Pesquisadores vão elaborar dossiê com danos causados pela pandemia aos indígenas

Luana Dávila – Da Revista Cenarium

MANAUS – A população indígena ligada à Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) irá elaborar um dossiê até o dia 31 de julho para registrar as marcas deixadas pela pandemia do novo Coronavírus em centenas de aldeias, inclusive na Amazônia. O trabalho será realizado em conjunto com a Revista Vukápanavo, primeira revista editada por pesquisadores indígenas.

A pandemia da Covid-19 desenha um cenário inesperado não só no campo epidêmico-biológico, como também no que concerne as políticas sociais de assistência, prevenção e atenção à saúde dos povos indígenas. “Há o desafio de compreender seus múltiplos desdobramentos considerando seus impactos econômicos, culturais, históricos e políticos nos cotidianos dessas comunidades”, diz a Articulação.

Segundo os pesquisadores indígenas, a experiência pandêmica em curso no mundo afeta diretamente os hábitos, formas de convivência, padrões culturais e valores morais.

“O objetivo do Dossiê é reunir reflexões acerca do impacto da pandemia de Covid-19 sobre os povos indígenas. Desejamos reunir análises teóricas, etnográficas e auto-etnográficas a fim de retratar questões específicas que abarcam a vida dos povos indígenas diante de uma crise repentina que assola os nossos territórios”, afirma um dos pesquisadores.

O líder indígena Josias Sateré-Mawé, professor na base do Rio Andirá, na Aldeia Ponta Alegre e um dos pesquisador do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Ambientes Amazônicos (Nepam)  da Universidade Federal do Amazonas (Ufam),  disse à REVISTA CENARIUM que desde quando Jair Bolsonaro (sem partido) assumiu à presidência da República, houve um aumento excessivo nas violações de direitos dos povos indígenas.

“Em vez de fortalecer as instituições indigenistas, Bolsonaro luta para enfraquecer essas intuições, criminalizar as lideranças indígenas. Não acata sugestão e não é transparente. Além disso, tem sabotado desde o início o isolamento social, atingindo as famílias mais pobres que estão bem distantes das políticas públicas destinadas a elas”, criticou o Sateré-Mawé.

O pesquisador ainda disse que o presidente, “em nome da economia”, faz uma campanha contra a vida. “Porque no momento que ele pede para o mercado voltar ao normal, incentiva a contaminação da população pobre e trabalhadora que se vê sem saída. Ou eles ficam em casa e vão passar fome ou vão ao trabalho conviver com medo de se contaminar e morrer. Temos alertado que se esse vírus mortal entregar nas terras indígenas vai morrer muitos parentes indígenas”, concluiu.

Aldeia Simão I, no Rio Andirá (Sônia Lorens /Divulgação)

Pandemia já matou 85 índios

Segundo o boletim epidemiológico do Ministério da Saúde, até esta quarta-feira, 10, há 2.328 índios infectados pela Covid-19 e 85 mortos. De acordo com dados da  Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), há 760.350 mil indígenas no território brasileiro, espalhados em 6.238 aldeias. Há também 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (Dsei), 1.119 Unidades Básicas de Saúde Indígena (UBSI), e 67 Casas de Apoio a Saúde Indígena (Casai).

Mas os números divergem do boletim  alarmante da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coaib),  que divulgou nesta quarta-feira, 10, que a pandemia atinge 76 etnias indígenas e já matou 256 índios. “Só nos primeiros 8 dias de junho, foram 89 mortes”, diz o comunicado da Coiab.

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