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18 de janeiro de 2022
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Priscilla Peixoto – Da Revista Cenarium

MANAUS – O que você vai ser quando crescer? Qual foi o adulto que nunca perguntou isso para uma criança ou a criança que nunca ouviu essa pergunta em algum momento na infância. Esse questionamento, aparentemente inocente, pode não ser tão bobo e simples quanto parece. Segundo o professor de psicologia da Universidade da Flórida e especializado no estudo da vocação dos seres humanos, Ryan Duffy, a indagação feita aos pequenos pode ter efeito contrário.

Em uma entrevista cedida à BBC Mundo, o professor avalia que a pergunta e a atitude é um tanto quanto limitante. “A resposta a essa pergunta para as crianças quase sempre se limita a algumas carreiras sobre as quais elas tenham algum conhecimento. “Acho que se as crianças aspiram a essas carreiras e depois a maioria acaba seguindo outra coisa, isso pode levar à insatisfação”, afirma Ryan.

Diante da afirmação do estudioso, é quase impossível se deparar com outras perguntas. Não se pode mais perguntar sobre o assunto ou indagar sobre o futuro com as crianças? Como mudar este hábito? Qual a postura correta? Para a psicóloga, orientadora vocacional e coach, Laís Soares, o caminho é a troca de ideias com o filhos, sobrinhos ou qualquer criança próxima sem questionar de maneira não tão direta, mas buscando conhecer mais os pequenos.

“Fazendo essa retrospectiva e olhando com mais atenção para a geração de hoje, pode-se abrir um caminho para um diálogo mais empático com as crianças de hoje, que dificilmente não exercerão as mesmas profissões dos pais e avós daqui a 10-15 anos. A melhor alternativa são os pais e as pessoas próximas à criança conhecerem a própria história”, explica a profissional.

Quem quero ser X o que quero ser

Para o psicólogo Afonso Brasil, foram construídos alguns valores da sociedade que preconizam determinadas ansiedades no indivíduo. Ao fazer a pergunta “o que você quer ser quando crescer?”, induz a criança para uma resposta na qual ela ainda não tem maturidade suficiente para responder. Ele explica que o “central da vida” não é sobre tentar descobrir o que se quer ser e sim focar em quem queremos ser.

“Isso está no campo das hipóteses, no campo ’em construção’. A proposta é focar em quem queremos ser, falo da instituição família, escola, sociedade para que a gente se foque, sobretudo, em tentar fazer que essas crianças se construam, enquanto pessoas boas que entendem, que assimilam valores corretamente e foquem mais no quem quer ser ao invés do que quero ser”, explica o psicólogo.

Vocação e felicidade

Ainda na entrevista para BBC, Duffy afirma que a relação entre ter uma vocação e a felicidade é “basicamente nula”, vale ressaltar que o professor atua em diversas pesquisas neste sentido. Ele, inclusive, atenta para estudos que mostram a possibilidade da vocação mal colocada em prática pode ser uma porta para um menor índice de felicidade.

“Se você tem uma vocação, mas não é realmente capaz de realizá-la, isso pode levá-lo a se sentir mais insatisfeito, de forma que seria quase melhor se você não tivesse essa vocação. “Então, para algumas pessoas, pode resultar em menos felicidade”, pontua o Duffy.

Na ótica da coach Laís, embora a vocação ainda seja vista como um chamamento divino, ela pode ser trabalhada com o auxílio da própria história pessoal. É necessário olhar para as aptidões, talentos, interesses desde a infância. “Não dá mais para negar que vivemos numa era muito mais avançada e exigente, significando que o ‘encontro’ da vocação não acontece de forma estática, mas no caminhar”, relata a psicóloga.

Relação de espelho e ressignificação

Ele afirma que as relações das crianças com os adultos é uma relação de espelho, por isso ofertar valores que constroem um bom ser humano é o que realmente importa, além de repensar posturas e atitudes tidas como inocentes.

“Enquanto nos ocupamos dando profissões às crianças, almejando status e até valores econômicos, seria mais interessante repensar a essência dessas perguntas para que a gente ressignifique esses questionamentos e posturas. Se olharmos para nossa geração e a forma como nós condicionados a buscar um futuro de ponta e o quanto isso é importante e o quanto isso adoeceu nossa sociedade, muita depressão, crise de ansiedade. É mais importante a criança ser feliz e não questionar, pois pode ter o efeito oposto do que realmente queremos que ela tenha que é espaço de liberdade para que ela se desenvolva”, finaliza.