2 de março de 2021

Marcela Leiros – Da Revista Cenarium

MANAUS – A Polícia Federal deflagrou nessa sexta-feira, 30, a Operação Haraquiri com o objetivo de investigar e interromper atividades relacionadas ao garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami. Policiais federais cumpriram dez mandados de busca e apreensão em Boa Vista e Alto Alegre, em Roraima, e Campo Grande, no Mato Grosso do Sul.

A investigação iniciou após o recebimento de materiais arrecadados pelo Exército em ação contra o garimpo em Roraima. A análise dos bens apreendidos indicou a atuação de envolvidos com as atividades ilícitas, em especial a ação de pilotos de aeronaves e helicópteros que seriam responsáveis pelo frete de pessoas e de insumos que viabilizariam a extração ilegal de minério.

Segundo o especialista em Cartografia e Sistemas de Informação Geográfica, doutor André Luiz Mendonça, a área da terra dos Yanomamis tem grande potencial de mineração. “Nas terras indígenas há uma atratividade maior causada pela grande extensão dessas terras e do fato de as operações contra o garimpo ilegal gerarem poucas consequências diretas a quem de fato investe dinheiro nessas atividades, que em geral exige grandes investimentos”, ressaltou André, que também é professor no Departamento de Ciências Florestais da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) desde 2018 e já trabalha com questões de monitoramento da Amazônia desde 2005.

De acordo com a investigação da Polícia Federal, imagens de satélite indicaram a presença de ao menos 20 pistas de pouso ilegais no interior da Terra Indígena Yanomami, o que contribuiria para a expansão da atividade mineradora irregular na região. Também são alvos das buscas suspeitos de explorarem diretamente o garimpo na região e outros crimes correlatos, como o armazenamento irregular de combustíveis.

Segundo o inquérito, essa expansão também contribuiria para a degradação ambiental de quase seis mil hectares, o equivalente a seis mil campos de futebol, verificada entre 2018 e 2020 na reserva indígena.

Prejuízos aos indígenas

Segundo a investigação da PF, o transporte e a permanência de garimpeiros na região estariam relacionados com a possibilidade de infecção e morte de milhares de Yanomami, no atual momento, em razão do novo coronavírus. Atualmente, estima-se que haja cerca de 20 mil garimpeiros atuando no local, viabilizados, também, pela logística aérea ilegal de bens e pessoas.

Na última quinta-feira, 28, os índios Yanomami denunciaram a morte de ao menos nove crianças com sintomas de Covid-19 e solicitaram o envio de médicos à região. Um auxiliar de saúde indígena “informou que quatro crianças vieram a óbito na Comunidade Waphuta, e a causa teria sido Covid-19, e há ao menos 25 crianças com os mesmos sintomas e em estado grave”, informou um comunicado do Conselho Distrital de Saúde Indígena Yanomami e Yekuana (Condisi-YY) enviado às autoridades brasileiras. Além disso, “um professor da Comunidade do Kataroa informou que cinco crianças vieram a óbito por suspeitas de Covid-19”.

Para André Luiz Mendonça, existem questões jurídicas que se arrastam há anos sobre como poderiam ser compensados os impactos realizados pela atividade mineradora em relação às comunidades indígenas. “Estas [questões jurídicas] têm uma noção diferente sobre a necessidade de se extrair esse tipo de recurso e ao longo dos anos têm denunciado a atividade mineradora como potencial destruidora do mundo – na cosmologia indígena, o que chamamos de meio ambiente. Em outras palavras, quando falamos de populações indígenas e comunidades tradicionais, os impactos negativos da mineração vão alcançar dimensões maiores do que sobre outras comunidades, pondo em risco inclusive a sobrevivência dos povos”, afirmou o especialista.