Polícia Federal instaura investigação após garimpo ilegal mudar cor da água de Alter do Chão, no Pará

Bruno Pacheco – Da Revista Cenarium

MANAUS — Após o aumento de desmatamento, garimpo e esgoto provocar a mudança na cor da água de Alter do Chão, no Pará, a Polícia Federal (PF) instaurou um inquérito policial para investigar o caso. O ‘caribe brasileiro’, como a região é conhecida, está ameaçado, segundo alertaram pesquisadores em meio à exposição de fotos aéreas que mostram a escuridão do rio Tapajós, na área do distrito que pertence ao município da cidade paraense Santarém.

De acordo com a PF, a investigação foi aberta na última quinta-feira, 20. Peritos foram enviados para a região com o objetivo de fazer um sobrevoo, nessa segunda-feira, 24, com duas aeronaves do Instituto Chico Mendes de Conservação e Biodiversidade (ICMBio), e colherem amostras da água turva em diferentes pontos do rio para análise e laudo pericial.

“Além da Polícia Federal e do ICMBio, a comitiva será composta por integrantes do Ministério Público, técnicos do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e pesquisadores da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa). A vistoria visa analisar, entre outras questões, a extensão da mancha que está ocasionando a mudança da coloração do rio Tapajós”, diz trecho de nota divulgada pela Polícia Federal.

Água escura

Em dezembro de 2021, imagens aéreas registradas de um sobrevoo feito pelo médico Erik Jennings Simões no rio Tapajós já mostravam a mudança na cor da água. Em um vídeo compartilhado nas redes sociais, é possível ver a água barrenta do rio, enquanto o rio Arapiuns tem a água preta, tonalidade considerada normal para o período ano.

“Rio Tapajós, 30/12/2021. Nesta época do ano, chove nos dois rios. Mas só o rio Tapajós ficou barrento. Alter do Chão, 30/12/2021. Não é a chuva que polui e suja o rio, é o homem. Você pode ajudar a salvar o Tapajós”, diz vídeo publicado pelo médico.

Em outra postagem, o médico lembrou que a tonalidade da água que costumava ficar na cor azul esverdeado nos meses de dezembro e afirmou que as águas turvas trazem sedimentos com mercúrio, arsênio, chumbo e outros metais pesados.

“O rio Tapajós que era azul esverdeado agora em dezembro já é cor de lama. A cada ano a ‘janela’ de águas claras tem seu tempo reduzido. As águas turvas trazem sedimentos com mercúrio, arsênio, chumbo e outros metais pesados altamente lesivos a saúde humana, a flora e a fauna”, publicou, no Instagram.

Após a repercussão do caso, o coordenador da ONG Projeto Saúde e Alegria, Caetano Scannavino, também denunciou a alteração na cor do rio Tapajós. Nas redes sociais, o ativista destacou que tem trabalhado por respostas sobre a mudança da tonalidade do rio.

“Trabalhando aqui junto com o Dr. @erikjenningssimoes e outros colegas de batalha por um Tapajós vivo e limpo, somando esforços por respostas a essas mudanças da coloração das águas antes verdes cristalinas desse abençoado rio. Preocupa o que estamos fazendo com ele”, comentou Scannavino.

Na publicação, Scannavino destacou ainda de um sobrevoo feito por ele em agosto do ano passado, em Itaituba e Miritituba, no Pará, que flagrou os rios da região cobertos por uma lama de coloração verde. A região é a zona portuária de embarque de grãos, e fica em área próxima de garimpos, que chegam a despejar 7 milhões de toneladas de sedimentos anualmente, segundo relatado pela Polícia Federal.

“Assim como os garimpos ilegais, essa lama leitosa segue aumentando. E as algas que esverdeiam as águas também, se multiplicando com a acumulação excessiva de matéria orgânica (eutrofização). Tem as ocorrências naturais, mas elas vêm crescendo também pela ação humana (nutrientes em esgotos, da agricultura, uso de fertilizantes, a retirada da cobertura natural, o manejo inadequado do solo, transporte de cianobactérias em água de lastro de navios…). Valeria aprofundar as pesquisas, saber se há também relação das cianobactérias com o pó dos grãos que se espalha pelas águas em meio aos tantos carregos de soja nas Estações de Transbordo, ou qual razão dessa proliferação acima da média, consequências, impactos”, escreveu Scannavino.

Presença de toxinas

Em 2020, um estudo feito pela doutora em ciências biológicas Dávia Talgatti, da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), identificou a presença de toxinas, em quantidade relevante, já na área de Alter do Chão. Além disso, moradores e agências de turismo vêm percebendo a mudança de coloração do rio e cobrando que as autoridades tomem medidas para analisar a água e identificar o problema.

Na última quarta-feira, 19, técnicos da Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará (Semas) chegaram ao município de Santarém para avaliar as condições da água. Coordenado pelo secretário estadual de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará, Mauro O’ de Almeida, o grupo realiza teste de medição dos parâmetros físicos para checar a turbidez da água do rio Tapajós. Ainda não foram divulgados resultados da pesquisa.

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