Participe do nosso grupo no Whatsapp Participe do nosso grupo no Telegram
25 de julho de 2021
Ainda não é assinante
Cenarium? Assine já!
ASSINE
image/svg+xml
Marcela Leiros – Da Revista Cenarium

MANAUS – A professora da rede pública estadual de ensino Damiana de Sousa Costa impacta a vida de seus alunos há 25 anos. Mas, aos 44 anos, graduada em pedagogia e com três pós-graduações, a professora decidiu também se tornar uma influência no emponderamento de si própria e das mulheres. Hoje, ela grava vídeos com danças e músicas que se tornaram tendências nas redes sociais e tem que lidar ainda com críticas. “São insignificantes”, disse a professora à CENARIUM.

Na casa dela, no bairro Jorge Teixeira, zona Leste da capital amazonense, ela mora com o pai e o filho caçula, de 19 anos, Damiana conta mais da trajetória como educadora e de construção da autoestima. Sentada no pátio da residência, é perceptível o quanto a professora é querida pelo vizinhos, que passam pelo local e a cumprimentam. “Oi maravilhosa!”, diz ela animada em resposta às mulheres. “Eu quero ser divisora de mares e eu quero impactar. Seja você, não se importe com as outras pessoas. Eu não vim para agradar”, disse ainda.

“Já temos mais de 300 vídeos”, diz Damiana ao usar as plataformas sociais pelo celular (Marcela Leiros/Revista Cenarium)

Lecionando Língua Portuguesa e Ensino Religioso em uma escola estadual no bairro Armando Mendes, também na zona Leste, e com especialização em Serviço Social de liderança na comunidade, linguística e psicopedagogia, Damiana ainda trabalha com Educação Especial e expressa o amor pelo ensino e trabalho na comunidade. “Eu amo o que eu faço, a escola tem que ser além da sala de aula, tem que quebrar esses muros e barreiras e envolver na comunidade”, diz ela, que também é mentora e presidente da Associação Comunitária de Amparo à Família (Acaf Leste) no bairro onde reside.

Críticas

Damiana tem 1.334 seguidores no Instagram e no TikTok – um aplicativo de mídia para criar e compartilhar vídeos curtos – são 638. A motivação para gravar os vídeos surgiu após as eleições de 2020, quando se candidatou ao cargo de vereadora. Na época, devido à pandemia, fez lives no Facebook para conversar com os comunitários e eleitores. Apesar de não ter sido eleita, o desejo de continuar a aproximação com o público permaneceu, somado à vontade de impactar positivamente na vida das mulheres. Os vídeos são gravados no quarto dela ou na cozinha (veja ao final da reportagem).

“Nas lives eu sempre dizia para as mulheres para se cuidarem, se amarem, não deixar que aquele homem que escolheu para amar, ferisse com palavras. Eu já passei por isso”, contou a professora. Na busca por uma ferramenta de gravação de vídeos, Damiana encontrou o TikTok. “Depois que acabou [a eleição] percebi que precisava continuar e fazer diferente. Fui pesquisar e achei o TikTok, achei a plataforma maravilhosa. Aí pronto, já temos mais de 300 vídeos”.

Damiana é graduada em pedagogia e possui três especializações (Marcela Leiros/Revista Cenarium)

Mas com a exposição e o sucesso surgiu também o machismo. A professora relata que recentemente tem recebido comentários maliciosos sobre os vídeos, principalmente de homens. “O último comentário foi muito audacioso, são mais homens. ‘A carência está falando alto?” e ‘está faltando homem no bairro onde você mora?’. Já as mulheres me incentivam. Os comentários maldosos foram tão insignificantes para os elogios que eu recebo”, destacou ela.

Leia na íntegra a entrevista com Damiana:

REVISTA CENARIUM – Você já foi discriminada por colegas de trabalho por gostar de dançar?

DAMIANA COSTA – Não, mas o diretor de escola me olha diferente, tem me olhado diferente, porque ele não pode opinar. Não é dentro da sala de aula, não faço isto incentivando aluno na sala de aula. É algo particular meu, mas já senti um escanteio. Quando acontece algo na escola, sou a última a saber. Um tipo de discriminação velada. E teve uma mãe que mandou um “olhinho arregalado” no meu privado. Os alunos, na pandemia, começaram a ver meus status, porque eu também post no meu status do WhatsApp. Eu sempre recebo mensagem de quem está gostando. Os rapazes e as meninas, as senhoras querendo me abraçar. “Professora, a senhora não sabe, eu perdi minha mãe e a senhora que me animava com esses vídeos”, me dizem. Eles (os alunos) me chamam para fazer TikTok, mas é diferente, porque são adolescentes. Eu estou até montando um projeto educativo, com relação a minha disciplina, com o TikTok, mas é uma dança que não pode ser sensualizada, mas que possam falar da nossa disciplina e até incentivar os outros alunos. Aí nessa escola uma professora fala que gosta do meu jeito, que eu sou autêntica.

RC – Você trabalha com alunos na faixa etária de 13 a 15 anos, e acima de 17 anos. Algum dia já a desrespeitaram?

DC – Não, inclusive na comunidade, depois que eu comecei a fazer o TikTok, continua o mesmo jeito, eles tem respeito por mim, eles passam por aqui e falam comigo, não tiram “gracinha”. Eu faço porque eu gosto de dançar, mas também precisam entender que não é porque eu estou me oferecendo, tem que olhar com a visão diferente, diferente daquilo que impuseram. Dane-se quem achar que eu vou suprir aquela expectativa.

RV – O que a motiva a ser tão autêntica?

D – Eu já sofri muito. É até delicado. Eu tive filho cedo, não tive orientações, meu pai sempre me apoiou mas não foi a voz ativa, a voz ativa era da minha mãe. Então fui obrigada a ficar com a pessoa que eu não amava, aquela situação de abuso mesmo. Tive minhas duas filhas, fugi de casa com minhas duas filhas. Minha mãe sempre dizia que “a mulher, quando casa, o marido é o pai, é tudo”. Eu vivia presa, mas nunca deixei de estudar. Pedi carona pra ir pra escola, isso que me fez forte. A partir daquele momento que eu fugi de casa, que eu tenha uma filha no colo e a outra vinha puxando pela mão, eu disse que “a partir de hoje eu quero viver, quero ser eu”. Eu sempre estive presenta na comunidade, eu gosto de estar no meio do povo. As pessoas me chamam para organizar festas. É gratificante, eu gosto disso!

RV – Por que a sociedade cobra que a mulher seja um padrão puritano para poder respeitar e isso não acontece com o homem?

D – É a falta do conhecimento, porque o analfabetismo funcional é aquele que sabe ler, mas que não busca, aquele “bitolado” nas informações da TV, aquele que vê que a novela e pensa “assim que ter que ser”. Aquela educação que foi repassada pra gente, que nossos pais receberam, dos pais que não tiveram a oportunidade que eu tive de estudar, de conhecer. Eu sou reflexo da criação da barreira, o pai das minhas filhas me maltratava, não podia falar com ninguém. Eu ia para escola, ele me deixava na escola, mas não podia falar com ninguém. Infelizmente é o reflexo do que nós vemos hoje. Se os nossos governantes investissem na educação, mas não em projetos de faz de conta, mas em educação que liberta… Foi por isso que eu entrei na politica, para fazer a diferença. Tirar esses muros e essas barreira, principalmente entre nos mulheres.

RV – Qual a mensagem que você deixa para as pessoas, principalmente para as mulheres?

D – A gente tem que ter coragem para assumir o controle de dizer não, “eu não quero viver como vocês pensam e desejam”. Hoje eu recebi essa mensagem de uma professora, que dizia “obrigada Dam, sua alegria e leveza é bem-vinda nesses tempos sombrios do nosso País.” Tem um pensamento que eu gostei demais também: “Se você soubesse o quão rápido vão te esquecer quando você morrer, não estaria deixando de fazer tanta coisa com medo do que vão pensar.” Com essa pandemia infelizmente a gente perdeu muitas pessoas queridas, e a gente percebe. É aquele chororô e depois esquecem. E você vai ser lembrado quando fizer algo que marque alguém, por exemplo, “poxa, se a Damiana estivesse viva estaria fazendo aqueles vídeos que me distraia”.

RV – Já se sente realizada? O que deseja fazer ainda?

D – Profissionalmente eu quero muito mais, eu quero chegar no Doutorado, quem sabe até em PHD e no futuro fazer minha biografia. Eu não quero ser exemplo de vida, para fazer o que eu faço, mas de motivação para as mulheres, principalmente. Para a nossa geração, os nossos adolescentes, meninos e meninas. Que os meninos cresçam para não maltratar as mulheres, que vivam esse amor de verdade, o diálogo, o companheirismo. Na comunidade eu quero uma creche, mas uma creche que tenha tudo, todo tipo de projeto educativo, brinquedoteca, que seja bilíngue, que a nossas crianças cresçam mesmo estando num lugar tão difícil quando o Jorge Teixeira, o “Jorge Texas”. E uma escola que tenha inclusão, que faça verdadeiramente a inclusão. Tem professor que até quer ajudar, mas não sabe libras, não sabe nada de autismo. Eu busco compreender meu aluno, porque por meio da compressão eu vou ser uma profissional melhor na vida dele.

Assista ao vídeo da professora

Damiana grava os vídeos no quarto ou cozinha da residência (Reprodução/Instagram)