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6 de dezembro de 2021
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Bruno Pacheco – Da Cenarium

MANAUS – Há 29 anos, em 25 de julho de 1992, era instituído o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, no I Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-Caribenhas, em Santo Domingos, na República Dominicana. A data busca combater o racismo, machismo e as opressões de raça e gênero, além propor a capacitação e mobilizar mulheres negras sobre o tema.

Para a quilombola Rafaela Fonseca, da Comunidade do Barranco de São Benedito em Manaus, a data mostra uma importante contribuição de mulheres negras em questões sociais no combate ao preconceito e que precisam ser diariamente debatidos pela sociedade, pois, segundo ela, mesmo após quase três décadas de luta e resistência, o racismo ainda continua existindo e é estrutural e, com a pandemia da Covid-19, o crime de racismo passou a ser mais comum.

“O racismo continua. Agora, me dá até medo, porque antes as pessoas diziam que ‘não eram preconceituosas’ ou ‘o racismo não existe’ e, com a pandemia, ele mostrou o que era óbvio para nós pretos e pretas: que ele sempre existiu e nunca saiu das nossas vidas. Nessa atual conjuntura em que está, muitas pessoas se mostraram que são racistas. Esse racismo estrutural precisa ser trabalhado e muito para que a gente possa existir”, destacou a quilombola.

Rafaela é quilombola da Comunidade do Barranco de São Benedito (Arquivo Pessoal/Reprodução)

Para Rafaela, as mulheres negras são sinônimo de resistência, pois elas precisam estar a todo o momento lutando contra o racismo e o preconceito para ocupar espaço na sociedade, seja nas universidades, no trabalho ou na política.

“Como diz a autora Angela Davis, quando nós nos mexemos lá na estrutura da pirâmide, em que estamos lá embaixo. A gente se movimenta, toda essa estrutura também se movimenta conosco. Nós temos que estar todo o tempo lutando contra o racismo e preconceito. Para que a gente consiga um espaço, a gente tem que estar estudando e lutando, porque nós somos resistência”, destacou a quilombola.

Direitos

De acordo com dados de 2018 da pesquisa “Estatísticas de gênero”, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), embora as mulheres estudem por mais dois anos que os homens, o recorte racial mostra que ainda há uma grande desigualdade entre brancas e negras. Segundo o estudo, apenas 10,4% das mulheres pretas ou pardas têm ensino superior completo, enquanto que brancas são 23,5%.

A quilombola Rafaela Fonseca destaca que o fator primordial para esses dados do IBGE são a necessidade de estar trabalhando para o sustento próprio sustento diário e o da família. “Muitas não conseguem [estudar], porque têm que sustentar seus filhos, botar de comer e beber dentro da sua casa, não tem possibilidade de estar dentro da sala de aula. Para muitas, tem vários fatores que fazem com que elas não consigam estar presentes nesses espaços”, pontuou.

Rafaela frisa que temas como o direito à faculdade, educação, políticas públicas, à saúde e à vida precisam ser mais debatidos amplamente, assim como questões trabalhistas e a dificuldade para mulheres negras conseguirem emprego ao disputarem com mulheres brancas. “As balas que nos atravessam têm o corpo certo. São várias questões sociais que devem ser trabalhadas”, reforçou.

“Acredito que, para a gente conseguir entrar nesses espaços institucionais, para que a gente consiga estar e ter uma faculdade, temos que ter políticas públicas voltadas para a população e que as universidades deem essa chance das políticas afirmativas, que elas existam. Muitas universidades são elitistas e não são feitas para pessoas pretas, mas para pessoas brancas ocuparem. Tudo isso é uma questão da cultura educacional que privilegia homens e mulheres brancos”, concluiu Rafaela.

Encontro virtual

Para debater sobre o tema, acontece neste domingo, 25, a Plenária das Mulheres Negras, no 3º Encontro das Mulheres Negras, Afro-Ameríndias, Latino-americanas e Caribenhas 2021, em Manaus, no Amazonas. Como forma de evitar aglomeração e a propagação da Covid-19, o encontro será realizado virtualmente, na página “Semana Mulheres Negras Manaus“, no Facebook.

O evento contará com a participação ativistas e representantes do movimento negro no Estado, como a quilombola Rafaela Fonseca, a ativista cultural e do movimento negro Michelle Andrews, a enfermeira e ativista indígena Vanda Ortega, a professora Marklize Siqueira, do Psol, a ativista materna e estudante de direito, Alessandrine Silva, além de Priscila Carvalho, Elisa Maia, Karen Francis, Keila Sankofa, Zanza Almeida e Keilah Fonsceca.