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26 de janeiro de 2022
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Com informações da Folha de S. Paulo

RIBEIRÃO PRETO (SP) – Um artigo produzido na Universidade Federal de Alagoas (Ufal) levanta a hipótese de que o possível surto de sarna que está ocorrendo em Pernambuco tenha elo com o uso indiscriminado de ivermectina.

O vermífugo, também usado no tratamento de sarna e piolho, é um dos medicamentos que integram o chamado “Kit Covid”, sem eficácia comprovada no combate à Covid-19 e que chegou a ter alta nas vendas de 1.272% em um ano, em meio à pandemia.

A universidade divulgou na sexta-feira, 26, um trabalho publicado no mês de agosto pelo Núcleo de Estudos em Farmacoterapia (NEF) a partir da observação de casos de resistência à ivermectina já relatados, de surtos isolados e os dados de crescimento de consumo do medicamento, por causa do novo coronavírus.

Um surto de lesões que causam coceira na pele, que pode ser a escabiose (sarna humana), tem preocupado profissionais de saúde de Recife, nas últimas semanas. Ao menos três cidades da região metropolitana registraram centenas de casos até esta semana.

Os primeiros registros surgiram no início de outubro na região, mas se intensificaram no final do mês passado e no começo deste mês em Recife, Camaragibe e Paulista.

Os pacientes relataram lesões na pele, principalmente no tronco e nos braços, acompanhadas de coceira. Além de sarna humana, as outras hipóteses levantadas por autoridades de saúde pernambucanas são alergia ou um tipo de arbovirose causada por mosquito.

​O texto, produzido pelos pesquisadores Alfredo Oliveira-Filho e Sabrina Neves, ambos do Instituto de Ciências Farmacêuticas (IFF), e pelos estudantes Lucas Bezerra e Natália Alves, afirma que entre os elementos para o crescimento da resistência do Sarcoptes scabiei (parasita que causa a sarna humana) à ivermectina no Brasil estão a alta no consumo do medicamento e o aumento da dose na tentativa de tratar a Covid-19.

Enquanto para tratar a escabiose aplica-se dose única, na pandemia o tratamento preconizado chegou a ter duração de dez dias, com dosagens dobradas em relação ao uso convencional, dizem os pesquisadores.

Por meio da assessoria da Ufal, Neves disse que o artigo lança a hipótese de que poderia haver problemas com surtos de escabiose resistente devido à utilização irracional da ivermectina.

“O surto está configurado, pois está havendo um aumento rápido de casos de lesões de pele com coceira e outros sintomas”, disse ela. “Ainda não há diagnóstico da doença que está causando o surto [em Pernambuco]. Algumas hipóteses da etiologia [origem] estão sendo testadas, entre elas está a escabiose levantada pelo artigo”.

Ela afirma ainda que esse tipo de uso dos remédios é um problema de saúde pública, que se agrava no caso de antibióticos, antiparasitários e antifúngicos.

“Quando utilizamos de forma irracional ou incorreta medicamentos, como a ivermectina, corremos o risco de induzir a resistência do parasita ao medicamento que deveria tratar a doença causada por ele”.

No resumo do artigo, os pesquisadores apontam que nem mesmo pareceres do Ministério da Saúde e da indústria farmacêutica, além das evidências científicas pouco favoráveis ao uso da ivermectina contra a Covid-19, foram capazes de impedir a prescrição e a automedicação.

Ainda conforme os pesquisadores, são necessários testes e que outras hipóteses sejam descartadas sobre o que ocorre nas cidades pernambucanas para que se confirme as indagações levantadas pelo artigo.

Uma nota técnica da Secretaria de Saúde de Pernambuco, de 19 de novembro, descarta um possível surto de doenças transmitidas por alimentos.