26 de fevereiro de 2021

Já tem algum tempo que eu quero falar sobre esse tema. Nos meus artigos
anteriores falei esporadicamente, afinal o trabalho doméstico está enraizado na nossa cultura patriarcal e machista. O casamento é um ótimo negócio para os homens, é um sistema que os beneficia, lhes dá qualidade de vida, eles podem seguir suas carreiras e investir nisso, eles passam a ganhar mais, a viver mais, mas para que isso aconteça mulheres se sacrificam, se doam, se anulam, abrem mão de suas vidas e de sua própria felicidade.

Eu desconheço uma instituição mais opressora do que o casamento. O casamento diminui o poder aquisitivo das mulheres, diminui sua expectativa de vida, aumenta o risco de abuso e violência, além da mulher ficar propensa a adquirir depressão e ansiedade. Isso são dados científicos, há pesquisas também que comprovam o que eu falo, não é apenas achismo de uma feminista.

Se todas as mulheres buscassem entender a origem do casamento, se pesquisassem a respeito, acho que elas pensariam mil vezes em aceitar o matrimônio. A origem do casamento nunca, jamais foi sobre amor. Sempre representou contratos de aquisição desde que foi instituído. Mulheres eram adquiridas por meio de dotes, era sobre a perpetuação dos nomes, sobre acordos políticos e procriação entre outras coisas, mas nunca foi sobre amor.

O casamento sempre esteve ligado à estabilidade social e econômica e nunca foi sobre sentimentos. Só que para isso ocorrer mulheres sempre foram usadas e anuladas, só assim esse sistema patriarcal e machista poderia funcionar. Será que nos dias atuais muita coisa mudou? Eu acho que não. Se as mulheres pudessem ter acesso aos processos envolvendo divórcios, veriam o quanto esse sistema foi feito e legislado para beneficiar os homens, é cruel demais.

Na época do estágio da faculdade, presenciei várias situações que me deixaram perplexa do quanto as mulheres são descartadas pelo sistema jurídico num processo de divórcio ou separação. Eu tive que falar a respeito do casamento para depois abordar o trabalho doméstico, é impossível dissolvê-los.

Bom, é claro que é possível ter um casamento igualitário e feliz, mas antes as mulheres precisam entender as circunstâncias materiais e objetivas que
envolvem o casamento, assim elas poderiam escolher por livre e espontânea vontade se gostariam de fazer parte desse sistema, e tenho certeza que nenhuma concordaria em se tornar parte disso. A nossa sociedade patriarcalista romantiza o casamento, desde criança enfiam
em nossas cabeças que só seremos completas e felizes se nos casarmos.

Nos é ensinado que a nossa felicidade está diretamente ligada à figura de um homem, e isso se torna uma avalanche de frustrações e decepções na vida dessas mulheres; Essa ideia é perpetuada e assimilada até mesmo pelas mulheres de nossas famílias que já se arrependeram do matrimônio. Para você ver como isso é algo impregnado na mente das mulheres.

Eu até já falei em outros artigos que essa ideia compulsória do casamento também está ligada diretamente à violência doméstica e ao feminicídio. Sim, está. Por causa dessa socialização mulheres se mantém em relações
fracassadas, acham que é seu dever mudar o comportamento agressivo de seu parceiro, ou acham que devem continuar numa relação decadente por que esse é o seu papel, afinal assim lhes foi ensinado.

Já disse e vou repetir que isso não é apenas a minha opinião, há muitos dados científicos provando que o casamento é ótimo para os homens e ruim para as mulheres. O trabalho doméstico anula as mulheres pelo mundo. Ele é construído pela doutrinação patriarcal como cuidado, como amor. Não caiam nessa pelo amor de Deus. Trabalho doméstico nada tem a ver com amor, é apenas um serviço não remunerado.

Essa romantização que o patriarcado faz dele é apenas para justificar sua desvalorização. Enquanto você está em casa limpando, passando, cuidando dos filhos, seu marido está alavancado a carreira, está investindo naquilo que lhe dar prazer e buscando uma promoção no serviço. E sua carreira mulher? Você ainda lembra qual era o seu sonho? Ainda lembra qual carreira queria seguir?

O fato é que o trabalho doméstico vai muito além de passar pano, cozinhar e cuidar dos filhos. Ele é essencial para a manutenção do capitalismo e do patriarcalismo. Afinal, é por meio do trabalho invisível de mulheres que vem a força necessária para produzir bens e serviços.

É preciso anular essas mulheres para manter o capitalismo girando, é um
sistema que precisa de pessoas trabalhando muito e ganhando pouco, é
necessário que os homens estejam saudáveis para manter essa pirâmide
funcionando, pirâmide na qual os homens estão no topo e as mulheres
embaixo. E para manter esse ciclo o capitalismo busca o homem casado, o
homem solteiro não serve para esse mercado, ele não rende.

O homem casado rende porque tem uma escrava mantendo esse status.
O objetivo do patriarcado é claro, a mão de obra gratuita da mulher dentro de casa. E o objetivo do casamento é manter a mulher fora do mercado do trabalho, preservando assim os melhores cargos para os homens e a manutenção do machismo.

A mulher exausta não vai às ruas protestar, a mulher sobrecarregada não
consegue manter uma carreira e nem os estudos, o casamento foi desenhado para anular a mulher em todos os sentidos possíveis. Nem o seu parceiro valoriza sua anulação e muito menos o judiciário, eu perdi
as contas de ver mulheres falando em audiências que parou a vida para cuidar dos filhos e da casa e o magistrado nem sequer ouvir, é triste, mas foi apenas seu precioso tempo jogado fora.

Precisamos parar de romantizar a união entre duas pessoas, isso é cruel
demais para as mulheres. Elas se tornam pessoas frustradas e infelizes com o tempo. Vamos quebrar esse ciclo mulheres, vamos ensinar as nossas meninas que elas não precisam de ninguém para serem felizes, que seus sonhos não precisam jamais estar condicionados à figura de um homem, jamais.

Nossas crianças precisam aprender que suas carreiras são importantes sim, que seus sonhos são importantes sim. Que elas não devem se anular por ninguém, que não é seu dever mudar ninguém, consertar ninguém e que sua plenitude e sua felicidade não estão ligadas ao casamento e nem a ter um homem ao lado. Que não é sua obrigação abrir mão de sua felicidade para realizar o sonho de seu parceiro, que elas tem que realizar os seus sonhos, só os seus.

É preciso mostrar a essas meninas que o casamento e a maternidade são escolhas pessoais e não têm nada a ver com amor incondicional, e que elas podem se tornarem mulheres completas se abrirem mão disso, claro. A plenitude e a felicidade de uma mulher se encontra em vários fatores fora desses temas.

Você pode ser feliz viajando, estudando, sozinha, escrevendo, pintando, menos se anulando. Ensine isso a sua filha!!!!
Para mim, ser contra o casamento não é uma opinião pessoal, é um posicionamento político. Portanto, não existirá emancipação verdadeira enquanto mulheres forem exploradas na esfera doméstica a usufruto da manutenção do status social.

(*) Regiane Pimentel é bacharel em direito, ativista social e feminista amazônida.

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