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25 de janeiro de 2022
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Nauzila Campos – Da Revista Cenarium

MANAUS — O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) é a base que encarece os preços em geral no Brasil. Principal indicador da inflação, o IPCA já superou os 10% no acumulado dos últimos 12 meses — e isso não acontecia desde 2015. Produtos estão mais caros do que nunca estiveram.

O mundo já vive um processo de recuperação econômica após os impactos da pandemia, com ajuda fundamental da vacinação. Mas o aparecimento de novas variantes, muito relacionado ao negacionismo presente em diversos países (o qual compromete o controle do vírus por vacinação e a saída do título de pandemia pela Organização Mundial da Saúde, OMS), tem brecado esse seguimento.

No Brasil, pela sua política econômica peculiar aplicada desde 2019 com o governo Bolsonaro e direcionada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, essas consequências são ainda maiores. Uma recuperação econômica é considerada ainda mais distante pelos economistas. “O Brasil ainda está bem longe disso. (…) Com a inflação fechando 2021 acima dos 10% pelo IPCA (previsão de 10,42% — Agência Brasil), a tendência é manter-se elevada ainda em 2022, por falta de perspectivas de crescimento econômico. Em um ciclo econômico normal, os meios de produção produzem, gerando emprego e renda. Com renda, o trabalhador consome e estimula a produção e o ciclo se renova. Não é o que está acontecendo no Brasil”, assevera a economista Denise Kassama.

‘Estaginflação’

Nem toda culpa pode ser atribuída à gestão de Paulo Guedes. Crise hídrica com chuvas escassas, quebra de safras e entressafras, aumento do dólar e, por óbvio, a pandemia, fazem parte do descontrole econômico. No entanto, a política econômica falha ao negligenciar o combate ao cenário real brasileiro. É o que explica Kaassama. “Não havendo fatores que mudem esta situação, uma baixa atividade econômica tende a levar o país para uma ‘ESTAGINFLAÇÃO’ (inflação com estagnação econômica). Cabe ressaltar que a inflação brasileira não é uma inflação de demanda (quando os preços aumentam em razão do aumento pela procura de bens e serviços). Neste caso, o aumento da taxa Selic com o propósito de desestimular o consumo seria mecanismo adequado”.

O problema é que aumentar a Selic (taxa básica de juros) em um país onde a inflação chega a patamares faraônicos, é mais prejudicial que resolutivo à maioria. “A inflação brasileira está relacionada a problemas de oferta e também está atingindo o mundo inteiro de diferentes maneiras, pois a pandemia provocou o desalinhamento de cadeias produtivas no mundo inteiro. Entretanto, neste caso, e considerando um cenário econômico de baixo crescimento, o aumento da taxa Selic penaliza de forma cruel a maioria dos brasileiros e, em especial, aqueles que tiveram suas rendas prejudicadas pela pandemia, gerando cenas desumanas de brasileiros fazendo fila para comprar ossos de boi ou revirando lixos atrás de restos de comida”, lembra a economista de tristes cenas de miséria acompanhadas em 2021.

Na soma de desempregados e subocupados, são 30 milhões de brasileiros. Sem contar com o fato de que o trabalho escravo sofre de subnotificação desde a extinção do Ministério do Trabalho e Emprego na gestão Bolsonaro. As fiscalizações foram reduzidas significativamente e a falta de dados prejudica a criação de políticas públicas nesse tipo de enfrentamento.

Nos Estados do Norte, o incentivo econômico encontra ainda mais entraves por problemas logísticos e a ainda atual dependência produtiva do Sul e Sudeste. A solução poderia partir de um engajamento do governo federal ao setor produtivo, do micro às grandes indústrias. “Entretanto, este governo prefere, por exemplo, reduzir alíquotas de Imposto de Importação para facilitar a entrada de produtos estrangeiros ao invés de estimular a indústria nacional”, conclui Denise.