Participe do nosso grupo no Whatsapp Participe do nosso grupo no Telegram
25 de julho de 2021
Ainda não é assinante
Cenarium? Assine já!
ASSINE
image/svg+xml

Com informações do O Globo

BRASÍLIA – Mensagens obtidas pela CPI da Covid no celular de Luiz Paulo Dominguetti, policial militar que tentou vender vacinas ao governo, mostram que o atravessador insistiu que a proposta de 400 milhões de doses da AstraZeneca fosse apresentada ao presidente Jair Bolsonaro. Segundo registros em poder da CPI, o PM negociou com o reverendo Amilton Gomes de Paula, da entidade não governamental chamada Secretaria Nacional de Assuntos Humanitários (Senah) para ser o interlocutor do negócio junto a Bolsonaro. Procurado, o reverendo disse ao GLOBO que não chegou a se reunir ou mesmo ter entrado em contato com Bolsonaro.

O reverendo foi um dos intermediários usados por Dominguetti, vendedor de vacinas, para chegar ao governo federal. Amilton se reuniu algumas vezes com integrantes do Ministério da Saúde e levou adiante a oferta de doses da AstraZeneca feita por Dominguetti. Desde fevereiro, o PM manteve contato com integrantes da Senah que prometeram ajudar a negociar vacinas com o governo.

A expectativa de Dominguetti era que o reverendo se reunisse com o presidente em 15 de março, dia em que Silas Malafaia e outros líderes evangélicos estiveram no Palácio do Planalto. Em mensagens a Dominguetti, alguns interlocutores, como “Renato Compra Vacinas”, garantem que o reverendo estivera em contato com Bolsonaro.

Em 16 de março, um contato salvo como “revendo Anderson” — cujo número de telefone, segundo confirmou o GLOBO, é do próprio Amilton de Paula — diz a Dominguetti que “falou com quem manda”. “Ontem falei com quem manda! Tudo certo”, escreveu. Amilton nega ter comparecido a encontro com Bolsonaro.

“O encontro não aconteceu. Ele não tinha agenda conosco, estava um preparativo de líderes religiosos mas foi suspensa essa agenda”, disse Amilton ao GLOBO.

À CPI da Covid, Dominguetti disse ter recebido de Roberto Ferreira Dias, então diretor de logística do Ministério da Saúde, um pedido de propina de US$ 1 por dose em um jantar no dia 25 de fevereiro. Dias nega a acusação e disse que descartou a proposta porque a empresa de Dominguetti, a Davati Medical Supply, não tinha autorização para negociar doses de AstraZeneca e não explicava de onde iria comprar as vacinas.

Após esse encontro no fim de fevereiro, Dominguetti insiste em levar sua proposta ao ministério. Ele negocia com a Senah e com o reverendo Amilton na expectativa de que, através do líder religioso, Bolsonaro soubesse da oferta.

Como revelou o Jornal Nacional, o reverendo Amilton Gomes de Paula foi autorizado pelo Ministério da Saúde a negociar com a Davati, mesmo sem vínculo com o setor público. O reverendo foi recebido no órgão mais de uma vez para tratar sobre vacinas.

Ao longo de março, porém, conforme a negociação avança, interlocutores de Amilton cobram Dominguetti diversas vezes sobre um documento que comprove que ele teria autorização da AstraZeneca para vender as vacinas. Ele não apresenta nada nesse sentido, o que, segundo contou o reverendo ao GLOBO, “desgastou” as conversas.

“Eu briguei com o Cristiano (representante da Davati), eu bloqueei ele. Eu não queria mais conversar com ele. Aí o Dominguetti me ligou, pediu calma, eu disse “não é assim, isso é muito sério, você precisa conferir o lote, ver se ele existe”. Foi quando ele me disse “vai vir o documento, está chegando, espera”. Ele sempre falava isso.

O reverendo diz ainda ter recebido uma oferta de doação da Davati à Senah em troca de sua ajuda para entrar em contato com o ministério. Dominguetti teria oferecido o dinheiro mas sem especificar exatamente ao valor a que se referia.

No início de março, Dominguetti diz a um contato chamado “Amauri Vacinas Embaixada”, que se apresenta como interlocutor do reverendo Amilton, que “o presidente tá apertando o reverendo”, informação que teria recebido de um amigo. “Temos acesso ao presidente”, garantiu Dominguetti em 8 de março, período em que os dois conversam diversas vezes sobre o possível encontro com Bolsonaro, que previam ocorrer em 15 de março.