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22 de janeiro de 2022
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Marcela Leiros – Da Revista Cenarium

MANAUS – Na principal porta de entrada e saída via fluvial de Manaus, às margens do rio Negro, ele se ergue majestoso. Inaugurado em 1882 e construído com material importado da Europa, o Mercado Adolpho Lisboa, nas cores amarelo e laranja, dá as boas-vindas a quem chega pelo Porto da Manaus Moderna há quase 140 anos. Mas, hoje, um dos principais cartões-postais da capital amazonense, tombado como Patrimônio Histórico Nacional, tem sua história encoberta por vandalismo e construções que descaracterizam a tão conhecida fachada que preserva a história e a cultura da cidade.

O popularmente conhecido como “Mercadão” ou “Mercado Grande” está localizado em uma das áreas mais tradicionais de Manaus, o Centro da cidade. Foi reinaugurado em 2013 após sete anos de obras de restauração. No local, entre um corredor e outro revestido com ladrilhos centenários e fundição original, os comerciantes repetem os mesmos movimentos daqueles que por ali já passaram, vendendo especiarias, carnes e peixes. Porém, a tradicionalidade corre riscos com a poluição visual e pichações que começam a cobrir a estrutura que atravessa séculos.

Na área interna, alguns próprios permissionários estendem seus produtos para além do espaço permitido, gerando uma “favelização” e dificultando o trânsito até mesmo de Pessoas Com Deficiência (PCD). “O que está ocorrendo é uma favelização do Mercado“, disse um permissionário que trabalha no local desde 1979, mas preferiu não se identificar. “O acesso às rampas de deficientes está cheio de coisas. Fecham com mesas, com plantas. Tem que ter um choque de ordem para organizar. Uma pessoa que tem uma banca aqui acha que pode fazer o que quiser. Expandiu, colocou muitos produto nas paredes, e passou dos limites. Tem de haver uma organização. É locatário, permissionário. Ele vai invadindo, vai fazendo o quintal da casa dele”.

“Aí vem a parte elétrica que não funciona. Quando chove fica escuro e a gente tem que ligar as iluminações que a gente mesmo coloca, nosso contador. Tudo queimado aqui em cima. Cadê os responsáveis por ajeitar essa iluminação, que é pública”, questiona o permissionário.

Já na área externa, tendas e placas de comércios encobrem parte da fachada histórica do Adolpho Lisboa. No que hoje é a frente do Mercado, e por onde transitam muitos turistas, a escultura “Ajuricaba no encontro das águas”, do artista visual Turenko Beça, tornou-se “parede” para pichações e até mesmo cama para pessoas em situação de rua. Um contêiner foi instalado em frente ao patrimônio para servir de estabelecimento comercial e as luminárias externas, entregues na reinauguração, já não estão mais no local.

“Faz uns quatro meses que a gente está aqui nos contêineres. A gente trabalhava do outro lado (da rua que fica na orla da cidade), mas foi alocado aqui. A prefeitura quer remanejar, fazer a cidade bonita, aí colocaram esse contêiner e parece que vão colocar outro. A gente recebe muito turista, aí fica feio isso daí. Todo dia passa grupo de turistas aqui, todo santo dia ficam vendo essa paisagem”, disse a agenciadora de viagens Elaine Campos, que trabalha na região há mais de 10 anos.

História

Construído durante o ciclo da borracha com estrutura de ferro fundido, o Mercado Adolpho Lisboa foi projetado pelo engenheiro francês Gustave Eiffel, o mesmo que projetou e deu nome à Torre Eiffel, em Paris, na França. É também a principal porta de entrada da produção pesqueira e rural do Amazonas. À CENARIUM, o historiador Otoni Mesquita relembrou da importância do local e enfatizou a urgência de conservar o patrimônio.

“Eu tenho ido pouco ao Mercado, mas ele tem algumas situações, inclusive na parte posterior, que é a antiga fachada original, uma praça muito maltratada e isso tem que ser revisto, tem que ser cuidado, porque é um cartão de visita da cidade, um cartão de entrada para quem vem pelo rio”, lembrou ele, que também é professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e autor de dois livros que contam histórias da cidade de Manaus.

“E de qualquer forma, grande parte das pessoas que fazem turismo, quando chegam a uma cidade, elas vão às grandes obras públicas, como teatros, praças, e o mercado é um lugar fundamental de visitação para conhecer mais da personalidade da cidade, para saber como a cidade funciona e seus aspectos. Ainda que ele já esteja muito recortado nesse sentido, que não corresponde a uma realidade total, nós temos muitas referências da nossa história ali e isso precisa ser preservado. É muito importante para nossa história e para nossa identidade”, explicou Mesquita.

“O que acontece, como em toda obra histórica, é que é fundamental que tenha manutenção, porque vai evitar uma restauração ou reforma que em geral acaba sendo muito cara. Por isso, é importante reparar constantemente. É fundamental que a administração, os usuários, os permissionários consigam se articular também reivindicando esses melhoramentos”, finalizou.

Patrimônio

O Mercado Adolpho Lisboa é considerado um dos patrimônios arquitetônicos mais significativos da capital amazonense. É uma das obras mais frequentadas na cidade desde a monarquia, que sempre teve um intenso fluxo.

“Nós não tínhamos o porto (de Manaus) ainda. Então, o Mercado continuou sendo a nossa ligação amazônica, que mostrava bem a nossa cara com a relação ribeirinha, cabocla, vinculada ao rio, a uma cultura tradicional da região. E isso perdurou até aquele período áureo da borracha, que é quando surge uma riqueza inesperada e começa a exigir algumas sofisticações. Eles resolvem ampliar o Mercado e criam outra face, voltada para a rua dos Barés”, relembra Otoni Mesquita.

“A partir de 1906, nós vamos ter a outra fachada, que é um fachada do Filipo Santoro, e isso também demonstra a relação que essa nova elite pensante tinha com o rio, havia uma necessidade ou uma carência de se relacionar com uma questão muito mais urbana. O rio, a nossa caboquice, nossa vida ribeirinha, era algo a ser camuflado”, conclui o historiador.

Veja o antes do Mercado Adolpho Lisboa, na reinauguração em 2013:

Imagem aérea do Mercado Adolpho Lisboa na reinauguração em 2013. (Ricardo Oliveira/ Revista Cenarium)

Confira reportagem completa: