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24 de outubro de 2021
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Com informações da Folha de S. Paulo

SÃO PAULO – Quadros na parede para dar leveza; prateleiras e vasos para dar cor; capricho e cuidado com o lugar de dormir. Aos 65 anos, com três filhos criados, Tânia Lemos Bastos Momesso se lembra de quanta paciência e dedicação teve ao montar o quarto de cada bebê que chegava. Agora se pegou ansiosa na tarefa de reformar, decorar e adaptar um cômodo de sua casa, mas, desta vez, para receber a mãe.

“Foi uma oportunidade para me resgatar como filha, retomar o amor e a atenção que deixei um pouco de lado ao longo dos anos”, conta. Ao mesmo tempo, ela deparou com um desafio: o de aprender a ser mãe da própria mãe.

Noêmia Coentro Bastos, 86, sua mãe, morava a cerca de 10 km de distância de sua casa, em São Bernardo do Campo. Nos seis primeiros meses da pandemia, ela vivia na companhia de netos, mas estes tomaram diferentes rumos na vida e ela se viu às voltas com a necessidade de mudar. De início a contragosto, foi para a casa de Tânia e do marido, Luiz.

Noêmia, todavia, andava agoniada. Tânia, então, percebeu que não bastava arrumar um cômodo com todo o capricho. Era preciso considerar a história de vida da mãe, seus hábitos e o afeto que tinha pelo antigo lar, onde viveu por pouco mais de 15 anos.

Foi assim que surgiu a ideia de levar a mãe a cada duas semanas para a casa em que ficaram suas lembranças. Durante as visitas, Noêmia se apegava com prazer aos quadros e vasos pintados por ela, aos bordados executados manualmente no sofá da sala.

Noêmia Coentro Bastos, 86, e Tânia Bastos Momesso, 65, no quarto decorado com objetos da mãe, em São Caetano (Eduardo Knapp/Folhapress)

Tânia começou, aos poucos, a transferir para o outro endereço objetos que tinham significado especial para a mãe. Assim, de pouquinho em pouquinho, Tânia foi aprendendo a montar e a decorar o quarto que já não era de um bebê.

Em frente ao cômodo, voltado para um amplo quintal, ela e o marido plantaram as flores favoritas de Noêmia. “Faço o que posso para amenizar a falta que ela sente do seu lar. Queria que aqui minha mãe também se sentisse em sua própria casa”, diz.

Nestes tempos, ainda mais neste Dia das Mães, o que mais faz falta a Noêmia é o almoço com a família num restaurante da vizinhança, sem falar, é claro, na presença dos netos.

Tânia teve de mudar hábitos e costumes para voltar a conviver com a mãe, agora numa fase em que esta requer cuidados. As refeições, por exemplo, passaram a ser feitas na hora certa. “Precisei ter disciplina para acompanhar o horário de medicamentos de minha mãe e acompanhá-la nas tarefas diárias, para ela se exercitar e se sentir útil.”

Novas regras

O fotógrafo Sérgio Fernandes, de 33 anos, 11 dos quais longe do lar materno, também vive o reencontro com a mãe. No seu caso, além de se adaptar às tarefas domésticas e às novas regras diárias, a experiência foi surpreendente pela qualidade da relação com Neide, que agora tem 72 anos.

“Morando fora, não tinha percebido como o tempo passou e como nós mudamos; juntos, passamos a viver uma nova dinâmica, um novo momento entre mãe e filho”, conta. “Ela virou minha amiga, a ponto de me pedir para comprar camisinha para ela.”

A versão de Neide, separada há 20 anos: “Ele voltou para casa mais maduro e empenhado. O retorno ocorreu num momento em que nós estávamos fragilizados com a morte do pai dele, que, em plena pandemia, sofreu um AVC. Tínhamos um ao outro”.

O filho se mudou para a casa da mãe e, com ele, levou o cachorro. Whisky, 9, estava acostumado a dormir na cama do dono e sentia-se confortável ao tomar conta dos assentos na antiga residência.

Neide Fernandes, 72, com o filho Sérgio, 33, ao lado do cachorro Whisky (Eduardo Knapp/Folhapress)

Nos primeiros dias de vida conjunta, o comportamento canino incomodou um pouco, Neide não nega: “Demorei para aceitar”. Cão e filho foram-se enquadrando às regras impostas pela dona do domicílio.

Para a geriatra Maisa Kairalla, da Unifesp, nestes dias difíceis, o amparo tornou-se uma estratégia para minimizar os efeitos, físicos e psíquicos, provocados pela pandemia. “Cuidar um do outro é um jeito de sobreviver”, diz.