde, Teich respondeu:

“É uma conduta que para mim era inadequada”.

O ex-ministro disse que havia uma preocupação do “uso indevido” de medicamentos, não apenas da cloroquina.

“[A cloroquina] é um medicamento que tem efeitos colaterais. Essencialmente era a preocupação do uso indevido. Isso vale nao para a cloroquina, mas para qualquer medicamento”, afirmou.

Teich disse, ainda, que a única questão que gerava discussão era a cloroquina. De acordo com ele, o seu pedido de demissão ocorreu justamente pelo pedido de ampliação do uso do medicamento contra a Covid-19. O ex-ministro avalia que, embora tenha sido um ponto específico, “isso refletia uma falta de autonomia” no Ministério da Saúde.

Teich comentou a decisão do governo de ampliar o rol de atividades essenciais sem consultá-lo. Ele, que era ministro à epoca, estava no meio da entrevista quando foi informado pela imprensa, sendo surpreendido.

“Aquilo foi uma situação ruim. Até conversei com eles depois em relação a isso. Eles até pediram desculpa em relação a isso. Aquela condução foi ruim, trouxe uma percepção ruim para todo mundo”, disse Teich.

Indicação de Pazuello

Teich disse que Eduardo Pazuello, que foi seu secretário executivo na pasta antes de se tornar ministro, foi indicado por Bolsonaro, e não por ele. Mas também disse que, apesar da inexperiência na área da saúde, Pazuello atuaria sob sua supervisão e, caso não tivesse um bom desempenho, não permaneceria no cargo.

“Naquele momento, uma coisa em que me preocupei foi de manter o que vinha sendo feito, para não parar o que era importante. Quando conversei com Pazuello, tinha referência dele no Projeto Acolhida [que atende imigrantes venezuelanos em Roraima], nos Jogos Olímpicos. Eu tinha ali um problema de execução, uma malha disponível do Exército. Ele trabalharia sob minha orientação”, disse Teich.

Renan questionou se Pazuello sabotou o trabalho de Teich. O ministro respondeu que o então secretário executivo fez o papel dele.

Renan perguntou se Teich teve autonomia para formar sua equipe de traballho.

“Sim. Pazuello entrou na Secretaria Executiva, mas as outras secretarias foram mantidas em nível técnico”, respondeu o ex-ministro.

Questionado sobre suas ações para aquisição de vacinas, Teich disse:

“No mesmo período não tinha uma vacina sendo comercializada. Ainda era o começo do processo da vacina. Foi quando trouxe a da AstraZeneca para o estudo ser feito no Brasil, na expectativa de que, trazendo o estudo, a gente tivesse uma facilidade para compra futura”.

Exército descola de Pazuello

Antes de Teich entrar na sala da comissão, o presidente Omar Aziz disse aos membros da CPI que conversou ontem com o comandante do Exército, general Paulo Sérgio, e garantiu a ele que a convocação do ex-ministro Eduardo Pazuello não significa que o Exército será alvo das investigações do colegiado. Para Aziz, é preciso ter confiança na palavra do comandante do Exército sobre o fato de que Pazuello teve contato com pessoas infectadas pelo novo coronavírus e o assunto está “sanado’.

“General Paulo Sérgio, conhecidamente um homem de respeito e trabalho, eu de forma nenhuma duvidei do que ele comunicou. E por isso não fui além disso”, afirmou Aziz.

O  senador Otto Alencar (PSD-BA) disse acreditar na versão dada pelo ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, que deixou de prestar depoimento nesta quarta-feira alegando ter tido contato com pessoas com Covid-19. Mas pediu que ele apresente testes confirmando isso.

“Eu acredito nisso piamente. Mas, por se tratar de uma CPI, o próprio ex-ministro, se desejar, pode trazer a confirmação desses testes. Ia dar um conforto ainda maior ao ex-ministro. Eu acredito nele. Mas como li na imprensa várias matérias questionando isso, ficaria confortável trazendo isso”, disse Alencar.

Agendado para falar à Comissão Parlamentar de Inquérito a partir da manhã desta quarta-feira, o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello comunicou que não vai comparecer presencialmente ao Senado. Em ofício, Pazuello afirmou que teve contato com pessoas infectadas pela Covid-19 e, por isso, não poderia ir presencialmente ao Senado esta semana.

Ele sugeriu como alternativa manter a data da sessão, mas em formato remoto, o que não foi aceito pelos membros do colegiado. O presidente da comissão,  senador Omar Aziz (PSD-AM), marcou novo depoimento para daqui a 15 dias. Desta forma, deve ficar para o dia 19 de maio.

Como mostrou O GLOBO nesta terça, o militar participou de um treinamento com assessores do Palácio do Planalto — que avaliaram que Pazuello está “muito nervoso”. O temperamento explosivo do general é uma das principais preocupações de integrantes do governo.