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16 de setembro de 2021
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Marcela Leiros – Da Revista Cenarium

MANAUS – Um vídeo de trabalhadores rurais do Povoado Boião, em São Benedito do Rio Preto, no Maranhão, enfrentando a destruição do território tradicional onde vivem, mostra a luta dos trabalhadores no combate ao agronegócio na região. Nas imagens é possível notar o uso do “correntão”, uma técnica de desmatamento que possibilita a retirada da vegetação nativa, por meio da utilização de correntes presas a tratores.

O vídeo teria sido gravado na quinta-feira, 29, e exibe uma prática recorrente de sojicultores na região rural do Estado maranhense, que invadem áreas onde vivem estas comunidades. No local, vivem 23 famílias sobrevivendo com recursos naturais como caça, pesca e plantações.

De acordo com o coordenador de pastoral da Diocese de Brejo e coordenador do projeto de assessoria rural, que dá assessoria a comunidades tradicionais, padre Chagas, o impedimento à ação dos sojicultores é baseada no entendimento de que, mesmo com licença ambiental expedida pela Secretaria de Meio Ambiente (Sema), sem ordem judicial não há autorização para a exploração da área em posse dos trabalhadores.

“Os trabalhadores não reconhecem o sojicultor como dono da área. A terra para eles não é terra para lucro, é terra de onde eles extraem o fruto nativo, juçara, buriti, onde criam o porco, bode, tudo solto. Isso é o modo de vidas deles e eles não ligam para documento, mas eles têm a posse”, completou o padre Chagas.

A ação dos trabalhadores rurais contou com a ajuda da polícia. Ainda segundo o coordenador da Diocese de Brejo, os sojicultores retornaram à comunidade nesse sábado, 31, com dois tratores na tentativa de iniciar novamente a exploração, ação impedida mais um vez pelos agricultores e polícia.

Veja o vídeo:
Trabalhadores rurais enfrentam agronegócio no Maranhão (Reprodução/Instagram)

Extensão do agro

A Diocese abrange a região formada por áreas majoritariamente de cerrado nos Estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, conhecidas sob o acrônimo Matopiba, que sofrem com a expansão do agronegócio. Esses conflitos na região são permanentes e a preocupação são os impactos gerados a partir das ações dos sojicultores.

“A primeira prática deles é legalizar as terras, eles fazem grilagem, tem muita terra solta onde moram comunidades tradicionais, terras de pequenos proprietários. Depois eles pegam a licença ambiental com a Sema, mas o governo do Estado não faz um estudo da área. A Sema dá a licença sem fazer um estudo da área para saber quem mora ali e o impacto que vai ter na comunidade tradicional, onde tem extrativismo, onde moram famílias há mais de 100 anos”, reforçou o padre Chagas.

Após a derrubada da vegetação – que destrói o habitat de espécies como o juritis, nambus, jacus, siricoras, tatus, veados, raposa, cutia, os agricultores plantam a soja e então iniciam a pulverização de agrotóxicos via aérea e terrestre, que atinge diretamente os povoados e comunidades.

Ainda de acordo com o coordenador da Diocese, os próximos passos são orientar os moradores do povoado a tomarem medidas jurídicas e se mobilizarem de forma a resistir e não deixar o agronegócio avançar na região. “A nossa orientação é que façam uma ocorrência na delegacia de polícia dizendo que o sojicultor está entrando em uma área que não pertence a ele, já pedi que a Secretaria de Agricultura [de São Benedito do Rio Preto] fosse acompanhar, aí eles decidem de que forma vão resistir”, disse ele.

Veja como funciona o “correntão”: