Participe do nosso grupo no Whatsapp Participe do nosso grupo no Telegram
16 de setembro de 2021
Ainda não é assinante
Cenarium? Assine já!
ASSINE
image/svg+xml
Priscilla Peixoto – Da Cenarium

MANAUS – A primeira edição do estudo Sustentabilidade Racial: Dados e estatísticas sobre a população negra no Brasil, divulgada neste mês de setembro, reforça mais uma vez que os negros, de fato, ainda são minoria em vários âmbitos da sociedade. Desta vez o levantamento aponta que, no Brasil, a população negra é minoria nos cargos do setor publicitário e recebem um salário inferior aos recebidos pelos brancos.

Segundo o levantamento, se comparadas as remunerações recebidas por profissionais negros e brancos que atuam em cargos de liderança, por exemplo, o negro recebe, em média, 54,3% menos que uma pessoa branca na mesma função. Os cálculos foram realizados a partir dos dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), do Ministério da Economia (ME), e pretende dar visibilidade às questões sobre desigualdades raciais.

O pesquisador do Núcleo de Estudos Raciais do Ensino Superior em Negócios, Direito e Engenharia (Insper) e coautor da pesquisa, Michael França, afirma que há uma intenção em mudar essa realidade. “O Ministério Público do Trabalho desenvolve um projeto para mudar o cenário atual, e por ser o setor responsável pela criação e reprodução de diversos estereótipos raciais e de gênero”, declarou Michael França.

Intencionalidade

Na leitura do sociólogo da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) Luíz Antônio, pesquisas como estas revelam que há uma certa intencionalidade voltada à política de valorização, que garante privilégios para os brancos e reproduz a exclusão do trabalhador negro. “Não dá para dizer que um setor tão sofisticado quanto o da publicidade brasileira não saiba o que significa o racismo”, repreende o sociólogo.

“Essa diferença só revela que há uma intencionalidade, que alegam ser política de valorização. Mas veja bem, aquele jovem que terminou a faculdade com muita dificuldade e não conseguiu ter uma bolsa de iniciação científica ou um estágio, na hora da política de formação de salários, não vai apresentar elementos agregadores. Com isso, a empresa usa isso como estratégia para justificar uma lógica perversa e reproduz a exclusão”, explica Luíz.

Mulheres negras já chegaram a receber 45% da remuneração de um homem branco (Getty Images/Reprodução)

Ciclos viciosos

A reprodução dessa prática dentro das corporações, segundo Antônio, gera o que ele intitula de um ciclo vicioso. Fator que desencadeia uma série de dificuldades relacionadas ao convívio e dignidade familiar. “Esse trabalhador negro que chega a ter salários 50% menores do que os colegas, terá dificuldades para sustentar, defender e proteger seus filhos, que por sua vez terão dificuldade para ascender pela educação, um processo de ciclos viciosos”, pontua.

O especialista relembra que a sociedade foi forjada no racismo, presente em constantes episódios de exclusões, desfavorecimento e falta de prestígio da população negra. Ele ressalta ainda que a libertação dos escravos no Brasil não pôs fim ao racismo, tampouco às condições e situações já conhecidas por essa parcela da população.

“Só para vocês entenderem, até o final dos anos 1960 as universidades públicas possuíam sistemas de cotas para filhos de fazendeiros. Até os anos 1930, os negros eram proibidos de estudar. Então toda essa questão do racismo no país não se deu só de maneira contundente e explícita pelo escravismo, mas precisamos considerar que a sociedade como um todo e todas as suas instituições se forjaram no racismo a universidade, o judiciário, a medicina entre outras áreas como a publicidade e propaganda”, conta Luíz.

Até os anos 1930, os negros eram proibidos de estudar (Reprodução/Pixabay)

Sem regras para cor

Há 15 anos atuando no mercado, o publicitário Breno Maciel, proprietário de uma empresa de publicidade da capital, diz que recebeu com surpresa os dados publicados pelo o estudo. Negro e experiente na área, o profissional conta que a empresa dele busca qualificação e competência. Maciel diz que as diferenças reais de salários são devido à experiência dos profissionais, classificados como juniores, sênior e premium.

“Em mais de 15 anos de carreira, eu nunca passei por uma situação de racismo que levasse a um salário menor. Em Manaus e nas agências de fora também nunca vi. Fiquei bem surpreso com essa notícia”, diz o publicitário Breno Maciel.

Atualmente com 68 funcionários, o empresário conta que a companhia abriga uma diversidade de perfis e que não compactua com iniciativas que integrem a lista deste tipo desigualdade. “Temos gordos, altos, baixos, negros, gays, homens, mulheres. É muita gente e pra ser mais exato, a prova que aqui não existe isso, é que na hora de contratarmos, pedimos o currículo e portfólio, nem foto exigimos, já começa por ai”, conta Breno

Breno Maciel já atua há mais de 15 anos no mercado publicitário (Reprodução/arquivo pessoal)

Dados

Ainda sobre o estudo, as informações dão conta de que em cargos mais baixos o valor chega a 68,7% do salário de uma pessoa branca. Quando se trata das mulheres negras, no ano de 2017, por exemplo, um dos mais críticos apresentando piora em relação ao problema, o recebido por elas chegou a 45% da remuneração de um homem branco.

O levantamento frisa que entre 2006 e 2010 houve uma redução dessa desigualdade salarial de forma relevante, uma remuneração média de 53,7% em relação aos salários dispensados aos homens brancos. O acesso completo à pesquisa pode ser realizado no site da iniciativa.