Piranha: o ‘terror’ das águas doces possui mais de 40 versões
10 de outubro de 2020

Mencius Melo – Da Revista Cenarium
MANAUS – Um dos mais temidos e folclorizados peixes dos rios de água doce, a piranha, muito comum na Amazônia, chega à REVISTA CENARIUM para uma reportagem curiosa. A ideia é informar um pouco mais sobre o animal que é considerado um terror nas águas.

Ao contrário do que se pensa, a piranha não é um peixe com poucas espécies, na verdade, segundo biólogo professor da Universidade Federal do Pará (UFPA), Luciano Montag, ao todo são 42 espécies distribuídas em cinco gêneros: Serrasalmus, Catoprion, Pygocentrus, Pygopristis e Pristobrycon.
De acordo com o biólogo, existem detalhes sobre o peixe, entre os quais a familiaridade com os tambaquis e pacus que são próximos das piranhas. “Os pacus e tambaquis são da mesma família (Serrasalmidae). O corpo é bem parecido, mas a dentição é diferente”, explicou.
Agressividade e canibalismo
Outro detalhe sobre o peixe é que as piranhas não poupam até mesmo as parceiras de grupo que podem ser devoradas em um ato de canibalismo. “Desde que tenha um indivíduo debilitado, as outras irão atacá-las”, informou o biólogo.
Mesmo sendo comumente visto como um animal grupal, isso não é bem verdade. “As piranhas, diferente do que se que imagina, não vivem em cardume e são bastante oportunistas. Pegam presas que estejam já debilitadas”, detalhou o cientista.
Quanto ao reconhecido e até mesmo folclorizado instinto agressivo, o que já rendeu inclusive filme em Hollywood, Montag comentou: “A agressividade é relativa e pode estar envolvida com a dentição bastante afiada e fácil de tirar pedaços das presas”, declarou.
Piranha-preta morde mais?
Muitos afirmam ser a piranha-preta a dona da mordida mais forte, mas Luciano faz um reparo. “A piranha-preta, nome vulgar, pode ser chamada localmente para diferentes espécies, as mais comuns são as Serrasalmus rhombeus. Porém, todas têm a mordida bem forte para tirar pedaços da sua presa”, citou.
Mesmo altamente identificada com a região amazônica, a piranha não está restrita somente a esse espaço, ela pode ser encontrada em outras áreas. “Todos os gêneros podem ser encontrados na Amazônia, porém não as espécies. Temos piranha em toda a região neotropical”, relatou.

Como um peixe “exótico”, colecionadores podem querê-la em aquário, o que é possível, mas com a devida atenção já que, por serem carnívoras, elas podem devorar as outras espécies. “Se bem alimentada, podem conviver com outras espécies em aquários”, relativizou.
Piranhas protetoras
Mas, por mais agressivas que sejam, o instinto de proteção é uma característica. Elas são altamente protetoras dos babies. Fato esse que pode explicar parte da agressividade em algumas espécies. “A piranha pode atacar também para proteger as crias”, observou Montag.
“Existem relatos de que há cuidado parental, os pais cuidam da prole e podem vir atacar quem tentar se aproximar. A literatura sobre a Serrasalmus e a Pygocentrus, cita que os pais cuidam dos ovos que são depositados nas raízes das macrófitas durante a cheia”, especificou o biólogo.

Mistificadas como grandes vilãs em filmes como “Piranha” (Joe Dante, 1981), o peixe ganhou no cinema mais versões que a própria natureza poderia lhe dar. Além da ‘fama de mau’, o animal ganhou superpoderes a ponto, inclusive, de voar. Mas tudo é mais folclore do que realidade. Nada que a ciência não desmistificou.