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24 de outubro de 2021
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Luis Henrique Oliveira – Da Revista Cenarium

MANAUS – Quando se fala em Amazônia, nos vem a cabeça a floresta e os animais, mas o que muita gente não sabe, é que nela também há outra riqueza: o vasto campo da pesquisa em doenças tropicais. E em meio à pandemia do novo Coronavírus, é nas dependências da Fundação de Medicina Tropical, na capital do Amazonas, que o renomado pesquisador Marcus Lacerda tem desenvolvido a pesquisa clínica ‘CloroCOVID19’, que visa avaliar a eficácia da medicação Difosfato de Cloroquina em pacientes com diagnóstico de doença respiratória grave.

O estudo é feito no pronto-socorro Delphina Rinaldi Abdel Aziz, em Manaus, e deve atingir mais de 400 indivíduos de ambos os sexos e idade entre 18 e 80 anos, que não apresentem contraindicações à Cloroquina.

“Vamos testar diferentes doses da cloroquina [em pacientes internados]. Estamos fazendo essa análise todos os dias”, afirma Marcus Lacerda, ao ressaltar que os participantes serão divididos de forma aleatória em dois grupos de tratamento, onde um receberá Difosfato de Cloroquina e o outro placebo. Ambos os medicamentos são de fabricação do Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos/Fiocruz), no Rio de Janeiro.

Na manhã da última segunda-feira (6), Lacerda anunciou que os resultados iniciais obtidos pela equipe estão em fase final para publicação de artigo científico. A primeira grande conclusão do estudo CloroCovid-19 é de que a aplicação de doses mais baixas diárias da cloroquina em pacientes graves é menos letal.

“Identificamos que a dose muito alta, feita por dez dias, levou mais pacientes para a internação. Então estamos nesse estudo desaconselhando que sejam usadas altas doses. A toxicidade é muito alta. A cloroquina, numa dose mais alta, pode dar arritmias graves e levar à morte”, disse o infectologista.

Do total de 81 pacientes no protocolo de estudo, 11 morreram de Covid-19, por complicações no estado de saúde. Por sua vez, o pesquisador lembra que a letalidade identificada com os estudos no Amazonas apontam para uma média de 13%, uma vez que “no restante do mundo, em pesquisas, este número tem ficado entre 18% e 20%”, disse Lacerda

Inicialmente, uma análise preliminar do estudo estava prevista para a segunda semana de abril deste ano. O pesquisador explica que ainda é cedo para se tirar uma conclusão sobre a real eficácia da medicação em pacientes com coronavírus. “Especialmente a população mais leiga não entende que não dá para se tirar uma conclusão a partir de um único caso. Estamos avaliando todos os dias o que é possível fazer de recomendação. Além disso, é importante dizer que existem outras pesquisas acontecendo em paralelo no País e no mundo. Cada estudo é diferente um do outro e cada um vai dar uma resposta que, no conjunto, vai fazer a gente escolher a melhor opção”, pontua.

A pesquisa clínica liderada por Lacerda, conta com apoio de outros 40 pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz – Instituto Leônidas e Maria Deane, Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado, pronto-socorro Delphina Aziz e ainda da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

Segundo documento de apresentação da pesquisa, o estudo realiza uma avaliação criteriosa dos eventos adversos e também verifica diferentes doses da medicação em questão e tem como investigadora co-principal a médica infectologista Mayla Gabriela Silva Borba.

Pesquisas pelo mundo

No entanto, de acordo com o pesquisador Marcus Lacerda, estudos realizados na França, China e Estados Unidos têm demonstrado que o uso da cloroquina apresenta potencial para promover melhora do quadro clínico de pacientes acometidos por Covid-19 em estado grave.

Exemplo disto é o estudo in vitro de pesquisadores chineses que avaliou o efeito antiviral da cloroquina e da hidroxicloroquina. Na ocasião, foi verificado que os medicamentos inibiram tanto a etapa de entrada do vírus na célula quanto estágios celulares posteriores relacionados à infecção pelo novo coronavírus. Para se ter uma ideia, houve bloqueio, por exemplo do transporte do vírus entre organelas das células, os endossomos e endolisossomos, que, segundo uma nota técnica divulgada pela Anvisa, parece ser a etapa determinante para a liberação do genoma viral nas células.

Sobre supostas vacinas a serem desenvolvidas, o diretor-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, ressaltou que uma vacina para coronavírus ainda deve demorar “pelo menos 18 meses”, apesar dos testes em andamento.

A pandemia

O número de casos confirmados do novo coronavírus no Amazonas subiu para 804 na última quarta-feira (8), segundo balanço divulgado pela Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM). Em todo o País, as secretarias estaduais de Saúde divulgaram, até as 12h50 desta quinta-feira (9), 16.474 casos confirmados do novo coronavírus, com 840 mortes pela Covid-19.