Para além da Covid-19: etnia Tapeba sofre com cheia do rio e teme a fome

 Ludmilla Balduino / De Olho nos Ruralistas

A pandemia do novo Coronavírus já atingiu a maior população indígena do estado do Ceará: vinte integrantes da etnia Tapeba estão apresentando sintomas de Covid-19. Há três casos confirmados de trabalhadores dos postos de saúde do território. Apenas dois indígenas com suspeita de terem contraído o novo Coronavírus foram testados, o que sugere subnotificação de casos.

De acordo com a agente de saúde Verônica Silva, que trabalha no posto Vitor Tapeba, da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), os casos confirmados são de duas médicas e uma enfermeira. Com uma população de 10 mil habitantes, os Tapeba vivem em um território de 5.294 hectares, na periferia da região metropolitana de Fortaleza.

Eles enfrentam uma enxurrada de problemas. Literalmente: a cheia do Rio Ceará está atrapalhando as atividades econômicas dos indígenas, que fazem um alerta — seguido de um pedido de ajuda — em relação à iminência de uma grande crise de segurança alimentar. Ou seja, fome.

“Isolamento” com famílias grandes em casas pequenas

Em reunião na última sexta-feira, 24, o conselho local de saúde do povo Tapeba decidiu fechar o posto Potyrõ, na Comunidade do Trilho, onde os casos de uma médica e da enfermeira foram confirmados. Até então, seis funcionários do posto de saúde estavam afastados de suas atividades por suspeita de terem contraído a doença.

Segundo Weibe Tapeba, assessor jurídico da Federação dos Povos e Organizações Indígenas do Ceará (Fepoince), o posto de saúde da Comunidade do Trilho deve permanecer fechado por pelo menos dez dias. Há outros quatro postos em funcionamento, responsáveis pelo atendimento de 15 mil indígenas.

Os Tapeba, juntamente com os Anacé, que também são atendidos nestes postos de saúde, formam a maior população indígena do estado do Ceará, de acordo com dados da Sesai, órgão vinculado ao Ministério da Saúde.

Enquanto isso, a recomendação é que os indígenas pratiquem o isolamento — algo impossível de ser cumprido à risca, seguindo as normas da OMS, pois os indígenas vivem em casas pequenas e têm famílias numerosas.

Verônica Silva também é uma Tapeba. Assim como seus dois filhos, apresentou sintomas de Covid-19. Todos estão convalescendo. Ela conta que dois indígenas conseguiram realizar os testes e aguardam o resultado em casa. Um deles é um rapaz que mora com oito pessoas em uma casa pequena. Entre elas, uma pajé de 76 anos e uma criança com síndrome de down.

“Só o rapaz consegue usar a máscara. Ninguém mais está usando, e o contato é inevitável em um ambiente tão pequeno, com tanta gente morando junto”, disse.

Cheia do rio Ceará provoca esgoto a céu aberto

A Comunidade da Ponte, que também fica no território Tapeba, sofre com a cheia do Rio Ceará, que alagou as casas de pelo menos seis famílias. Em 2020, as chuvas na região metropolitana de Fortaleza começaram em janeiro. Desde fevereiro, há tempestades constantes, que aumentaram o nível de água do rio. Dois açudes próximos atingiram suas capacidades máximas e estão vertendo o excesso de água para o leito fluvial.

Para tornar a situação ainda mais insalubre e propícia a doenças, o Rio Maranguapinho, afluente do Rio Ceará, recebe esgoto irregular ao passar pelo centro de Fortaleza. Quando deságua, leva toda a poluição urbana para a comunidade.

A cheia do Rio Ceará também afeta a economia local, já que a maior parte dos moradores da Comunidade da Ponte vive da coleta de mariscos do mangue na região. “Com essa cheia, o mangue está submerso e é impossível trabalhar em meio ao esgoto”, conta Weibe. “Há muitos casos de diarreia e nossas crianças vivem com dores abdominais”.

Sob essas condições, a população Tapeba corre o risco de insegurança alimentar. E a busca por estabilidade e garantia de alimento, por sua vez, aumenta as chances de contágio por coronavírus.

Possíveis causas de contágio

Verônica conta que muitos indígenas com sintomas de Covid-19 estiveram no centro de Fortaleza recentemente, em busca do resgate do auxílio-emergência de R$ 600, disponibilizado pelo governo federal.

“As filas nas lotéricas estão enormes, e com tanto contato humano, suspeitamos de que eles tenham contraído a doença no momento em que foram tentar realizar os resgates”, relatou.

Para minimizar a ameaça de fome aos povos indígenas do Ceará, a Federação dos Povos e Organizações Indígenas do Ceará criou uma campanha de arrecadação para a compra de alimentos, materiais de higiene e equipamentos de proteção individual.

Os dados são os seguintes: Federação dos Povos e Organizações Indígenas do Ceará, Caixa Econômica, agência 0919, conta 5489-6, operação 003 e CNPJ 34.816.161/0001-70.

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