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23 de junho de 2021
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Iury Lima – Da Revista Cenarium

VILHENA (RO) – Costa Marques, uma pequena e pacata cidade do interior de Rondônia, localizada na fronteira do Brasil com a Bolívia, tem quase 19 mil habitantes e, pelo segundo ano, vai ficar sem a Festa do Divino Espírito Santo, a maior tradição religiosa em razão da pandemia de Covid-19. Em 2021, os fiéis podem matar a saudade por meio do documentário “O Divino Guaporé”, lançado no final de maio e agora disponível no YouTube.

A cidade que fica a 714 quilômetros da capital Porto Velho é lar do atual imperador do festejo de origem portuguesa, que alimenta a fé católica. O ritual sagrado funciona por meio da passagem de uma romaria fluvial que percorre diversas comunidades ribeirinhas do Brasil e da Bolívia e sempre passa pelo porto da cidade, de onde é possível ver, do outro lado do rio Guaporé, o vilarejo boliviano de Buena Vista.

Divino Espírito Santo

Importante para as comunidades ribeirinhas, quilombolas, bolivianos e indígenas, a tradição do Culto ao Divino chegou ao território do País com os colonizadores portugueses e se popularizou entre os escravos. Na região do Vale do Guaporé, o festejo percorre em 40 comunidades entre os dois países, numa peregrinação de 40 dias, somando quase 130 anos de legado. 

A festa sempre culmina num grande banquete, aberto para toda a população presente, uma responsabilidade do imperador ou da imperatriz do evento. A cada nova edição, são sorteados seus sucessores além dos novos Capitão de Mastro e  Alferes a Bandeira, os quatro principais personagens da tradição. É sempre na comunidade dos imperadores que a nova festa acontece, já, onde não há nenhum desses sujeitos, a romaria apenas passa e segue rumo à próxima comunidade.

Documentário

Com filmagens feitas em 2019, “O Divino Guaporé” é uma produção contemplada com recursos da Lei Federal Aldir Blanc, criada para fomentar a produção cultural, além de contar com o apoio da Superintendência Estadual da Juventude, Cultura, Esporte e Lazer (Sejucel) de Rondônia.

O filme conta a história da festa com relatos de moradores dos dois lados do Rio Guaporé, ex-imperadores e diversos outros personagens que expressam a importância do evento para a identidade cultural da cidade, do Estado e do Vale do Guaporé, além da própria satisfação pessoal.

Romaria do Divino Espírito Santo em Costa Marques (RO) antes da pandemia de Covid-19. (Esio Mendes/Reprodução)

Preparativos

Esta não seria a primeira vez que Costa Marques daria lugar ao ponto central da celebração. Quando isso acontece, dezenas de fiéis da Igreja Católica se organizam para os preparativos do banquete na casa do imperador, que além de comida a todos,  também deve ceder estadia e condições de seguir com a festa para quem vier de fora da cidade e não tiver onde ficar.

No longa-metragem, o historiador da Universidade Federal de Rondônia (Unir), Marco Teixeira, avalia que esse é o senso humanitário da festa, pois todos são bem-vindos e aceitos independentemente de qualquer que seja a circunstância. “A grande honra dos festeiros é alimentar os devotos e romeiros. Você pode ir desprovido de dinheiro”, explica. 

Planos para 2022

Larrisa Fábia, de 16 anos, sobrinha do atual imperador do festejo em Costa Marques, Antônio Sobreira, conta que a pandemia atrasou a festa que ocorreria na cidade em 2020. A jovem diz que o ritual representa sua tradição e fé, o legado que é passado em família, geração após geração. “Desde quando nasci, eu aprendi assim”, declara.

“Seria uma grande festa e neste ano cancelamos também por conta disso tudo que ainda não passou. Tinha tudo para ser enorme. Já tínhamos barracão e tudo preparado. Meu tio já estava delegando até as funções de cada um”, explica Larissa, que participa desde criança do festejo. 

Larissa Fábia, de 16 anos, aprendeu sobre a tradição com a família desde pequena. (Reprodução/Arquivo pessoal)

Quem também lamentou o cancelamento foi o autônomo Valdemir Arriates, de 43 anos. Em 2001, foi o grande anfitrião, na posição de Imperador da Festa do Divino. Ele é uma das centenas de pessoas que relatam milagres e maravilhas recebidas por meio da passagem da romaria. “Tive um câncer em 2015 e minha mãe fez uma das promessas com o Divino para restaurar minha saúde. Graças a Deus, o pedido foi atendido e tive alta em 2020. Tenho vários milagres por intermédio dos Símbolos”, conta. 

Valdemir comemora a cura de um câncer por meio da fé no Divino Espírito Santo. (Reprodução/Arquivoi pessoal)

“A tradição representa a fé por meio dos símbolos e tem uma grande história de paz e de confiança. Na minha vida,  representa a força, fé, esperança e luz divina para sempre. Ela nos lembra das promessas de Deus e a vinda do Espírito, fala de uma nova geração onde o amor reina mais alto. Se Deus abençoar, em 2022 serão realizadas a caminhada e a festa aqui em Costa Marques”, ressalta o fiel.

Calendário cultural

A Festividade da romaria fluvial passou a fazer parte do calendário oficial do Estado em 2020, após a realização de um estudo em conjunto com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e historiadores da Sejucel. Nessa etapa, foram considerados critérios como a grande relevância da tradição no âmbito cultural em Rondônia e no País.

Milhares de fiéis chegam ao evento com preces e pedidos de milagres. (Esio Mendes/Reprodução)

“O fato da Festa do Divino entrar no calendário oficial das atividades culturais do Estado significa que sua realização passa a ter apoio governamental, sinalizando que a atual gestão, além de valorizar essa relevante marca constituinte da identidade rondoniense e do povo brasileiro, estará resgatando uma dívida histórica para com esses cidadãos, que sempre estiveram às margens das políticas públicas e, ainda assim, asseguram a paz na fronteira do Brasil com a Bolívia. Podemos dizer assim que se trata de um evento internacional”, disse o superintendente da Sejucel Jobson Bandeira.