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24 de novembro de 2021
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Com informações do Infoglobo

RIO — O Brasil vai na contramão do mundo na prevenção de pandemias, afirma o único brasileiro no grupo criado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para investigar a origem da Covid-19, o especialista em doenças tropicais Carlos Medicis Morel. Passados quase dois anos desde os primeiros casos conhecidos de infecção pelo coronavírus Sars-CoV-2, continuamos sem saber quando, como e onde exatamente o coronavírus emergiu e se espalhou.

No entanto, pode ser que nunca descubramos, adverte Morel, coordenador-geral do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde (CDTS/Fiocruz) e membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC). Mas o novo Comitê Científico sobre as Origens de Novos Patógenos (SAGO, na sigla em inglês) tem ambições além do Sars-CoV-2. Ele foi criado para identificar e prevenir o espalhamento de novos vírus com potencial de pandemia. Uma missão do tamanho do planeta e movida pela ciência. Mas o Brasil, cujo governo fez o maior corte do orçamento da ciência da História e que sofre com a destruição da Amazônia, caminha no sentido contrário, adverte Morel. Vai de encontro às doenças e para longe da prevenção.

Vamos descobrir a origem do coronavírus Sars-CoV-2? 

Existe uma chance, mas não vai ser fácil. As pessoas devem se acostumar com a ideia de que ela pode jamais ser identificada.  

Por quê? 

Porque muitas das informações necessárias podem ter se perdido. O cenário em que o Sars-CoV-2 emergiu e se espalhou pode já não existir. Identificar quando e como uma pandemia começa é algo de extrema complexidade. Um exemplo é a Aids. De início, se pensava que o HIV havia emergido na década de 80 do século XX. Mas anos depois se encontrou uma amostra de sangue de 1959 infectada pelo HIV. Novas análises revelaram uma origem ainda mais remota. 

Que tipo de trabalho o grupo fará? 

O caminho normal será buscar vírus próximos ao Sars-CoV-2 por sequenciamento genético e então investigar seu reservatório. Precisamos também das análises de soros de pacientes dos primeiros momentos da pandemia. É uma forma de procurar reconstituir a evolução do vírus. São estudos minuciosos, mas as análises científicas não são as únicas dificuldades. 

Quais são as outras? 

A pressão política e a tensão entre China e EUA prejudicaram muito o trabalho de investigação.

O novo comitê tem mais chance de sucesso do que a equipe anterior da OMS? 

Diria que sim porque tem maior representatividade e neutralidade. O primeiro tinha dez pessoas, todas grandes especialistas. Porém, quase todas americanas e europeias. Isso gerou desconforto nos chineses (principalmente, após o governo americano levantar a hipótese de que a pandemia foi causada por um coronavírus que escapou de um laboratório chinês). Havia a suspeita de conflito de interesses. O novo grupo tem 26 especialistas de 26 países, com ampla distribuição geográfica, há asiáticos, africanos e latino-americanos. É um painel amplo de especialidades, com integrantes escolhidos para afastar a sombra do conflito de interesses. E isso é muito importante para que se avance. 

Por quê?

A OMS não pode entrar num país sem que seja convidada. Então, é importante estabelecer uma relação de colaboração com a China e buscar um consenso. O novo comitê pode ter menos dificuldade de lidar com a China. 

A OMS anunciou que a missão do comitê será também identificar e encontrar formas de prevenir novas pandemias e o que chama de Doença X, a próxima peste. Que lugares são zonas quentes para uma nova pandemia? 

A OMS adotou uma estratégia mais ampla do que apenas investigar a origem da Covid-19, o que já seria muito. A ideia é proteger o futuro. E a Amazônia é uma das regiões mais importantes. Ela tem uma biodiversidade imensa, mas é atacada por desmatamento, garimpeiros, grileiros. É exatamente o tipo de ameaça que traz vírus novos do interior da mata para as cidades. O (virologista) Pedro Vasconcelos, que trabalha na Amazônia a vida toda, já descobriu centenas de vírus. E no Brasil não é só a Amazônia a preocupação.