6 de março de 2021

Priscilla Peixoto – Da Revista Cenarium

MANAUS- Em tempos de pandemia, a busca por produtos eróticos deu um salto no mercado brasileiro. Na contramão de outros setores, a procura pelos ‘brinquedinhos sexuais’ se tornou algo mais recorrente e integrou os acessórios na vida íntima de muitos casais, inclusive solteiros. Segundo levantamento feito pelo Portal Mercado Erótico, no Brasil, até agosto de 2020, foram vendidos mais de 1 milhão de produtos eróticos desde o início da pandemia, isso significa mais de 50% de aumento nas vendas de produtos neste segmento.

A empresária Paula Vieira e seu arsenal para apimentar as noites de isolamento (Reprodução/Internet)

Em Manaus, a proprietária Paula Vieira da Desfruit SexShop, 33 anos, apontou o crescimento já nas primeiras semanas da crise de saúde global. Paula diz que em março de 2020, logo no início da pandemia, as vendas aumentaram cerca de 30%. “As vendas aumentaram mesmo pelas condições econômicas da população neste período, mesmo só com o delivery e horário reduzido, nós conseguimos manter as vendas”, revelou a empresária.

Segundo ela, as maiores procuras são pelos géis (todos os tipos), fantasias, lingeries, brinquedos de todos os modelos e o campeão de todos, o famoso vibrador. Apesar das vendas terem aumentado em Manaus, segundo a revista Metrópole, dados de uma empresa de inteligência de mercado focada em e-comerce, a Compre&Confie dão conta de que a região Sudeste lidera a quantidade de vendas, com 66,9% de pedidos realizado, seguidos do Sul e Nordeste com 13%,1 e 10,1%, logo após Centro-Oeste, com 7,3% e finalmente o Norte com apenas 2,5%.

Perfil dos clientes

No contexto local, segundo Paula Vieira, os consumidores estão na faixa etária de 26 até 60 anos.  No contexto nacional, a maior faixa etária de consumidores desses apetrechos está entre 26 e 35 anos, com 34%, logo em seguida vem o público que tem em média 25 anos, com 31,9% e o grupo entre 36 a 50 anos, com (25,8%), segundo os dados revelados pelo compre&Confie.

Acessórios podem elevar a temperatura criativa dos casais e ainda mais as cifras do rentável mercado dos sex shops (Reprodução/Internet)

“O nosso público em especial é 90% de casais sejam hetero ou homo. Esse público sempre atendemos, inclusive antes da pandemia. Uma coisa curiosa é que mesmo sendo casais, a maioria das vezes a procura é liderada pelas mulheres”, frisou Paula.

No caso do público masculino, a entrega e aceitação das peças sexuais vêm aos poucos, porém, são clientes muito mais ligados à procura virtual, o mesmo acontece com o público mais velho. “Eles começam tímidos, e vão se soltando aos poucos no decorrer do atendimento”, revela.

Mas, afinal, qual o motivo do aumento pela busca dos sexy toys?

Para a psicóloga e sexóloga, Neyla Silveira, 38, isso acontece por diversos fatores desencadeados pela pandemia. Uma delas é basicamente a quarentena, onde muitos casais se viram obrigados a permanecer mais tempo juntos. “Os relacionamentos não tinham essa quantidade de convivência diária e para não cair na rotina tiveram que inovar”, explica Neyla.

Ela ressalta ainda que nas relações a dois, principalmente, as relações sexuais antes da pandemia eram com horas quase marcadas, por conta da rotina do casal. “Com essa mudança só há duas opções; ou se transa muito ou não se transa, daí o aumento de consumo de produtos eróticos nas relações. Pra quem já tinha uma vida sexual ativa, os produtos deram uma inovada e, para os que caíram na rotina, os brinquedos deram um up”, disse a sexóloga.

No caso dos solteiros, a procura pelos produtos se dá mais pela busca do autoprazer.  Com o isolamento social, a impossibilidade de ter encontros, até mesmo sexual, os solitários viram nas facilidades de vendas a um click de distância a resolução dos problemas. A entrega delivery, em meio ao caos trazido pela Covid- 19, também foi um fato que contribui para o aumento, além de facilitar a vida dos mais envergonhados.  

Tabu

Mesmo que o assunto sexualidade atualmente já seja bem mais conversado abertamente do que antes, ainda há tabus sobre o tema. Seja ele inserido em qualquer aspecto, sexualidade feminina, descoberta do próprio corpo e tantos outros assuntos. Obviamente, que no ramo do mercado erótico não é diferente, a empresária Paula consegue perceber de perto o preconceito.

Para a sexóloga Neyla Siqueira, os casais têm uma alternativa nesses tempos de isolamento: “transa muito ou não transa” (Reprodução/Divulgação)

“Infelizmente, as pessoas ainda taxam o Sex Shop como um ambiente vulgar, alguns que compram, não querem em hipótese alguma ter vínculo com a loja, porém, nos últimos anos, com filmes na mídia, esse cenário está mudando, as pessoas estão começando a entender que Sex Shop é vida, porque sexo também é saúde!”, afirmou a empresária.

Para a sexóloga Neyla, hoje em dia é mais uma espécie de receio do que o tabu propriamente dito. “Acredito que seja mais o que a gente chama de olho “torto”, alguns acabam procurando por curiosidade, às vezes nem sabem usar os produtos e não têm coragem de tirar as dúvidas sobre o assunto.

Na quebra de tabus, as mulheres são muito mais abertas nesse sentido, se permitem conhecer esse universo que é benéfico tanto para o indivíduo quanto para as relações dos casais, prova disso foi justamente esse aumento de pessoas consumindo produtos desse ramo na pandemia”, observa Neyla.

Benefícios

Além de serem um auxílio para dar aquela apimentada na relação, ou um objeto certeiro na busca pelo autoprazer e conhecimento do próprio corpo, esses polêmicos e queridos ‘brinquedinhos’ também trouxeram o lúdico ao sexo, inclusive, atualmente os apetrechos já possuem diversas texturas, sabores, cores e tamanhos atendendo todos os públicos. O mercado tem inovado a cada ano pensando tanto nos que já são consumidores quanto nos iniciantes nesse mundo da busca pelo prazer.

“O uso dos brinquedos traz uma leveza, além de dar possibilidades, descobrimos novas formas de prazer, por isso são tão benéficos, pois permitem o autoconhecimento. O que me traz prazer? Existem pessoas que se redescobriam com auxílio dessa infinidade de objetos sexuais e sensuais, que vão de uma simples lingerie, um conto erótico aos mais diferentes acessórios existentes”, revela.

Em uma sociedade na qual a maioria entende o sexo como ato de procriação ou em geral bastante ligada ao orgasmo masculino sem a exploração do corpo como um todo. Os sex shops com as vendas dos brinquedos sexuais abrem infinitas possibilidades de se redescobrir, orgasmos mais intensos, mudanças de rotina e muito mais.

Mercado em expansão

A sexóloga ressalta que, além da época de pandemia, as vendas e procura pelos sexy toys tendem a aumentar ainda mais. Segundo ela, estudos indicam que as pessoas tendem a buscar mais os serviços dos ramos voltados para a sexualidade, seja nos sex shops, seja nas terapias e serviços diversos.

Liberar a criatividade e ‘brincar’ são alternativas aos casais para sair do marasmo em tempos de pandemia (Reprodução/Internet)

“Depois da pandemia um processo maior de libertação sexual pode acontecer, tendo em vista que após a última pandemia, como a gripe espanhola, onde registros afirmam que houve uma liberdade sexual. Apesar dos registros tímidos, podemos afirmar que era mais comum, por exemplo, a prática da orgia e isso foi reflexo do tempo em que as pessoas também ficaram reclusas, como estamos hoje. Logo, a tendência é que haja uma ascensão nesse ramo”, finalizou a sexóloga.