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16 de setembro de 2021
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É sempre temerário dar asas a conflitos de opinião depois da leitura de um romance, de um conto ou mesmo de uma crônica. De igual modo, não deixa de ser temerário, talvez mais temerário ainda, um escritor entrar em conflito com as livres interpretações de seus textos pelos leitores. E aqui, para deixar bem claro, eu estou navegando no plano da criação literária.

     Voltei mais uma vez a ratificar a certeza do que digo acima depois que compartilhei um pequeno texto sobre o entusiasmo que marcou a minha viagem nas páginas de “Torto arado”, do escritor baiano Itamar Vieira Júnior. Houve quem no geral concordasse comigo. Mas houve quem tivesse achado o romance fraco, frente a outros romances lidos. Houve quem, diferente de mim, tivesse gostado muito mais do último capítulo do que dos anteriores. Da mesma forma como houve quem tivesse achado o livro perfeito, diante da minha consideração de que alguns subcapítulos da terceira parte não fariam nenhuma falta à obra. Houve também quem não tivesse apreciado o foco narrativo em três diferentes personagens, para mim uma engenhosidade que confere maior autenticidade aos acontecimentos que alicerçam o romance.

Enfim, nada disso me surpreende. Tenho clara compreensão de que um texto, sobretudo com viés literário, é apenas uma matriz linguística adormecida que ganha diferentes vidas nas mãos dos leitores. E não fica por aí. Sobre o mesmo texto lido fazemos as mais diferentes incursões. Construímos as mais inusitadas conjecturas. Seguimos as mais surpreendentes trajetórias. Sempre a depender da nossa formação, das circunstâncias em que se dá a leitura, dos momentos históricos, do nosso estado de espírito e por aí vai. Isso explica, por exemplo, gostarmos de um texto lido hoje, mas termos reservas diante do mesmo texto lido algum tempo depois. E a ordem inversa também é verdadeira. Ou seja, o texto pode ser exatamente o mesmo, mas os leitores não. Afinal, é nisso que reside a extraordinária beleza do fenômeno da Linguagem.

     Pois foi durante mais um mergulho nesse mundo fascinante do campo da interpretação que, nesses dias, emergi na companhia do livro “Confissões de um jovem romancista”, de Umberto Eco*. E é sempre incrível a alegria quando a gente está com um assunto azucrinando a cabeça e se depara com afirmações que dão acalanto às nossas crenças já enraizadas. É mesmo como se as páginas do livro que nos cai nas mãos estivessem pacientemente à nossa espreita, à nossa espera, não importa há quanto tempo. Ora, vejam o que diz Umberto Eco:

     “Escritores criativos – da mesma forma que leitores sensatos do próprio trabalho – certamente têm o direito de contestar uma interpretação muito fantasiosa. Mas em geral devem respeitar seus leitores, já que lançaram seu texto ao mundo como uma mensagem numa garrafa, por assim dizer.

     Mas isso acontece, segundo nos lembra Eco, em decorrência das características que distinguem a escrita padrão ou científica e a chamada escrita criativa. No primeiro caso, de um ensaio teórico, por exemplo, seu autor se vale do texto para demonstrar aos eventuais leitores uma determinada tese que, em geral, vem acompanhada de argumentos materialmente tangíveis, ou mesmo resposta a um problema específico. Nessa perspectiva, a preocupação maior é com “o quê dizer”. No segundo caso, de um poema ou de um romance, a situação assume outras e imprecisas dimensões. O autor não está preocupado em comprovar que dois mais dois são quatro. Quer expressar sua visão particular da vida. Quer criar mundos paralelos que deem respostas à insatisfação com o mundo que o cerca. Quer compartilhar as contradições da vida que o incomodam e lhe causam angústia. Quer expor seus desejos de liberdade. Quer denunciar o massacre de seus sonhos e utopias. E, embora faça isso valendo-se da mesma matéria-prima – a modalidade escrita da língua –, dispensa a ela um tratamento bem diferente. Move-se sobretudo pelo lirismo, pela fantasia e pela emoção ao dispor as estruturas linguísticas, de tal modo que esse caminho possa revelar a carga de sentimentos que o envolveu durante o processo criativo. Nessa perspectiva, a preocupação maior é com o “como dizer”.

     É fato que, como afirmo em dado momento do meu livro “Aprendiz de escritor”, ninguém escreve pelo simples prazer de escrever. Todo texto busca, no fundo, conquistar a cumplicidade de quem o lê. Mas o mundo do leitor nem sempre converge para o mundo do escritor, notadamente quando essa relação se dá no terreno mais ainda movediço da escrita criativa. E é nessa permanente onda de encontros e desencontros, repito, que reside o extraordinário fascínio da Linguagem, esse fenômeno exclusivamente humano.

     É, pois, essa compreensão que leva Umberto Eco a confessar:

“Depois que publico um romance, sinto em princípio um dever moral de não contestar as interpretações das pessoas (nem de validar nenhuma delas).”

(*) ECO, Umberto. Confissões de um jovem romancista. R. de Janeiro: Editora Record, 2018, p. 7.

(*) Odenildo Sena é linguista, com mestrado e doutorado em Linguística Aplicada e tem interesses nas áreas do discurso e da produção escrita.

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