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19 de outubro de 2021
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Nesses dias assisti a um filme russo chamado “Cidade de gelo”. Acho que é este o título. Na verdade, o título diz muito pouco ou quase nada sobre o filme. É apenas revelador do cenário onde se passa a trama, São Petersburgo, no rigorosíssimo inverno da Rússia. Não faço ideia se o título original é tão vago quanto a escolha do tradutor para a língua portuguesa.

Só sei que o filme narra a história de um proletário, filho de um acendedor de lampiões, que à época, na passagem do século XIX para o século XX, é entregador, o que hoje corresponderia a essa gente explorada pelos Uber eats da vida. Acontece que, por acidente, ele se envolve com a filha de um aristocrata. A mocinha, por sua vez, cultiva uma rebeldia inaceitável para uma mulher à época: é apaixonada pelos estudos de química e uma leitora voraz, gosto e prazer reservados apenas aos machos.

Certo dia, se a memória não me trai, ela foge para uma noitada de diversão num descontraído ambiente plebeu. Acompanhada do jovem entregador de refeições, que naquelas alturas já havia perdido o emprego e se enturmara com um grupo de batedores de carteira, ela conhece o sabor da liberdade e da alegria, distante dos ditames do pai e da mãe, que já tratam de lhe arrumar um marido. Mais detalhes sobre o filme não importam. Importa que naquela noite ela ganha de presente um exemplar de O capital, de Karl Max.

 No dia seguinte ela é flagrada com o livro em mãos pelo seu pai. Tenta disfarçar, mas não tem jeito. O pai lhe arranca o livro e fica alarmado e indignado com o acinte da filha. Lá pelas tantas, ele chama um criado e lhe ordena que recolha todos os livros no quarto da mocinha e os queime na lareira. Enquanto o carrasco recolhe as vítimas para o crematório, ela tenta ainda um último apelo para dissuadir o pai daquele crime horrendo:

     – Mas são apenas livros!

     No que ele lhe responde com contundência, olhando nos olhos da filha:

     – Você não sabe como eles são perigosos!

De fato, a cultura e, particularmente o livro, sempre foram vistos como perigosos. Sempre representaram e representam uma ameaça. Das tantas leituras que tenho e da memória que me acode, não tenho conhecimento de nenhum regime de força que, para se manter no poder, tenha contemporizado com a cultura e a liberdade da leitura. Tanto que o primeiríssimo mecanismo de defesa de regimes fascistas e totalitários é sempre a censura, ostensiva ou em seus mais variados disfarces.

     Pode haver maior estímulo à leitura do que essa constatação?

     Portanto leia muito!

     Leia sempre!

     Leia apaixonadamente!

(*) Odenildo Sena é linguista, com mestrado e doutorado em Linguística Aplicada e tem interesses nas áreas do discurso e da produção escrita.

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