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21 de outubro de 2021
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Priscilla Peixoto – Da Revista Cenarium

MANAUS – A Pesquisa Nacional da Saúde Escolar (Pense) revela que 213 mil garotas são afetadas pelo não acesso aos produtos de higiene básica no período menstrual. A exclusão social provocada pelo fenômeno resulta na evasão escolar, atrapalha o desempenho e a carreira de jovens estudantes, dificultando até mesmo os afazeres do cotidiano, de acordo com o levantamento publicado em novembro de 2020, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Outra realidade apresentada pelo Pense ressalta que 65% das estudantes seriam negras. Os números são da última amostragem divulgada no dia 8 de março deste ano, pela ONG Girl UP, onde comprova que 30 milhões de mulheres menstruam no Brasil.

Para a pesquisadora de relações étnico-raciais e atuante em causas do movimento negro em Manaus, Luciana Santos, o fato é um problema sério e invisibilizado por falta de políticas públicas sensíveis a essa realidade feminina. “Existe muitos fatores que levam a essa triste realidade, mas a verdade é que a maioria dos nossos representantes são homens e essa questão para eles não é exatamente uma prioridade”, explica Luciana.

Em entrevista ao site UOL, a coordenadora da ONG Girl UP, Letícia Bahia, declarou que muitas meninas faltam às aulas quando estão nesse período em decorrência das péssimas condições econômicas em que se encontram e que o ponto vai além. “Levando em conta que elas ficam cerca de 5 dias menstruadas todo mês e que elas continuem indo ao colégio por pelo menos 5 anos, imagina o quanto de aulas elas perderão? Precisamos pensar também em um segundo momento, mesmo que essa menina vá à escola, como é o aprendizado dela durante esses dias?”, questiona.

“Vamos imaginar que ela fique preocupada com a troca de absorventes (porque ela não tem outro, porque ela não tem dinheiro para comprar mais um), ela se sente envergonhada e isso prejudica o aprendizado dela”, ressaltou Letícia.

Das 213 mil meninas, 65% delas seriam negras (Reprodução/Internet)

Economia

Segundo informações publicadas em novembro de 2020 no site Modefica, no Brasil, um dos principais motivos que impedem o acesso à proteção íntima é o preço. O imposto sobre o absorvente, correspondente, em média é mais de 25% do valor do produto. Deve ser levado em consideração a diferença de alteração de preço em cada região e os impostos calculados em cima do produto.

As mulheres negras estão na base da pirâmide econômica do Brasil. A maioria também é responsável pelo sustento da família, pois são mães solos, a dura realidade do “aperto financeiro” acaba fazendo com que muitas tenham que deixar de lado itens essenciais em troca de garantia de um alimento a mais na cesta básica.

“É a realidade de muitas, imagina então o custo que é para essas mulheres comprar absorventes, que não são produtos baratos. Acaba sendo, na verdade, uma escolha entre comprar alimentos ou obter esses produtos de higiene íntima”, pontua a pesquisadora Luciana.

Políticas públicas

“É preciso garantir uma renda digna, elas precisam comer, ter o básico. Se elas não têm comida, como elas vão se importar com educação?”, questiona a feminista Alessandrine Silva. Para ela, além de uma boa renda familiar, é necessário que se tenha um estudo local sobre a realidade dessas jovens e suas famílias. Outro ponto levantado por Alessandrine é abordar o tema nas escolas em família e na sociedade como um todo e não tratar mais processo natural biológico da mulher como um tabu.

O imposto sobre o absorvente correspondente, na média, a mais de 25% do valor do produto(Reprodução/Internet)

Segundo a feminista, a questão não seria um problema tão difícil de atenuar. “É partir para o estudo de campo e depois partir para a ação. Distribuir absorventes sustentáveis ou até mesmo coletores menstruais que são reutilizáveis e mais barato a longo prazo. Essa distribuição poderia ser feita habitualmente em pontos estratégicos”, explica.

A feminista também ressalta para a questão da falta de saneamento básico que assola as jovens de baixa renda e as negras principalmente. “Estamos no meio da floresta amazônica e ainda tem meninas que não têm água encanada em casa e não conseguem tomar um banho direito. É preciso que se faça um CPI das águas, tratar as concessionárias de forma mais rígida e identificar o motivo dessas falhas também entra na temática das políticas públicas que poderiam ajudar nossas jovens de baixa renda”, afirma.

Ação social

Para a universitária e engajada em ações sociais, Camila Carmo, 22, além da falta de políticas públicas e estrutura com relação a saneamento básico também falta empatia. Em tempos de pandemia, a estudante de engenharia de produção tem atuado em prol das mulheres em situação de vulnerabilidade.

Camila e alguns amigos da faculdade se unem para realizar as doações dos kits de higiene básica sempre que podem. De acordo com ela, é o mínimo que se pode fazer para ajudar jovens e mulheres que se encontram na situação em que ela classificou como constrangedora.

“Eu fiz sim uma pesquisa e me deparei com a falta de políticas públicas para amparar mulheres que menstruam, até mais que isso, não é somente o kit de higiene que falta, é privacidade, saneamento básico e estrutura. Me vi numa situação de privilégio por ter acesso a banheiro, a um sabonete, a absorvente e, meu Deus, acesso à água”, relata Camila.

Ela explana que o período menstrual precisa ser bem cuidado e que é essencial para que se sintam confortáveis e seguras, e o acesso ao absorvente traz essa sensação possibilitando às mulheres de desempenharem suas funções diárias, seja em casa, no trabalho ou nas unidades de ensino. “Eu já me vi e já vi meninas nessa situação, catar moedas e adquirir o produto mais barato do mercado”, finaliza a jovem.