22 de janeiro de 2021

Bruno Pacheco – Da Revista Cenarium

MANAUS – “A última conversa que tivemos com ele foi quando meu filho fez uma videochamada. Ele quase não falava, porque ele dizia que estava muito cansado. E eu disse para ele que iria ficar tudo bem, que ele iria voltar para casa e que íamos ainda curtir muito [a vida] juntos. É difícil falar, porque perdemos alguém assim, de uma hora para outra, e ele não tinha problemas [comorbidade] nenhum”.

O relato é da aposentada Ana Amélia Neves sobre o marido Antônio Neves, que morreu no dia 10 de maio de 2020, aos 69 anos, em decorrência das complicações da pandemia da Covid-19, doença que já deixou milhares de vítimas por todo o País. Segundo o Ministério da Saúde, até esta quinta-feira, 26, o novo Coronavírus já matou mais de 170 mil pessoas no Brasil, que tem mais de 6,16 milhões de casos acumulados.

Somente no Amazonas, de acordo com a Fundação de Vigilância em Saúde (FVS-AM), são 175.298 casos confirmados da doença até esta quarta-feira, 25, sendo 69.453 de Manaus (39,62%) e 105.845 do interior (60,38%). O Estado também acumula o total de 4.826 mortes, sendo 3.073 na capital e 1.753 no interior amazonense.

Durante o pico da pandemia, a Prefeitura de Manaus precisou usar valas comuns, feitas para enterrar vítimas da Covid-19, que naquela época viu um ‘boom’ de sepultamentos, que triplicaram e chegaram a 82 por dia, em meio ao sistema público de saúde que entrou em colapso na época.

‘Ele dizia que estava estável’

À REVISTA CENARIUM, familiares relataram perdas de entes queridos para Covid-19 e lembraram momentos vivenciados durante o ápice da pandemia. Para Ana Amélia, a doença foi um período difícil da família, que começou no marido com uma febre de uma semana, mas cujo quadro de saúde agravou-se ao longo dos dias.

Ana Amélia ao lado do marido Antônio (Arquivo)

“A doença foi difícil. Começou com uma febre de uma semana, e ele [o marido] dizia para não levá-lo [ao hospital], somente se sentisse falta de ar. Quando foi dia 26 [de abril], pedi para minha filha levá-lo ao hospital, pois ele já não estava bem, porque já não falava mais direito com a gente. Levamos ele para [o hospital] Santa Júlia, onde ficou por 14 dias, sendo três dias no apartamento e o resto na UTI, entubado. Ele dizia que estava estável, mas no dia 10 de maio, ele morreu às 0h40. De manhã, ligaram para gente dizendo que ele tinha falecido”, relatou.

Segundo a aposentada, o marido não tinha comorbidades que pudessem agravar os sintomas da Covid-19. “Não tinha diabete, pressão alta e mesmo assim ele faleceu”, disse. “Sentimos muito, porque não tivemos o tempo de conversar”, completou.

Com o Governo do Amazonas voltando a flexibilizar o horário de funcionamento de bares e casas de show no Estado, Ana Amélia alertou sobre o risco de contágio do novo Coronavírus e pediu para que a população mantenha os cuidados e previnam-se.

“O coronavírus existe e não acabou. Temos sempre que nos cuidar, porque as pessoas acham que é normal se aglomerar. O vírus continua circulando e as pessoas precisam se cuidar, têm que usar máscaras e cumprir todos os protocolos de saúde”, pediu.

‘Era um cara alegre’

O estudante universitário Jorge Cohen Filho, 26, que perdeu o pai, o produtor e videomaker Jorge Mário Cohen, 56, por complicações da Covid-19, disse à REVISTA CENARIUM que nunca imaginava que chegaria a perder alguém próximo para a doença e que o novo Coronavírus não é brincadeira. Segundo o jovem, a última conversa que teve com o pai ocorreu dois dias antes dele ser internado.

“Meu pai era um cara muito alegre e cheio de histórias, sinto muita falta dos seus conselhos e das suas piadas. Todos sabem que essa doença não é brincadeira e as pessoas têm que tomar mais cuidado, porque quanto menos espera ela leva alguém da sua família”, contou à CENARIUM.

Nas redes sociais, o estudante publicou uma mensagem ao pai. “Meu amigo, meu parceiro, meu pai… obrigado por todos os ensinamentos que o senhor me passou e por todo o samba que me fez cantar. Quero que saiba que pode descansar em paz e deixar tudo comigo… vou sentir muito sua falta. Eu nunca vou esquecer sua risada, eu nunca vou esquecer nenhuma palavra. Eu lhe amo!”, escreveu.

(Reprodução)

Jorge Mário Cohen ficou internado no Hospital Regional do Baixo Amazonas durante um período de cerca de um mês, entre 17 de junho e 20 julho deste ano. Referência na área da comunicação em Santarém, no Pará, o repórter cinematográfico começou jovem atuando na área servindo café na 1a. emissora de televisão do Oeste do Pará (TV Tapajós/Globo), no final dos anos 1970.

Como videomaker, passou a trabalhar em marketing empresarial e político, a partir dos anos 1990, sendo responsável, também, pela instalação técnica de três emissoras de televisão de Santarém: TV Santarém/Band (atual RBA Santarém), TV Ponta Negra/SBT e TV Encontro/Rede Nazaré.

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