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16 de setembro de 2021
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O tom atípico das Olimpíadas de Tóquio está indo muito além do previsto pelo fato de o evento multiesportivo acontecer durante a pandemia da Covid-19. O vazio nos estádios é compensado pela reafirmação de propósitos das novas gerações de competidores, que transformam o pódio do esporte mundial em arena de amplificação de bandeiras da atualidade, colocando a humanidade acima da conquista de medalhas.

As denúncias de abusos físicos e sexuais, o alerta sobre a importância de cuidar do emocional e mental, além do corpo, o antirracismo, o espaço para refugiados. Em Tóquio, os porta-vozes vão ainda da defesa da liberdade religiosa e de orientação sexual, passam pela igualdade entre gêneros e combatem o preconceito até contra a idade.

Em vez de a Olimpíada da tecnologia, os jovens atletas ganham a cena indo na contramão do mundo desumanizante e acendem uma ponta de esperança na reconstrução de valores menos egoístas e mais solidários. Suas atitudes contra a discriminação e as injustiças sociais levadas para dentro do evento refletem engajamento e aspiração por um mundo menos desigual. Que começa em ações como o reconhecimento do skate, considerado esporte menos nobre por vir das ruas, como modalidade esportiva.

Também não é mera coincidência dois brasileiros serem medalha de prata no skate street, com a mais jovem atleta do nosso país a conquistar uma medalha olímpica (categoria feminina). Rayssa Leal, a “fadinha”, tem apenas 13 anos, é do interior do Maranhão e dedicou seu êxito “a todas as meninas do Brasil”. Deu ainda uma lição nos negacionistas da pandemia, recusando aglomeração da torcida em seu retorno ao Brasil. O skatista Kelvin Hoefler, medalha de prata no mesmo esporte (categoria masculina), ressaltou o papel de sua mulher e da colega Pamela Rosa no seu desempenho durante as provas.

Emblemática do esforço dos atletas brasileiros em contraposição à falta de apoio foi a primeira medalha de ouro trazida para o Brasil pelo surfista nordestino Italo Ferreira. Ele começou a praticar o esporte com pranchas emprestadas de primos ou com tampas das caixas de isopor do pai, vendedor de peixe.

Outros brasileiros que utilizam sua exposição diante da opinião pública para assumir posição contra as injustiças sociais são Paulinho e Richarlison e a atacante Marta, das seleções masculina e feminina de futebol; e o jogador Douglas Souza, do vôlei. Douglas e Marta estão ainda entre os 163 atletas do universo LGBTQIA+, outro número recorde nas Olimpíadas, ao lado das mulheres.

A luta contra o racismo e a pressão pela performance física, em detrimento do emocional dos atletas, teve momentos especiais em Tóquio. A atleta multirracial – filha de imigrantes nos Estados Unidos; o pai é haitiano e a mãe, japonesa – Naomi Osaka acendeu a Pira Olímpica. Além de ativista, a tenista é porta-voz de milhares de jovens que sofrem com a depressão. Seu grito foi reforçado pela americana Simone Biles, a maior celebridade do evento, que desistiu de disputar em favor de seu bem-estar. “Acho que a saúde mental é mais importante nos esportes nesse momento e não apenas fazer o que o mundo quer que façamos”, afirmou a atleta, em constante tratamento contra ansiedade.

Biles assumiu seu protagonismo não só nos movimentos precisos nos equipamentos da ginástica artística, contribuindo para deixar no passado tristes episódios como o que envolveu a lenda da ginástica artística, a romena Nadia Comaneci. Aos 14 anos, ela brilhou nos Jogos Olímpicos de Montreal-1976 e somente décadas depois veio à tona que fora vítima de uma relação abusiva do treinador. Biles e mais de cem atletas americanas, vítimas do médico da Federação Americana de Ginástica, Larry Nassar, não se calaram. Ele está preso por abuso sexual e pornografia infantil.

Outra atleta negra e de origem humilde, como Biles, ousou nas Olimpíadas. A brasileira Rebeca Andrade trouxe para nosso país a inédita medalha de prata na decisão individual geral feminina ao som do “Baile na Favela” – o funk é forte expressão musical das comunidades de afrodescendentes, o que aqui é violência e exclusão social. Arrancou aplausos de Biles, teve a humildade de dizer que a medalha não é só dela e ainda pode brilhar mais.

O tabu da idade avançada foi quebrado com a uzbeque Oksana Chusovitina, 46 anos, ovacionada ao encerrar sua trajetória de oito Jogos. O evento reserva ainda lugar para lembrar o mundo de um dos maiores dramas da atualidade, com a Seleção Olímpica de Refugiados do Comitê Olímpico Internacional (COI).

Vamos continuar torcendo para que a luta pela diversidade e inclusão ganhe cada vez mais ritmo de Olimpíadas.

(*) Liliana Lavoratti é jornalista especializada em Economia e biógrafa.

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