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17 de novembro de 2021
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Da Revista Cenarium

A Revista Cenarium realizou, ao longo do mês de março, uma série de homenagens ao poeta Thiago de Mello – que comemora 95 anos nesta terça-feira, 30 – com textos de autores reconhecidos em nossa Literatura.

O artigo de estreia foi escrito pelo poeta Zemaria Pinto, com um apanhado da história de Thiago, no dia 7 de março.

No dia 14, foi a vez do contista Thiago Roney render homenagens, em seu artigo intitulado O redemoinho da Esperança: a liberdade como vórtice na poesia de Thiago de Mello.

Em 17 de março, a Cenarium publicou as palavras do escritor Álvaro Lins (1912-1970), texto originalmente publicado em 1952, um ano após o lançamento da obra Silêncio e Palavra.

O texto do dia 21 de março foi escrito pela irmã do poeta, Maria do Céu de Mello Mestrinho, com o título Uma palavra de ternura ao meu irmão Thiago de Mello.

Em seguida, Neiza Teixeira, filósofa e coordenadora editorial da Valer, trouxe a sua homenagem com o artigo Thiago de Mello, a voz que se alteou nas Amazônias.

O poeta, ensaísta e atual presidente do Conselho Municipal de Cultura de Manaus (Concultura), Tenório Telles, encerra a série de homenagens com seu texto Poesia, vida e esperança, publicado nesta segunda-feira, 29. No dia do seu aniversário, Thiago de Mello terá uma sessão solene em comemoração na Câmara Municipal de Manaus (CMM).

Tenório Telles – Especial para Revista Cenarium

A arte não é um fenômeno alheio à vida, aos anseios humanos e aos sonhos que movem os artistas na criação de suas obras. Todo objeto criativo nasce da relação tensiva, contraditória e misteriosa dos criadores com o mundo e seus paradoxos. Nossas experiências, nosso aprendizado e os frutos do nosso imaginário se consubstanciam dentro da vida e dela brotam como uma fonte inesgotável de vivências e sabedoria.

A poesia de Thiago de Mello foi macerada, ao longo de sua existência, com a matéria da vida, sua busca e esperança, e tecida com os múltiplos fios de seu verbo poético – matizado de cores, cheiros, formas e sentidos que o eu lírico foi apreendendo ao longo de seu itinerário existencial. Enraizado na realidade, é o viver que enseja todo o processo artístico.

Thiago de Mello, no poema “O pássaro louco”, de seu livro de estreia, “Silêncio e palavra” (1951), reflete sobre o poeta e sua capacidade de apreensão dos mistérios do mundo [prefigurado no pássaro] e seu engenho criativo, a poesia – deixando claro que o que importa, afinal de contas, não é a aparência das coisas, a “plumagem”, seu aspecto formal, mas seu estado de ser, sua interioridade e sua forma de olhar o real, singular e profunda – “o efêmero pouso / fincado no azul”:

É apenas um pássaro.

De adornos sucintos

e pobre plumagem.

No entanto, rejeita

o pouso mais rútilo

de toda a paisagem

que o mundo lhe oferta.

(…)

Somente alça o voo

no justo momento

– e súbito canta! –:

é quando vislumbra

o efêmero pouso

fincado no azul.

Elevar-se acima da vida ordinária, transcendê-la e decifrar-lhe a face – eis o momento revelador que os poetas, os profetas e os santos vivem em sua procura solitária, comumente incompreendidos: são lavradores desses desertos em que se transformou nosso viver – e a própria vida.

Thiago sabia desse fundamento oculto que entranha o verbo e que o potencializa, como uma pequena semente que traz em si, em seu âmago irrevelado, a árvore com suas folhas, frutos e sabores. E ele o revela num de seus “Tercetos de amor”, da obra “Num campo de margaridas” (1986) – pequena pérola poética, em que enuncia o mistério do nascimento de uma flor e seu existir pleno e fugaz:

Vi quando a rosa se abriu.

Como a eternidade

pode ser tão fugaz.

Como a vida assume formas novas e se imbrica em caminhos tão diversos, a poesia de Thiago de Mello assumiu configurações particulares ao longo do tempo – se metamorfoseando e incorporando temas e espelhando a face multifacetada da realidade. Não foi indiferente às dores e injustiças do mundo, como deixa claro em “Quando a verdade for flama”, do livro “Mormaço na floresta” (1981):

As colunas da injustiça

sei que só vão desabar

quando o meu povo, sabendo

que existe, souber achar

dentro da vida, o caminho

que leva à libertação.

(…)

Quando a verdade for flama

nos olhos da multidão,

o que em nós hoje é palavra

no povo vai ser ação.

A poesia é uma forma de negação desses sentimentos e atitudes que embaçam a existência. Num de seus poemas mais emblemáticos, “A verdade”, do livro “Poesia comprometida com a minha e a tua vida” (1975), expressa um aspecto pouco discutido de sua obra: o conteúdo filosófico de sua lírica – em que associa o verdadeiro a uma luz sufocada pela escuridão – porém, aquele que a encontra tem seu existir iluminado e a realidade se transfigura epifânica e transparente a sua percepção e compreensão interior:

A verdade é a luz pequena

ardendo na escuridão.

Da terra, ela nasce e cresce

de vida, na tua mão.

(…)

Ninguém a vê. De repente,

é um sol imenso no peito

da multidão: é a verdade

no centro do seu poder.

 A poesia de Thiago de Mello é uma declaração de amor à vida, uma afirmação de seus compromissos com o ser humano, com a liberdade e a mudança. Toda a sua jornada, com seus percalços, seus desencontros e suas fraquezas, é apenas uma afirmação de sua humanidade e da força que o moveu ao longo de seu percurso lírico-existencial. No poema “Silêncio e palavra”, da obra homônima, o sujeito criador evoca um testemunho dessa história que começou nas margens do Paraná do Ramos, em Barreirinha, e se espraiou pelo mundo, levada pelos ventos da sua jornada e suas circunstâncias:  

A couraça das palavras

protege nosso silêncio

e esconde aquilo que somos.

(…)

O tempo madura a fruta,

turva o fulgor da esperança.

Na suavidade da treva

urde o resplendor da rosa.

(…)

Chegará quem sabe o dia

em que a oferenda dos deuses

dada em forma de silêncio,

em palavra transfaremos.

A vida de Thiago de Mello é afirmativa desses desígnios da sorte ou do destino: nascido em Barreirinha a 30 de março de 1926, ainda menino estabeleceu-se com a família em Manaus, onde aprendeu as primeiras letras e pôde frequentar a escola e, sob a orientação das professoras Clotilde Pinheiro e dona Aurélia aprendeu a mágica das palavras e da poesia, como ele reconheceu publicamente: “Estudei no grupo escolar José Paranaguá, onde, e graças a particularmente duas professoras, a dona Clotilde Pinheiro e a dona Aurélia do Rego Barros, eu descobri que o homem era capaz de criar a beleza. Eu, aos 9 anos de idade, já tinha lido os poemas de Casimiro de Abreu…”.

Quando o poeta partiu para o Rio de Janeiro, após a conclusão dos estudos secundários, para estudar medicina, já levava no peito a chama da inquietação e a consciência de que o verbo é uma caixa de segredos que se se transfigura em linguagem alada pela engenhosidade do artífice da palavra, como testemunha: “Eu fui capaz de uma coisa muito importante para minha vida, antes de qualquer influência literária. Passava para o quinto ano de medicina, quando decidi enfrentar a sério a opção que se colocava dentro de mim, desde o segundo ano, entre a literatura e a ciência. Eu optei pela literatura, o que entristeceu muito meu pai”.

Foi dessa forma, tendo que fazer escolhas e tomar decisões, que se fez poeta e ardoroso defensor da liberdade, da esperança e da crença nas possibilidades de construção de um mundo menos injusto, temas recorrentes em sua obra. Essa crença o levou para o exílio na Europa, após o golpe militar de 1964, de onde retornou no final dos anos 1970, passando a residir em Barreirinha, numa espécie de reencontro com o passado e suas origens. A infância – porto originário, para onde sempre voltamos.

O poeta chega aos 95 anos de sua vida. Sua poesia é seu tributo e também seu legado a sua terra e sua gente. A celebração de mais uma primavera, com as cores de outono, é uma dádiva merecida pela sua história, coragem e por ter se mantido fiel a si, suas crenças, valores e amor pela humanidade, como declara no poema “Os estatutos do homem”, enfeixado em “Faz escuro/ mas eu canto”:

Art. I     Fica decretado que agora vale a verdade,

             que agora vale a vida,

             e que de mãos dadas,

             trabalharemos todos pela vida verdadeira.

             (…)

Art. VIII Fica decretado que a maior dor

             sempre foi e será sempre

             não poder dar-se amor a quem se ama

             e saber que é a água

             que dá à planta o milagre da flor.

             (…)

Parágrafo Único: Só uma coisa fica proibida:

                          amar sem amor.

Thiago de Mello cumpriu como poucos sua vida e seu ofício como mestre das palavras. Como dizia o apóstolo Paulo – “Combati o bom combate… guardei a fé” –, assim também se deu com esse filho da Amazônia: consagrou-se à palavra poética, à causa da solidariedade humana, o amor ao próximo e à beleza. Hoje colhe os frutos do reconhecimento pelo seu exemplo de dedicação ao próximo e ao seu ofício criativo.

As celebrações pela passagem de seu aniversário, nessa homenagem que lhe presta a cidade de Manaus, são mais que um reconhecimento – constituem uma dádiva pela sua história e pela sua obra, tecida com os fios luminosos da verdade, da coragem, humanidade e esperança.

Tenório Telles é doutorando em Literatura e Crítica Literária pela PUC de São Paulo e presidente do Concultura (Walter Barbosa/Concultura)

O autor

Tenório Telles nasceu na localidade de São Tomé (rio Purus), no Amazonas. É licenciado em Letras (1989), com habilitação em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira e Portuguesa, pela Universidade Federal do Amazonas, onde também bacharelou-se em Direito (1996). Porém, sua paixão pela literatura o fez trilhar os caminhos da poesia, da dramaturgia, da crítica literária, do magistério e do trabalho de “semeador de livros”.

É autor de Primeiros Fragmentos (1988), sua obra inaugural, seguida da peça A derrota do mito (1995) – que ficou em cartaz por três temporadas, entre 1997 e 1999, sob a chancela do Núcleo de Teatro Jiquitaia, sendo publicada em 2003.

No transcurso da década de 1990 publicou algumas reuniões e ensaios, como Estudos de literatura brasileira e amazonense (1995) e Leituras Críticas (1996). No mesmo ano, foram lançados o CD-ROM O Amazonas em sua literatura e o documentário Itinerários da literatura moderna amazonense, roteirizado e dirigido por Telles. Nos primeiros anos da década de 2000, publicou O anjo cético e o sentimento do mundo (2003), Introdução à Literatura Brasileira (2003), Estudos de literatura do Amazonas (2004).

Trabalhou, em parceria com o professor Marcos Frederico Krüger, em duas antologias: Poesia e Poetas do Amazonas (2006) e Antologia do Conto Amazonense (2009), seguidos de Viver (2011), A nova ortografia da língua portuguesa (2011), Os Passarinhos e os outros bichos (2012), seguido por Renovação (2013), Canção da Esperança (2014), Clube da Madrugada – presença modernista no Amazonas (2014), com ensaios sobre o movimento e seus principais autores.

Concluiu, em 2018, o mestrado no programa de Literatura e Crítica Literária da PUC de São Paulo, com a pesquisa “O Sagrado na lírica de Murilo Mendes”. É doutorando no mesmo programa, com o projeto de estudo sobre a lírica e o sagrado na contemporaneidade, com ênfase na poesia de Hölderlin e Murilo Mendes. Seu livro mais recente é o Estudos de literatura do Amazonas (2021), em coautoria com o professor Paulo Graça (in memoriam).

Atualmente, ocupa o cargo de presidente do Conselho Municipal de Cultura de Manaus (Concultura).

Edição: Alessandra Leite