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6 de maio de 2021

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Bruno Pacheco – Da Revista Cenarium

MANAUS – A família de uma idosa de 71 anos, que morreu em decorrência de complicações da Covid-19, registrou um Boletim de Ocorrência (B.O.) após descobrir que ela recebeu um tratamento experimental de nebulização com hidroxicloroquina no município de Itacoatiara (a 270 quilômetros de Manaus). À REVISTA CENARIUM, familiares e amigos alegam que o medicamento, considerado ineficaz contra o novo coronavírus pela Organização Mundial de Saúde (OMS), foi usado sem a permissão deles. A idosa faleceu no dia 13 de março, mas o B.O. só foi registrado na última sexta-feira, 23.

Documentos obtidos pela REVISTA CENARIUM nessa sexta-feira, 23, mostram a prescrição médica assinada pela médica Soraia Souza do Hospital Regional José Mendes, de Itacoatiara. O tratamento com hidroxicloroquina foi realizado enquanto a idosa estava internada em Itacoatiara. Segundo familiares, o quadro de saúde dela piorou após o tratamento ineficaz.

Prescrição médica mostra tratamento com nebulização de hidroxicloquina, duas vezes ao dia, com o aparelho de respiração Bibap (Arquivo Pessoal/Reprodução)

“Ela recebeu tratamento de inalação com hidroxicloroquina, sem o nosso consentimento e isso pode ter agravado o caso dela”, contou um dos familiares, em entrevista por telefonema à reportagem. A família disse ainda que só relacionou a morte da idosa à nebulização depois de ver reportagens sobre o tratamento repercutirem nacionalmente e constatarem que ele foi realizado após verificação na cópia do prontuário médico da paciente. Um infectologista consultado pela revista explica que essa terapia realizada em Itacoatiara não é autorizada pela medicina.

A idosa foi internada no Hospital Regional José Mendes, em Itacoatiara, no início de fevereiro deste ano, no dia 6, e foi transferida em 10 de março para o Hospital Delphina Aziz, em Manaus. Três dias depois de internada, a paciente veio a óbito.

“A nebulização é contraindicada. Já teve dois casos no Amazonas que foram associados a óbito do paciente. Não existe evidência científica nenhuma do uso de hidroxicloroquina na forma de nebulização”, explicou o médico e infectologista Nelson Barbosa, em Manaus.

A vereadora do município de Itacoatiara, Andreia Mara (Avante), disse que acompanhou a família, quando a idosa foi internada no José Mendes. A causa da morte, segundo a certidão de óbito da idosa, foi por insuficiência respiratória associada às complicações da Covid-19.

REVISTA CENARIUM teve acesso exclusivo ao Boletim de Ocorrência (Arquivo Pessoal/Reprodução)

“Eu havia pedido para a filha solicitar transferência da idosa para Manaus. Ela alega que os médicos não quiseram. Tentou, tentou e no dia 10 conseguiu a transferência. A filha via a mãe toda roxa, me mandava vídeo e ficava apavorada”, disse a vereadora.

Um advogado consultado pela REVISTA CENARIUM explicou que o caso pode ser considerado como homicídio culposo, por conta do medicamento não ter a eficácia comprovada no tratamento de pacientes com Covid-19. “O tratamento com hidroxicloroquina não é recomendado pelas autoridades de saúde. Isso é homicídio, o que resta é apurar. Além do caso dela, quantos mais tiveram esse tratamento?”, questionou.

“Um prontuário com procedimentos ilegais que resultaram num óbito de pessoa idosa, por si, já é questionável e motivo mais que suficiente para o Ministério Público Federal, pelo menos, apurar, como já fez em casos paralelos recentemente”, salientou.

No mês de fevereiro deste ano, amigos e familiares chegaram a pedir ajuda financeira nas redes sociais para custear as diárias com profissionais e ainda com materiais de higiene durante o período em que a idosa estava internada, em Itacoatiara. Segundo a filha da idosa, que preferiu não se identificar com medo de represálias, a família estava pagando o valor de R$ 150 para que técnicas de enfermagem ficassem como acompanhante da mãe durante as noites no hospital.

A pedido da família, a REVISTA CENARIUM não vai exibir o rosto da idosa (Arquivo Pessoal/Reprodução)

“Pedimos apoio, ajuda. Tivemos bastante doação. Eu ficava o dia inteiro no hospital e minha irmã ficava à noite, mas ela pegou Covid-19 no Hospital e teve que ficar em casa. O meu primo, que foi para ficar comigo, pegou também, foi quando uma prima veio de Manaus e começamos a campanha para comprar frauda e medicação. Ainda não paramos para levantar quanto nós gastamos”, disse, emocionada, ao lembrar do caso.

‘Está na hora da inalação’

A nebulização clandestina com hidroxicloroquina, segundo a filha, ocorria há vários dias. “Quando estávamos no hospital, eles só diziam ‘está na hora da inalação’. Ela fazia duas ou três vezes por dia, mas eles [os médicos] nunca falaram com o que era, só falavam que tinha que fazer e que tinha que ser no Bibap [aparelho que funciona como um respirador mecânico no tratamento de doenças pulmonares]”, lembrou.

Nos últimos dias que a idosa passou no hospital itacoatiarense, continua a filha, os batimentos cardíacos da mãe estavam acelerados, com a frequência beirando entre 140 ou 160 bpm (batimentos por minuto). Ao relatar o caso para os médicos, de acordo com a filha, os profissionais comunicavam que era um batimento normal, devido a doença.

Nebulização com hidroxicloroquina é ineficaz contra a Covid-19, diz OMS (Reuters/Diego Vara/Direitos Reservados)

Em Manaus

Em Manaus, uma mulher com Covid-19 também morreu após receber tratamento experimental com nebulização de hidroxicloroquina em meados de fevereiro, dias após passar por um parto de emergência, e morreu no dia 2 de março, conforme reportagem publicada na semana passada pelo jornal Folha de S. Paulo.

A médica Michelle Chechter, que submeteu a paciente ao medicamento, foi afastada do cargo pela Secretaria de Estado de Saúde (SES-AM), que também determinou abertura de sindicância contra a profissional. O caso foi divulgado pelo jornal Folha de S. Paulo.

Covid-19

Até essa sexta-feira, 23, o município de Itacoatiara tem o total 297 óbitos confirmados por Covid-19. Desse total, 198 foram registrados somente nos quatro primeiros meses do ano. O município, assim como a capital Manaus e algumas cidades do Estado, vivenciou a crise da Covid-19 nos meses de janeiro e fevereiro de 2021.

Até essa sexta-feira, 23, segundo a Fundação de Vigilância em Saúde (FVS-AM), o Amazonas registrou o total de 366.798 casos da doença desde o começo da pandemia. Ao todo, são 12.494 o total de mortes. Dos mais de 366 mil, 167.751 são de Manaus (45,73%) e 199.047 do interior do Estado (54,27%).

Saúde

Em nota, a Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM) informou que não compactua com a prática de qualquer terapia experimental sem comprovação científica e ressaltou que vai investigar o caso. A REVISTA CENARIUM também procurou o Hospital Regional José Mendes e o Conselho Regional de Medicina (CRM-AM) para saber o posicionamento dos órgãos sobre o tratamento, mas até a publicação da reportagem, não houve resposta.